COMUNICAÇÃO HUMANA

Duas experiências e a mesma consciência da importância da comunicação para o imigrante.

Ao perceber as dificuldades enfrentadas pelos haitianos que chegavam em massa ao Brasil pelas fronteiras do Acre, o comerciante de Brasiléia Antônio José Gadelha, ou Zequinha Gadelha, como é conhecido, resolveu ajudar. Ele montou uma lan house dentro do abrigo que recebia os estrangeiros na cidade para facilitar a comunicação deles com os familiares no exterior. Quando o abrigo de imigrantes foi transferido para a capital Rio Branco, Zequinha decidiu levar junto sua lan house. Hoje, cobra R$ 1 para que os imigrantes possam acessar a internet no abrigo e falar com parentes e amigos. Quem toma conta do local é um haitiano contratado por ele.

Em Brasiléia, a mercearia que Zequinha é dono funcionava a menos de 300 metros de distância do abrigo – que até abril deste ano funcionava na cidade de fronteira.

Sensibilizado com a situação dos imigrantes, o comerciante conta que construiu um banheiro para eles ao lado do seu comércio, cedeu parte de sua cozinha para cozinharem e vendeu alimentos e produtos de higiene pela metade do preço. Na lan house que colocou dentro do abrigo, os imigrantes podiam acessar o Facebook e o Skype.

Segundo Zequinha, alguns moradores de Brasiléia deixaram de comprar suas mercadorias porque os imigrantes começaram a frequentar seu comércio.

Mão amiga

“Minha amizade com os imigrantes começou aqui em Brasiléia, há uns quatro anos. Quando eles chegavam no Brasil e vinham para cá, já sabiam que podiam me procurar. O pessoal daqui se afastou de mim, não frequentava mais meu comércio, tinha preconceito. Pararam até de entrar na minha loja, não apertavam minha mão, só os imigrantes entravam aqui. Por isso passei a me dedicar mais a eles”, contou.

Zequinha lembra que depois da saída dos imigrantes de Brasiléia as vendas em seu comércio caíram bastante. Como queria continuar ajudando e mantendo contato com eles, o comerciante conversou com o secretário de Justiça e Direitos Humanos do Acre, Nilson Mourão, para conseguir um espaço dentro do novo abrigo em Rio Branco onde pudesse montar uma mercearia e uma lan house.

“Foi muito difícil quando eles foram embora, foi ruim para o comércio, caíram muito as vendas aqui [Brasiléia]. Tive que fechar, porque não tinha cliente. Foi aí que falei com o Nilson Mourão pedindo para eu colocar meus computadores lá no abrigo, até porque eles [imigrantes] precisam se comunicar com a família”, conta Zequinha.

O comerciante instalou oito computadores dentro do abrigo para os imigrantes acessarem a internet e fazerem ligações. Na pequena mercearia são vendidos refrigerantes, sucos, bombons e água. Como reside em Brasiléia, seu Antônio contratou um haitiano para tomar conta do negócio em Rio Branco.

“A gente faz um trabalho de ajuda, de humanidade. Não tem ninguém aqui no Acre que queira montar uma lan house e ficar tão próximo deles [imigrantes] assim. As pessoas tem medo de doenças, são preconceituosas, então, faço isso mais para ajudar mesmo”, afirma Zequinha.

Foi ainda em Brasiléia que a amizade entre Zequinha e o haitiano Kenson Privi, de 34 anos, começou. O imigrante chegou ao Acre há mais de um ano, trabalhou como pedreiro em Brasiléia e se mudou, junto com os demais imigrantes, para o abrigo na capital. Ele administra a mercearia e cuida dos computadores instalados no alojamento pelo comerciante brasileiro. Em troca, usa os computadores para manter contato com a família e recebe metade dos lucros das vendas.

“Não queria ir embora do Acre, sempre trabalhei como comerciante e também como pedreiro, e queria ficar aqui. Pedi pro seu Antônio para cuidar das coisas aqui no abrigo, e ele aceitou”, conta Privi.

