Cerca de 50 haitianos chegam ao Brasil a cada dia. A maioria ruma a São Paulo.

Após o terremoto avassalador que destruiu a já precária infraestrutura do Haiti e deixou 300 mil mortos no país em 2010, o número de haitianos imigrantes em terras brasileiras aumentou consideravelmente: enquanto um pouco antes do desastre a delegacia da Polícia Federal, em Brasileia (cidade do Acre que funciona como porta de entrada para o solo brasileiro), contabilizava 37 haitianos solicitando vistos de permanência, em 2010 esse número passou para 982 e em 2013, apenas durante o mês de abril, somou 1771 casos.

A grande maioria dos haitianos que vêm tentar uma nova vida no Brasil almeja a cidade de São Paulo como destino final. Os haitianos, que vivem, em média, com apenas US$ 3,6 por dia, procuram a capital paulista pelo fato de, além de acumular amplas oportunidades de trabalho em serviços pesados (como construções civis) para os homens – que, em geral, compõe a maior parte da imigração haitiana para o Brasil -, a cidade é vista como cosmopolita, uma vez que concentra, praticamente, a metade dos imigrantes estabelecidos no país.

O outro lado da hospitalidade brasileira

Para discutir a integração e a interação de imigrantes e refugiados em diferentes espaços sociais (como a família, trabalho, saúde ou educação), a ONG Missão Paz, dedicada a acolhida de imigrantes e refugiados, realizou a segunda edição do seminário “Vozes e Olhares Cruzados”. Nele, representantes da Bolívia, China, Congo, Cuba, Haiti, Paraguai e Peru relataram suas experiências e dificuldades no Brasil e discutiram o que se passa por trás da famosa “hospitalidade brasileira”.

Paulo Parisi, diretor do Centro de Estudos Migratórios da Missão Paz explicou que “o Brasil é conhecido como um país acolhedor, mas existe muito de mito nisso. Ele é acolhedor com o turista, com o europeu… Mas tem que ser um pouco mais acolhedor, eu diria, com os africanos, com outras proveniências”.

Superlotação e condições deploráveis

Parisi falou também sobre as precárias condições de vida dos haitianos no Brasil: “Nós temos uma capacidade de 110 pessoas por dia, de acolhida. Mas aí acontece que muitos moram em pensões, alguns moram em cortiços… Tem alguns também que, no município de Santo André, estão morando em favelas… Então, o problema da moradia é um problema e em que falta não só uma política cartorial, de entrega de vistos, mas uma política de integração”, disse.

As condições às quais os imigrantes do Haiti são submetidos à sua chegada ao Brasil também foi assunto de uma das reuniões da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). Não é raro eles serem sujeitados a acomodações lotadas, falta de higiene e outras condições precárias.

Baixa concentração de imigrantes no Brasil

Apenas a Organização Missão de Paz, responsável pelo seminário “Vozes e Olhares Cruzados”, recebeu 4573 imigrantes e refugiados de 20 diferentes denominações religiosas e 68 diferentes nacionalidades nesse ano – o número só tende a aumentar. Apesar disso, a porcentagem de imigrantes no país gira em torno de 0,3% da população brasileira total, (o equivalente a 1,5 milhão de estrangeiros no Brasil) – número baixo em relação a países como Canadá, Austrália e Suíça, onde mais de 20% dos residentes são imigrantes, segundo o Ministério da Justiça.

Gabriela Isaias