Chineses, japoneses, coreanos e filipinos representam 15% do total de imigrantes em São Luís.

Segundo a Superintendência Regional da Polícia Federal do Maranhão, o grupo de estrangeiros que mais cresceu em São Luís nos últimos anos foi o de asiáticos. Vindos de países como a China, Japão, Coreia do Sul e Filipinas, principalmente, eles representam 15% do total, chegando a mais de 300 pessoas. A maioria se instalou na Rua Grande, onde atua no comércio informal.

A partir das 18h30, coreanos, chineses e outros asiáticos se misturam com o fluxo intenso de pessoas que saem das lojas no Centro e transitam pela Rua Grande e transversais. Divididos em duplas ou trios, eles organizam rapidamente suas mercadorias em lonas espalhadas pelas calçadas e, em menos de uma hora, conseguem fechar negócios rápidos e lucrativos para os vendedores e compradores – as conhecidas ‘pechinchas’. Muitos têm lojas em ruas como a de Santana.

O delegado de Imigração da Polícia Federal (PF), Luís André Lima Almeida, informou que há 309 asiáticos com visto dentro do prazo para permanecer no estado, 115 chineses, 92, filipinos , 57 sul-coreanos e 45 japoneses. Desse total, a maioria, garante, está em São Luís. “Nós não sabemos quantos imigrante ‘ilegais’ há na cidade, mas acreditamos que o número de imigrantes irregulares supera o do que estão legalizados”, comentou.

Turista

Segundo ele, os asiáticos estão imigrando para diversos países do mundo, inclusive o Brasil. Para facilitar sua entrada nos países, eles requerem o visto de turista que, no Brasil, é o mais fácil de ser concedido, mas chegando aqui eles começam a desenvolver atividade remunerada, o que é vetado pela legislação. A estada de um estrangeiro portador de visto de turista no Brasil não pode ultrapassar 180 dias, por ano.

Pelas informações da PF, os asiáticos que chegam com visto temporário de permanência em muitos casos conseguem ‘brechas’ na legislação, que permite sua permanência em definitivo no município. Uma dessas ‘brechas’ está ligada às mulheres asiáticas. Algumas delas chegam a São Luís grávidas, próximo de darem à luz uma criança. Com um filho nascido na capital maranhense, os pais têm condições de solicitar o visto de permanência. “O nascimento de filhos ou casamento é o principal mecanismo que estrangeiros irregulares utilizam para conseguir o visto permanente”, frisou.

Além disso, muitos imigrantes asiáticos que estavam em São Luís de forma ‘ilegal’ deram entrada em sua anistia migratória, sancionada em julho de 2009, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Esse projeto permitiu que os estrangeiros em situação irregular no Brasil, até o dia 1º de fevereiro daquele ano, regularizassem sua situação e tivessem liberdade de circulação, direito de trabalhar, acesso à saúde e educação públicas e à Justiça.

Legalizados

Mas, entre os asiáticos, há muitos legalizados, como o chinês Nin Sung. Ele mora no Brasil há 18 anos e teve dois filhos no país. Há 15 anos ele se mudou para a capital maranhense, onde montou uma loja na Rua de Santana e vende produtos diversos. Com ele, trabalham a irmã, um sobrinho, três amigos asiáticos e seis brasileiros. “Todos os meus produtos têm nota fiscal, mas quando fazem fiscalização levam tudo e só depois perguntam se eu estou legal”, reclamou.

Nin Sung, que tem 41 anos, disse que decidiu vir para o Brasil porque não tinha oportunidades de trabalho na China. Ele chegou inicialmente a Fortaleza, onde morou por cinco anos, mas foi em São Luís que constituiu família e montou seu negócio, onde vende produtos importados, como diz. “Aqui é um país bom para se viver. As pessoas são tranquilas. Na China, tem muita gente, pouco trabalho. Aqui você vive de forma mais livre”, afirmou.

Os filipinos representam o segundo maior grupo asiático na capital. A maioria vem como tripulante nos navios que atracam no Porto do Itaqui. Muitos desembarcam e se estabelecem na Ilha. De acordo com o delegado Luís André Lima Almeida, o Serviço de Inteligência da PF cataloga os imigrantes ilegais e envia uma notificação pedindo que se regularizem. Caso isso não aconteça, são feitos os procedimentos cabíveis para que ele retorne ao seu país de origem. “O problema é que os custos são altos e bancados pelo governo brasileiro, por isso não há muitas operações nesse sentido”, informou.

Atrativos

Os portugueses são a maior comunidade estrangeira na capital, com 283 pessoas. A maioria são homens entre 40 e 50 anos que já são casados com brasileiras e vem de Portugal para São Luís em busca de oportunidades de emprego, já que o país ainda está recuperando sua estabilidade econômica, segundo o Consulado de Portugal no Maranhão. Muitos portugueses usam São Luís como porta de entrada para cidades do interior do estado. Imperatriz e Balsas, centros que estão em desenvolvimento no estado, são os municípios mais procurados pelos portugueses.

O clima, a hospitalidade, a história de São Luís. São muitos os motivos pelos quais estrangeiros escolhem a capital maranhense para morar. Alguns simplesmente se encantam com a cidade durante uma visita e decidem ficar. Outros vêm por indicação de amigos. No fim, apesar da saudade da terra natal, o sentimento é o mesmo, o desejo de continuar morando na capital. O Estado conversou com alguns imigrantes e traz suas histórias de amor por São Luís.