Pai de um filho, ele chegou sozinho ao Brasil e, depois de alguns meses trabalhando como pedreiro, mandou dinheiro para a esposa encontrá-lo no Acre. O filho pequeno do casal ficou no Haiti com uma família de amigos. Agora, eles trabalham em parceria com seu Zequinha na lan house.

“Ele [Zequinha] ajuda muito a gente, os imigrantes chegam aqui e não têm nem o que comer. Então, isso é uma forma de ajudar, de permitir que eles tenham contato com a família que ficou lá. Cobramos só R$ 1 para acessar a internet, é muito barato”, diz o haitiano.

Mão irmã

Experiência parecida é protagonizada pelo senegalês Abdou Larrat Lô que chegou há 6 meses, deixando a esposa e os três filhos na cidade de Touba, no Senegal, atraído pela oportunidade de comercializar suas joias e mercadorias. Ele vive num apartamento em Rio Branco, mas é no abrigo de imigrantes que ele garante o seu sustento, cobrando R$ 1,50 para fazer ligações internacionais, via Skype.

“Já trabalhava como comerciante em Senegal. Alguns amigos me disseram que aqui tinha bastante emprego, então vim para cá vender minhas joias. Quando chamei minha esposa, ela não aceitou e nem queria que eu viesse, mas vim assim mesmo, porque queria trabalhar. Como consequência disso, acabei sem mulher”, lembra o imigrante.

De acordo com Abdou, é com o dinheiro das ligações e da venda de joias que ele consegue se manter, pagar o aluguel e mandar dinheiro para os filhos que moram com a avó, no Senegal. Só com as ligações, ele fatura em média de R$ 50 a R$ 60 por dia.

Questionado se ainda pretende voltar para seu país, Abdou diz que não sabe por quanto tempo ainda ficará no Brasil, mas quer rever seus filhos e amigos. “Não sei quanto tempo ficarei aqui. Ainda quero ir para Fortaleza, onde uns amigos me disseram que o comércio é muito bom. Mas quero voltar ao meu país, não para morar, só para visitar minha família e voltar. Gosto daqui.”

Logo que chegou ao Brasil, em fevereiro, o imigrante viajou para Passo Fundo, no interior do Rio Grande do Sul, para encontrar alguns amigos e parentes que residem na cidade. Lá, Abdou trabalhou por 17 dias em uma empresa que fabrica postes, mas abandonou o emprego e virou ambulante no centro da cidade.

“Fiquei por pouco tempo no Acre, esperei o protocolo da documentação e depois fui para o Rio Grande do Sul, por conta própria, porque alguns amigos me esperavam lá. Quando cheguei, dez dias depois já tinha emprego. Mas saí, porque eu queria trabalhar como comerciante, tinha trazido muita mercadoria comigo e queria vendê-la”, contou Abdou.

Para vender seus produtos, Abdou passou ainda por Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul. Há um mês, ele retornou ao Acre para buscar mais mercadorias, trazidas por outros imigrantes que chegaram ao estado. Mas acabou ficando em Rio Branco para trabalhar na lan house do abrigo fazendo ligações telefônicas, via Skype, ao custo de R$ 1,50 por pessoa.

Quando chegou ao Brasil, Abdoul não sabia nenhuma palavra em português, mas com ajuda de amigos que fez aqui já consegue se comunicar. “Aprendi português no Brasil. Até procurei uma professora lá em Brasiléia, mas não consegui. Então fui conversando, vendendo minhas joias e fui aprendendo”, disse.

O trabalho na lan house, segundo ele, é uma forma de ajudar os imigrantes. “Gosto de ajudar, porque temos muitas dificuldades quando chegamos aqui. Nem todos falam espanhol ou português, a maioria só consegue se comunicar no nosso idioma. Então, vi que podia ajudar fazendo ligações para as pessoas falarem com seus familiares. Falei com o dono dos computadores e pedi para usar um deles e fazer as ligações. Quero ajudar meu povo e os demais imigrantes”, afirmou.

Aline Nascimento
(Editado)

(G1 – 25/09/2014)



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