NÃO ESQUECER DAQUELES QUE FICARAM LÁ

Remessas para o exterior aumentam, mas não chegam nem à metade do valor enviado por emigrantes brasileiros para cá.  

O intenso fluxo de imigrantes africanos e haitianos que chegaram ao Brasil nos últimos anos está mudando o perfil das contas externas nacionais. Em 20 anos, a remessa de dinheiro mensal de trabalhadores estrangeiros do Brasil para o exterior aumentou 10 vezes, segundo estatísticas do Banco Central. O país, que historicamente sempre recebeu somas milionárias de brasileiros que vivem no exterior, é agora também ponto de partida de milhões de dólares.

O sonho de enriquecer tem desembarcado em massa no Brasil. Se em 2010, havia cerca de 960 mil imigrantes no país, em 2013 já era quase o dobro disso, 1,7 milhão de estrangeiros. Atraídos por uma economia aquecida e uma sociedade aparentemente mais aberta, haitianos, africanos, além de latinos, se mostram dispostos a jornadas extenuantes para acumular o suficiente para si e para os parentes que ficaram para trás. Desde 2013, quase 25 mil carteiras de trabalho foram expedidas apenas para haitianos. Mais da metade delas só no primeiro semestre de 2014.

Lucphanhoro Pierre, de Porto Príncipe, é um dos que conquistaram emprego formal nesse período. Em uma oficina de maquinário agrícola improvisada como casa, e dividida por seis haitianos, na cidade de Maringá (PR) Pierre, de 24 anos, conta que sua jornada média de trabalho dura 12 horas. Às sextas-feiras, no entanto, ele emenda o turno em um frigorífico de aves com o ofício de chapeiro de uma lanchonete. Trabalha por 16 horas ininterruptas. Seus colegas de cozinha dizem que, quando o cansaço de Pierre é muito, ele dança Compas, um merengue haitiano.

– Eu não tenho motivos para não ser feliz aqui. Já fiz os cálculos: se eu trabalhar mais 10 anos nesse ritmo, volto para a minha terra e subo em qualquer carro de marca. Lá, vou estar rico – diz. Uma parte do dinheiro que recebe no Brasil ele transfere para a mãe e a filha, que seguem vivendo no Haiti. Pierre também já trouxe ao menos outros oito parentes para o seu Eldorado brasileiro.

– Todos os haitianos no Brasil afirmam que enviam dinheiro para a família no Haiti. Todos! Seguramente isso provocou mudanças no país, embora ainda faltem estudos para determinar o impacto dessa remessa – afirma o demógrafo Duval Fernandes, da PUC-MG, que recém concluiu uma pesquisa sobre os haitianos no mercado de trabalho brasileiro.

É possível apenas estimar o peso dos haitianos na estatística do Banco Central que mostra que, em junho de 2014, imigrantes enviaram para fora US$111 milhões. Considerando-se que há hoje 40 mil haitianos no Brasil e que cerca de 80% deles são economicamente ativos e enviam, em média, US$ 200 ao mês para o Haiti, somados eles remeteriam US$ 6,4 milhões mensais às famílias. Em um ano, seria um total de US$ 76,8 milhões – 5% do total de remessas externas recebidas pelo país. O Haiti é o oitavo país mais dependente de remessas externas do mundo.

– E essa tendência de chegada de africanos e haitianos deve continuar e talvez até aumentar. Mas o crescimento econômico é cíclico e tem um prazo. Pode ocorrer aqui como aconteceu na Espanha e em Portugal, durante a última crise econômica, quando houve uma polarização entre locais e imigrantes. Os imigrantes são mais baratos para os patrões, não se pode esperar por uma harmonia entre todos os interesses – afirma Letícia Mamed, professora da Universidade Federal do Acre, que estuda a imigração dessas nacionalidades para o país.

A tensão já se iniciou. Sindicatos de trabalhadores da indústria de alimentos demonstram preocupação com a competição entre haitianos e locais por oportunidades:

– Muitos dos haitianos que estão em empregos que pagam pouco e de baixa escolaridade têm ensino superior. Não vão ficar nessas posições subalternas. Logo vão tomar as melhores vagas dos brasileiros – afirma Rivail Assunção da Silveira, presidente do Sindicato de Trabalhadores na Indústria de Alimentação de Maringá.

Apesar do temor quase xenófobo de sindicalistas, por enquanto esses imigrantes têm assumido postos não desejados por brasileiros. Estão nos trabalhos mais insalubres. Frequentemente, em situação degradante. Aceitam tais condições por medo de deportação. Especialistas afirmam que uma mudança na lei de imigração brasileira, formulada durante a ditadura militar, é fundamental. Atualmente, a lei trata imigrante irregular como caso de polícia e não lhes garante nenhum direito.

– Com a lei atual, os imigrantes acabam ficando invisíveis, porque se escondem das autoridades que podem puni-los, e se tornam presa fácil para o empresário que quer baratear a mão de obra a qualquer custo – afirma a procuradora do Trabalho em Campinas, Catarina Von Zuben. Enquanto não há mudança na legislação brasileira, o Ministério Público do Trabalho tem intensificado a fiscalização e investigado denúncias de trabalho escravo de imigrantes. Em outubro, todas as empresas paulistas que contrataram haitianos e africanos serão chamadas a uma audiência pública com o MP.

Mariana Sanches

(Globo – 27/08/2014)



Categorias:imigrantes

%d blogueiros gostam disto: