TERRA E TRABALHO ESTRANGEIROS

Profissionais de sete países e culturas distantes contam como é viver e trabalhar no Brasil.

Da República Democrática do Congo, Jean Pierre Ntula viajou ao Brasil em busca de independência há 15 anos e por aqui decidiu ficar por causa dos conflitos em seu país. Começou dando aulas de francês, cargo que ainda ocupa no Plan Idiomas, e, em 2010, foi contratado como assessor jurídico da Oi. Mas, por um tempo, sofreu com barreiras como cultura e idioma. Ele não conseguia entender, por exemplo, a expressão “pisou na bola” e algumas vezes se sentia excluído das conversas. Até que um dia, assistindo a uma partida de futebol, o zagueiro pisou na bola e perdeu a jogada.

— Aí é que percebi o significado — conta Ntula, acrescentando que demorou um ano para realmente compreender o Brasil. — Conseguir emprego era quase impossível devido ao grande empecilho que é a cultura. Só quando você começa a entender as brincadeiras e piadas é que se entrosa.
Português com a mulher

Um país onde o estagiário tem liberdade para abordar o diretor no corredor. Mas onde agradecimentos não são comuns. Lugar em que a informalidade facilita contatos. Mas onde pode haver problemas de entrosamento por falta de entendimento de uma piada. Essas são algumas das questões compartilhadas por Ntula e outros sete profissionais de sete países — Marrocos, Senegal, Finlândia, Turquia, Eslováquia e Ilhas Maurício, além do Congo — que trabalham no Rio e, atendendo a convite do Boa Chance, se reuniram para uma troca de experiências sobre como tem sido a vida no Brasil.

A ideia era conversar com profissionais de culturas bem diferentes da nossa. E os gringos falaram mais bem do que mal do Brasil: povo e colegas receptivos e com disposição para ajudar são outras das características exaltadas por eles.

Hoje nossos estrangeiros são bem numerosos. Segundo dados do Ministério do Trabalho, em 2013, foram concedidas 62.387 autorizações de trabalho permanente e temporário no Brasil — em 2012, 67.220; em 2011, 69.077 e, em 2010, 55.471. E as histórias são as mais variadas: há quem venha enviado por sua empresa por tempo curto, outros sem prazo para voltar, quem chegue para tentar a sorte e os que vêm para cá mais por razões pessoais.

Caso do marroquino Rabie Marjane, que desembarcou no Rio há sete anos para se casar com uma brasileira que conhecera via internet. Trabalha como supervisor do Departamento de Reservas do Caesar Park, em Ipanema, e domina o português, além de falar francês, inglês, árabe e espanhol.

— Mas nunca fiz curso. Aprendi tudo com minha mulher e no dia a dia — conta Marjane, que chegou até a procurar aulas para fazer, mas desistiu em função dos preços altos. — Principalmente para o recém-chegado, que ainda não sabe como organizar suas finanças.

Foi também com a mulher que Andrew Bapniah, diretor executivo da Vila St. Gallen, em Teresópolis, aprendeu a falar português. Nascido nas Ilhas Maurício, mas tendo vivido muito tempo em Londres, é casado com uma brasileira, que sempre dizia que queria voltar. Até que, há seis meses, sem que estivessem procurando, surgiu a oportunidade de trabalho.

— Em casa falamos em inglês, mas a cada dia estou entendendo melhor — responde Bapniah, em inglês, para logo em seguida completar, em português. — Eu acho que meu português está legal.

Mais reclamação que elogio

Bapniah diz que o melhor de trabalhar por aqui são as pessoas, que, segundo ele, estão sempre sorrindo, porém, se queixa de não haver mais políticas de reconhecimento:

— Em Londres, o ambiente de trabalho era muito mais formal. Aqui, é mais informal, o que é bom, apesar de resultar em menos reconhecimento e agradecimento. Há muito mais reclamações do que elogios.

Já o turco Sunusi Turfanda, que está no Rio desde setembro passado, mesmo depois de pedir alguns minutos para pensar, não foi capaz de apontar nenhum ponto negativo de trabalhar aqui. Para o engenheiro, a comunicação entre pessoas funciona melhor do que em seu país de origem — apesar de ele ainda estar aprendendo o português e falar em inglês com a maioria dos colegas da Chemtech, onde é responsável pela promoção do portfólio de serviços na Turquia e Europa Oriental:

— Não há preconceito e o gap entre pessoas é muito menor. O estagiário pode abordar o diretor. Na Europa, isso é mais difícil de acontecer.