O delegado Luís André Lima Almeida afirmou que a vinda de estrangeiros para a capital maranhense se deve principalmente por três motivos. O principal é a abertura e novos negócios em todo o estado, que necessitam de mão de obra especializada e consultores. Avistando as vagas que se abrem, muitos se estabelecem na capital e viajam para o interior para trabalhar. Outro motivo é a migração de asiáticos para diversas partes do mundo. “São Luís tem, ainda, um traço cultural muito específico, se comparada a outras cidades nordestinas”, disse.

A cidade se transformou, também, em um centro de intercâmbio cultural. Por ser uma região metropolitana de médio porte, muitas famílias se sentem mais seguras para enviar seus filhos para estudarem na capital, por considerá-la mais segura que centros como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, cidades que mais atraem estrangeiros no Brasil. Os principais intercambistas em São Luís são os americanos, em segundo lugar ficam os alemães.

A capital do Maranhão tem uma série de casarões abandonados em seu Centro Histórico. Hoje, existem pelo menos 40 em risco de desabamento. Mas muitos estrangeiros que chegam e se encantam pela cidade enxergam, em um prédio abandonado, oportunidade de lucro, bons negócios e preservação da história e da arquitetura da cidade. Os números são imprecisos, mas é estimado que pelo menos 20 estrangeiros reformaram casarões com algum tipo de risco de desabamento e os transformaram em hotéis e restaurantes.

Entre os estrangeiros que vieram estudar na capital, está Euclides Mendes de Carvalho. Ele tem 25 anos e há 5 anos veio de Bissau, capital da Guiné-Bissau, um país da costa ocidental da África. Por meio do Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), do Governo Federal brasileiro, que oferece oportunidades de formação superior a cidadãos de países em desenvolvimento, com os quais o Brasil mantém acordos educacionais e culturais, ele está concluindo o curso de Comunicação Social na Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Euclides Mendes de Carvalho disse que se surpreendeu ao chegar ao Brasil e pensou em voltar para seu país, mas agora espera conseguir um emprego e continuar em São Luís. “O Brasil que eu via na mídia era muito diferente da realidade que eu conheci aqui. Isso me assustou um pouco, mas, como já tinha um amigo que também estudava na UFMA, que foi quem me indicou o curso, decidi ficar. A minha permanência dependerá das oportunidades que eu conseguir aqui, apesar da saudade que sinto da minha família, gostaria de ficar”, disse.

Mas há estrangeiros que trocaram seu país natal por São Luís há muito mais tempo. É o caso do italiano Mario Cella, que hoje tem 73 anos e chegou à capital em 1965. À época, ele era padre, ficou hospedado e deu aulas no Seminário de Santo Antônio, no Centro. Em 1969, ele ingressou como professor do Departamento de Filosofia da UFMA, mas como o trabalho era incompatível com a vida de sacerdote, pediu dispensa da Igreja.

Hoje, é casado, há 40 anos, tem três filhos e é dono de uma das mais tradicionais pizzarias de São Luís, mas não esquece seu país natal. “Eu adoro o Brasil, pois ele me acolheu, me deu a família que tenho, mas continuo sendo italiano”, comentou. A comunidade italiana é a segunda maior do estado.

Abrindo o jogo

Quando você chegou a São Luís, em 1965, quais foram suas principais dificuldades?

Mario Cella – Eu vim como sacerdote. Queria trabalhar pela América Latina. Como eu tinha me preparado para isso, não tive grandes dificuldades. Só o idioma, mas eu aprendi rápido. Eu queria trabalhar com a juventude, dar aulas, e na Europa você só chega à universidade com 40 anos. Aqui, com 25, eu já dava aulas.

Além de sacerdote, que outras atividades o senhor desenvolveu em São Luís?

Mario Cella – Fiquei cinco anos como padre. Nesse período trabalhei no jornal da Arquidiocese. Em 1969 comecei a dar aulas na UFMA, mas como não podia conciliar as duas atividades, pedi dispensa do sacerdócio. Em 1995, me aposentei como professor e abrir minha pizzaria, que mantenho até hoje, com receitas tipicamente italianas. Também fui agente consular da Itália no Maranhão.

O senhor mora há 48 anos em São Luís. Já voltou à Itália?

Mario Cella – Sim, algumas vezes. Sou do norte da Itália e é sempre muito bom retornar. Hoje tenho dupla cidadania, meus filhos e netos também. A gente não vai mais vezes porque é caro. Sou muito grato ao Brasil. Nunca pensei em voltar a morar na Itália.

Então, o senhor se considera italiano?

Mario Cella – Sim, eu sou italiano. Eu tenho um vínculo muito forte com a Itália. Sou torcedor da Ferrari, acho Enzo Ferrari um gênio. Admiro a obra de Verdi, que nasceu em uma cidade que fica a 60 quilômetros da minha. Tenho a bandeira do meu país no meu escritório sempre, ao lado da bandeira da Ferrari.

Quanto ao futebol, quando as duas seleções jogam contra si, eu torço pela que estiver com melhor time.

(Maranhão News – 11/11/2013)