BRASIL ACOLHE, BUROCRACIA CASTIGA

Eles estão longe do seu povo, da sua cultura, dos conflitos e das perseguições e tentam reconstruir suas vidas.

Com um lenço cobrindo a cabeça e um filho pequeno no colo, uma mulher rabisca no caderno as palavras escritas no quadro negro em português. A professora voluntária faz mímica e interpreta as palavras com caretas para ajudar cerca de 15 pessoas a entender expressões como ‘ficar sem trabalho’, ‘acordar cedo’, ‘pagar’ e ‘receber’. O vocabulário já faz parte do cotidiano de sírios no Brasil, que se consolida como a nova rota de refugiados na América Latina.

A cena ocorreu na quarta-feira à noite, no terceiro andar da mesquita da Liga da Juventude Islâmica do Brasil, no Pari, área central de São Paulo. Lá, refugiados sírios que chegam todas as semanas no país tentam aprender o idioma e nutrem a expectativa de uma vida melhor. Para eles, a realidade parece tão distante desse ideal quanto a paz na Síria.

Com 1.378 refugiados reconhecidos pelo governo federal, os sírios estão no topo do ranking em território brasileiro, à frente dos colombianos, com 1.236 casos. Quase a metade obteve essa condição neste ano, com 666 solicitantes — 71,8% dos 919 refugiados de 2014. Eles se concentram na capital paulista, com 403 novos casos, índice de 60,5%.

Mas o comerciante Amer Muhamad Masarani, à frente dos sírios que ajudam os refugiados, projeta uma população bem mais numerosa. E traça um cenário nebuloso, agravado pela dificuldade para conseguir moradia. Um caso emblemático ilustra bem o drama. No ano passado, estupradores amarraram um sírio que dormia na rua e atacaram a sua mulher.

Ciente do problema, Masarani e outros cinco comerciantes sírios contribuem com R$ 300 por mês para bancar três apartamentos, que abrigam 24 pessoas. Nesta semana, o grupo inaugurou uma associação sem fins lucrativos para ajudar os refugiados. “Fizemos isso porque o Brasil não está preparado. É um país grande, com muitas riquezas. Mas o governo é desorganizado”, critica.

Segundo ele, os sírios recebem moradia e 900 euros por mês — o equivalente a R$ 2,6 mil pela cotação da moeda na sexta-feira — nos países europeus. “Chegam ao Brasil imaginando que encontrarão o mesmo tipo de tratamento”, observa.

Masarani começou a receber os conterrâneos no começo dos conflitos, há três anos. Em agosto de 2011, recebeu duas irmãs e a mãe no país onde mora há 17 anos. No mês seguinte, 70 sírios chegaram com a roupa do corpo. Mas o movimento migratório para o Brasil só se intensificou a partir de setembro de 2013, com a liberação de visto humanitário aos sírios.

O problema é que eles ainda estão recebendo visto de turista. De lá para cá, cerca de 200 sírios chegam todo mês no país. Um terço deles é ajudado por Masarani, que tem 315 nomes cadastrados após traduzir as informações dos solicitantes de refúgio e encaminhar a documentação à Polícia Federal. Apenas o primeiro passo para pessoas que precisam aprender expressões em português como ‘ficar sem trabalho’, ‘acordar cedo’, ‘pagar’ e ‘receber’.

Família separada pelo conflito

Dominique (nome fictício), 23 anos, tinha uma vida tranquila. Recepcionista em um hotel, morava com os pais e os irmãos em uma casa com quatro quartos e piscina em Damasco, capital da Síria. Uma realidade desfigurada pela guerra civil, que derrubou prédios, devastou famílias e impôs até toque de recolher. Depois de servir ao exército sírio por um ano, o irmão mais novo dele entrou em contato com a família, pedindo que todos deixassem o país. Ele planejava desertar das forças armadas e temia que a sua família fosse morta em represália à fuga.

Quando procurou as autoridades para tirar o passaporte, Dominique foi preso e torturado por três meses. “Eles viram que eu não tinha servido ao exército. Colocaram um pano na minha cabeça e me levaram para uma prisão isolada”, lembra.

Em meio a idosos e até crianças na carceragem, foi eletrocutado, queimado, espancado e interrogado, sob o pretexto de que poderia integrar a oposição. Era alimentado com sopa e pão. Só podia beber a água do banheiro. E passava frio com temperaturas de 6 graus à noite: “Eu voltei dos mortos. Na cadeia, só há gritos e desespero”.

Ele só escapou da cadeia porque o pai dele pagou pela sua vida, subornando pessoas ligadas ao governo. Depois de se recuperar dos ferimentos em um hospital no Líbano e de ter a casa e o carro destruídos, Dominique diz ter se tornado um especialista em buscar passaporte nas embaixadas.

Há dez meses no país, ele se queixa do abandono do governo. No Rio, sonha em voltar a morar com os pais, que estão em Brasília, e está à espera de dias melhores. “Não tenho dinheiro e não tenho emprego. Mas agradeço a Deus por estar vivo”.

Em busca de moradia e trabalho

Criticada pela comunidade síria, a concessão do visto de turista, válido por 90 dias, é avaliada pelo governo federal como alternativa para conceder a condição de refugiados aos imigrantes. “Essa disposição do governo brasileiro foi elogiada internacionalmente e passou a ser indicada como exemplo por outros países”, argumenta o secretário nacional de Justiça, Paulo Abrão.

O secretário elogia o engajamento da comunidade síria. “Houve menos impacto do que esperávamos na nossa rede de serviço. O apoio da comunidade síria foi fundamental para o êxito”. Entretanto, o comerciante Amer Muhamad Masarani, um dos representantes da comunidade síria, tem outra leitura: “Nós ajudamos porque não temos ajuda do governo.”

O mexicano Andréz Ramirez, representante do Acnur no Brasil, aponta a moradia, o desemprego e a dificuldade em aprender o idioma como os principais problemas para a adaptação dos sírios. “Aqueles que não falam a língua portuguesa têm mais dificuldade para se inserir no mercado de trabalho. Refugiados que falam idiomas de origem latina têm mais facilidade. Mas os sírios só falam árabe.”

Estrangeiros veem país como emergente

A restrição de políticas migratórias na Europa e Estados Unidos obrigou estrangeiros em busca de refúgios a buscar alternativas para recomeçar. Em meio a esse contexto, o Brasil virou uma alternativa, em decorrência da estabilidade econômica.

A análise foi feita por integrantes de um colegiado que criou um projeto de lei para buscar soluções ao crescimento da procura de solicitantes de refúgio no país. Apresentada há uma semana pelo Ministério da Justiça após discussão com membros do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) e da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, a proposição pretende agilizar a análise dos casos e oferecer melhores condições aos refugiados.

“Em razão da estabilidade econômica e da imagem do país, o Brasil passou a ser visto como um destino possível. Mas temos que permitir que ele trabalhe, tenha acesso à saúde e que seus filhos possam estudar em escolas públicas. Ele não pode sofrer discriminação por ser refugiado”, argumenta Aurélio Rios, procurador federal dos Direitos do Cidadão.

A ideia é que o projeto substitua o Estatuto do Estrangeiro, de 1980, que traz resquícios do regime militar, com princípios de segurança nacional. “Há tendência de protagonismo internacional do Brasil em relação aos direitos humanos e à política internacional”, afirma o secretário nacional de Justiça, Paulo Abrão.

Herculano Barreto Filho

(O Dia – 07/09/2014)



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