Para Turfanda, complicado é fazer compras no mercado.

— Demoro uma hora só para achar um produto. Quando chego no caixa, a fila é sempre enorme. Às vezes, simplesmente desisto — conta, rindo.

Turfanda estudou português por quatro meses antes de deixar a Turquia, faz aulas aqui e diz que está entendendo cada vez melhor. Mas para falar é mais devagar. Dodi Lunda Kitwa, da República Democrática do Congo como Ntula, veio para estudar o idioma, por meio de um programa de bolsas de estudos do consulado do Brasil. Passou na prova oral, mas foi reprovado na escrita, então não conseguiu entrar na universidade, como previsto.

— Mesmo assim, decidi continuar no Brasil. Legalizei minha situação e comecei a procurar emprego — conta Dodi, mensageiro no Hotel Santa Teresa. — Comecei na construção e trabalhei como balconista numa rede de lanchonetes.

Português é principal barreira

A única mulher presente no grupo reflete também o panorama geral dos estrangeiros no Brasil. Em 2013, das 62.387 autorizações de trabalho concedidas, 55.728 foram para homens e 6.659 para mulheres. A eslovaca Ditta Dolejsiova está no Brasil há sete anos e há quatro no Rio de Janeiro, onde trabalha na Universidade da Juventude.

— Nunca imaginei que ficaria tanto tempo. Primeiro cheguei com interesse em pesquisar as experiências de inovações sociais no Brasil com o intuito de começar meu doutorado. Conheci várias experiências interessantes do Rio de Janeiro até o Acre, e me apaixonei pelo Brasil — relata Ditta, que é formada em relações internacionais e especializada em políticas públicas e terceiro setor.

Para Ditta, que fala português muito bem (ela chegou a morar um ano em Portugal), para um estrangeiro conseguir viver e trabalhar bem no Brasil, é fundamental dominar a língua e também ter paciência para aspectos burocráticos:

— A principal diferença é que, na Europa, a pontualidade, o planejamento e a estrutura representam as bases dos relacionamentos profissionais. No Brasil, é muito mais o improviso, a vontade de fazer e a fé que vai dar certo que determina o trabalho. É mais fluido e também mais inseguro, mas tem muito mais espaço para inovação e criatividade.

O finlandês Santeri Lahdesmaki ainda não domina o idioma como a colega eslovaca, mas está quase lá. Em abril, completará um ano que o gerente de estratégias da Wärtsilä chegou à cidade, que já havia visitado sete vezes, sendo cinco a trabalho e duas de férias.

— Sempre gostei daqui. Quando me foi oferecido o cargo, achei uma boa oportunidade — responde Lahdesmaki, em bom português, acrescentando que se vira melhor nas situações sociais do que no trabalho. — Para falar sobre coisas mais avançadas ainda não estou fluente. Também quando estou em uma mesa de reunião com mais dez pessoas, por exemplo, até eu achar a palavra certa, alguém já falou na minha frente.

O gerente da Wärtsilä fala finlandês, sueco, alemão inglês, além do português.

— Acredito que, em mais seis meses, já esteja fluente — diz Lahdesmaki, que só começou a ter aulas apenas um mês depois de sua chegada. — Porque demorou bastante para organizar as coisas burocráticas, como encontrar apartamento.

Com conhecimento de seis idiomas e de português — básico, diz ele — o senegalês Oumar Ba-Medina, que veio para o Rio com a esposa brasileira há um ano e dois meses, acabou tendo facilidade para aprender sozinho. Ele, que já havia morado no Marrocos, África do Sul e Cabo Verde, trabalha como garçom no hotel Caesar Park:

— Nos outros países era professor de francês e de inglês, mas aqui foi muito difícil encontrar trabalho dando aulas.

O principal, dizem os profissionais gringos, é ter a mente aberta. Dica que vale não somente para quem vem trabalhar no Brasil, mas em qualquer país estrangeiro.

— É fundamental que cada profissional se reajuste à cultura local. Não adianta eu querer mudar o jeito dos brasileiros, não vou conseguir. Quem tem que mudar sou eu — conclui Andrew Bapniah, diretor executivo da Vila St. Gallen.

Maíra Amorim

(Globo – 30/03/2014)



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