OS CAMINHOS DA INTEGRAÇÃO

Determinados a ficar no Brasil, haitianos se organizam.

O aceno de adeus dos três filhos e da mulher detona um choro convulsivo. Mesmo sabendo que a separação não durará mais do que as nove horas de sua jornada de trabalho, Ivon Belisarie não consegue reprimir os soluços ao se despedir da família. O choro é a evidência do sofrimento de dois anos e meio em que esteve sozinho no Brasil.

Há cerca de dois meses, no entanto, Ivon conseguiu realizar um sonho que, segundo o demógrafo Duval Fernandes, da PUC-MG, é o desejo de quase todos os haitianos com mais de 30 anos que chegam ao Brasil. Juntou as magras economias e as polpudas doações que recebeu da igreja evangélica que frequenta e trouxe a família do Haiti para Maringá.

O pintor Jean Saint, de 30 anos, ainda não teve a sorte de reencontrar os parentes. Em Cascavel, ele conheceu a também haitiana Ivonete, com quem teve a bebê Sandy, de um ano. Sandy ainda não fala, mas responde a provocações e brincadeiras tanto em português quanto em francês. A menina foi apresentada aos tios e aos avós apenas pelo Skype.

Apesar da saudade, Saint está determinado a ficar no país. No fim do ano, pretende prestar o Enem para realizar o sonho de cursar o ensino superior.

Aos poucos, os haitianos começam a alterar a rotina das cidades onde vivem. Nos municípios paranaenses em que se concentram é comum vê-los circulando de bicicleta, que adotaram como meio de transporte.

No rádio, música haitiana

Há pouco mais de dois meses, uma rádio da região de Cascavel estreou o programa dominical “Haiti universal”. Às oito horas da noite, em português, francês, inglês e creole, quatro radialistas haitianos mandam recados a parentes e amigos fora do país e tocam compas, um merengue típico do Haiti. O sucesso da audiência surpreendeu os donos da rádio.

Em Curitiba, um grupo de haitianos acaba de fundar uma banda do ritmo haitiano e já tem feito shows em casas noturnas da cidade.

Ainda de modo pouco organizado, haitianos têm trazido do Mato Grosso do Sul remessas de banana-da-terra, vedete da culinária haitiana que praticamente não existe nas quitandas paranaenses:

— Estou tentando juntar um dinheiro para montar um restaurante da nossa comida nativa. Tenho certeza que seria um sucesso. E minha mulher quer abrir um salão de cabeleireiro só para haitianos, com aquelas tranças e extensões de cabelos negros que só nós sabemos fazer — afirma o cobrador Marcelin Geffrard, que cumprimenta a todos os passageiros com “bom dia” e sorrisos fartos.

A família de Ivon já foi apresentada aos problemas da Saúde Pública brasileira. Liliane, sua mulher, espera há mais de um mês por uma cirurgia de urgência para retirada de pedras na vesícula. As dores são intensas, e ela precisa passar os dias à base de analgésicos para suportar. Mas nem Liliane nem o marido se queixam do país.

— Lá no Haiti não teríamos acesso a um médico. Então, vamos esperar. Quero que meus filhos cresçam aqui. Acho que eles têm chance de ter um futuro que eu não tive — diz Ivon.

Os dois filhos mais jovens do haitiano, de 5 e 4 anos, não falam uma palavra de português, mas isso não os impediu de se entrosar com os outros meninos da rua, com quem se divertem soltando pipas.

Orlanda, sua filha mais velha, de 14 anos, exibe no caderno da escola pública que frequenta o esforço de adaptação diário. Mescla francês e português nas folhas caprichosamente escritas. Com dificuldade para se expressar, ela sintetiza de forma singela a esperança que move dezenas de milhares de haitianos até o país:

— O Brasil é bom. Eu acho que vou ser feliz aqui.

Mariana Sanches

(Globo – 17/08/2014)



Categorias:imigrantes

%d blogueiros gostam disto: