AS PRIMEIRAS BAIXAS DE EBOLA NO PAÍS

Racionalidade, profissionalismo e dever social são, até agora, as principais vítimas do vírus. Histeria aguda, xenofobia primária e racismo arcaico também podem figurar entre os sintomas da doença mental. 

O Ministério Público Federal no Rio de Janeiro (MPF-RJ) instaurou inquérito civil para apurar se refugiados africanos que chegam ao Rio estão passando por constrangimentos, por causa do ebola, na hora de regularizar a documentação de permanência no Brasil. O caso foi discutido durante reunião do MPF-RJ com o Comitê Estadual Intersetorial de Políticas de Atenção aos Refugiados (Ceipar), vinculado à secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos. (Veja post anterior)

De acordo com o procurador regional dos Direitos do Cidadão do Rio de Janeiro, Renato Machado, o medo do contágio não se justifica, pois o período de incubação do ebola é, no máximo, 21 dias. “É claro que para as pessoas que estão desembarcando existe todo um cuidado, e deve seguir a norma técnica do Ministério da Saúde. O problema é a PF [Polícia Federal] recusar o atendimento ou solicitar atestado de saúde de pessoas que já estão agendadas, algumas delas residindo no Brasil há mais de um ano. A alegação de risco de contágio não poderia ser aplicada a essas pessoas”, disse.

O Ministério Público aguarda que a Cáritas, entidade da Arquidiocese do Rio, faça um trabalho humanitário com imigrantes e refugiados e envie o nome das pessoas que tiveram o atendimento na PF condicionado à apresentação de atestado de saúde.

“Primeiro vamos investigar o fato, e por que ele está ocorrendo. O foco é resolver o problema dos refugiados. Eles estão morando no Brasil, estão sem a documentação, não conseguem o trabalho por causa disso, e o atendimento deles é recusado porque vieram há um ano de um país da África. Depois, se for comprovado que existe um intuito discriminatório ou racista, aí sim, entra-se com uma ação judicial. Mas acredito que isso não vai ser necessário. O que temos visto é mais desinformação”, disse Machado.

A Polícia Federal informou, por meio da assesoria de imprensa, que só vai se pronunciar sobre o inquérito depois que for notificada pelo Ministério Público.

Saúde descarta possibilidade de ebola em paciente atendido no Porto de Vitória

O Ministério da Saúde informou que foi descartada a possibilidade de ebola em um paciente atendido na madrugada de ontem (02/10) no Porto de Vitória. De acordo com a pasta, um navio vindo de Cabo Verde, na África Ocidental, fez uma parada de emergência no porto capixaba depois que um dos tripulantes passou mal. O homem, de 47 anos, estava a bordo do navio Peter Faber, de bandeira francesa, e apresentava quadro diarreico há cinco dias, sem relato de febre e com dores abdominais.

“A tripulação foi orientada a desembarcar no Porto de Vitória para que o paciente recebesse atendimento médico”, informou em nota o ministério. De acordo com a nota, o paciente desembarcou às 4h da madrugada e foi atendido pela equipe da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) lotada no porto. “De imediato, e com bases nos sintomas, foi descartada a possibilidade de contaminação pelo vírus ebola”, diz a nota.

Ainda segundo o ministério, o homem foi encaminhado para uma unidade hospitalar, onde foram feitos todos os exames necessários, está hidratado, medicado e fora da crise. Toda a operação foi acompanhada pelo Ministério da Defesa, e a situação do paciente foi monitorada pela equipe de vigilância epidemiológica do estado.

O Ministério da Saúde lembrou que Cabo Verde não apresenta casos identificados de ebola e ressaltou que, até o momento, o Brasil não registra casos suspeitos ou confirmados da doença. O risco de transmissão para o país, de acordo com o ministério, é considerado baixo.

Medidas para que o país possa enfrentar o ebola são discutidas na Fiocruz

Um dia depois do anúncio de um caso de ebola diagnosticado em um cidadão americano nos Estados Unidos, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) promoveu hoje um debate sobre a doença e como enfrenta-la. Participaram do debate alunos e especialistas da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp), em Manguinhos, zona norte do Rio de Janeiro. Os palestrantes disseram que é remota a possibilidade de um surto no Brasil, mas listaram medidas a ser adotadas para que o país não se surpreenda com casos da doença.

O epidemiologista da Fiocruz José Cerbino Neto ressaltou a importância de se prever procedimentos de segurança e protocolos antes de um eventual caso a fim de diminuir as chances de o vírus se espalhar. Ele apontou também a necessidade da capacitação de profissionais de saúde para evitar o erro ocorrido nos Estados Unidos.

Lá, o hospital que atendeu o paciente infectado o liberou após exame, apesar dos sintomas e do fato dele ter chegado da Libéria, país com registro de epidemia de ebola, dias antes. “Ele deveria ter sido isolado, mas acabou passando alguns dias sintomático podendo ter transmitido a doença para outras pessoas”, disse Cerbino.

O superintendente de Fiscalização Controle e Monitoramento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Eduardo Hage Carmo, apresentou as ações do Ministério da Saúde para eventuais casos da doença no país. “Um grupo executivo interministerial está tendo reuniões semanais, e foi criado um plano de contingência”, disse ao lembrar que também foram feitos até agora dois simulados para testar o plano.

Hage informou ainda que o governo já definiu que, no caso de um brasileiro ser infectado no exterior, ele será repatriado, mas os meios de transporte ainda estão sendo discutidos. O governo também estuda outras medidas, como a forma de remoção de corpos.

O pesquisador da Ensp Sergio Rego fez reflexões éticas a cerca da doença, como o uso de medicamentos ainda não testados e a internação compulsória. “Posso me recusar a ficar em quarentena? É aceitável interferir na liberdade de ir vir de alguém? Em que circunstâncias? Precisamos amadurecer essa discussão”, disse. “Além disso, a educação sanitária tem que fazer parte do cotidiano da população. É preciso saber se comunicar com a população para que ela compreenda e incorpore determinadas mudanças de hábito”, ressaltou.

O médico mencionou alguns países em que a falta de informação e de confiança dos cidadãos nas autoridades têm feito com que pacientes com suspeita de ebola evitem hospitais e contribuam para para disseminar a doença.

Mais de 3 mil pessoas já morreram de ebola e mais de 6 mil foram infectados em países do Oeste da África. O tempo de incubação leva de dois a 21 dias. A transmissão ocorre apenas depois do início dos sintomas, que são principalmente cansaço extremo, febre, vômito e dores de cabeça. O vírus do ebola foi descoberto em 1976 e os primeiros casos ocorreram perto do Rio Ébola, na República Democrática do Congo.

(Agência Brasil – 03/10/2014)



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