DA IGNORÂNCIA À INTOLERÂNCIA

Mulher que ajudou centenas de imigrantes, foi orientada pela PF a não mais receber estrangeiros por medo do ebola. Moradores não sabem que Haiti não fica na África.

Em Barracão, cidade paranaense que faz divisa com Dionísio Cerqueira, Ivete Terezinha Marques já acolheu centenas de imigrantes em sua casa, mas há cerca de 20 dias parou de ajudá-los, por receio do vírus. Ela foi orientada na Polícia Federal a evitar um possível contágio com o ebola.

— Me dói o coração, mas não posso assumir esse risco — disse.

Ivete tem uma lanchonete no Terminal Rodoviário de Barracão, onde os primeiros três senegaleses chegaram há dois anos.

— Ele choravam e eu não entendia nada — disse.

Escrevendo e com gestos conseguiram contar que vinham da Argentina e que uma pessoa que faria o câmbio dos dólares tinha roubado eles. Com pena, ela cedeu a casa para eles dormirem. A partir desse gesto, os africanos começaram a indicar Ivete para os conterrâneos.

— Eles chegavam com minha foto e pedindo ajuda. Cheguei a ter 30 lá em casa na virada de ano — lembra.

Ivete transformou a cozinha em alojamento. Ela recebeu algumas colaborações mas não se importava se eles tinham dinheiro ou não.

O senegalês Fallou Beige, que nessa sexta-feira (10/10) foi na lancheria de Ivete, vindo da Argentina para São Paulo, confirmou que já recebeu “pouso”, jantar e banho por apenas R$ 10. Ele está há cinco anos no Brasil e trabalha como vendedor em São Paulo. Mesmo assim demonstra dificuldade em falar o português.

Na terça-feira passada mais três africanos de Guiné chegaram na fronteira e chegaram até a dormir na rodoviária. Eles pediram ajuda para Ivete, a quem chamam de “Mama África”.

Mas, pelo temor dos últimos dias, ela não os recebeu.

Haitianos = negros = africanos = ebola

Já em em Três Lagoas, moradores estão preocupados com a presença de haitianos. Isto porque, eles estariam confundindo haitianos com africanos e temem contrair o ebola.

De acordo com o coordenador de educação em saúde da Secretaria Municipal de Saúde, Fernando Garcia os agentes vem sendo abordados frequentemente pela população, que demonstra preocupação em conviver com os haitianos por conta do surto do ebola.

“A população está desinformada, pois o Haiti fica na América Central, onde não há indícios da doença, mesmo assim os orientamos e explicamos que não há perigo algum em conviver com esses imigrantes”, destacou.

Garcia destacou ainda que além das abordagens feitas na rua por pessoas “preocupadas” muitas ligam também no setor para cobrar uma providência da Secretaria de Saúde.

Ele não associa o fato ao preconceito, mas sim a desinformação. “Infelizmente pelo fato de os haitianos serem negros também algumas pessoas acreditam que eles são africanos, mas a população pode ficar tranquila que não há indícios algum dessa doença atingir o Brasil e o nosso município”, completou.

Nos últimos 12 meses a Polícia Federal (PF) de Três Lagoas cadastrou 500 haitianos, que chegaram ao município para trabalhar. Eles ocupam vagas em diversos setores do município. Porém, a PF acredita que é possível que tenha muito mais desses estrangeiros na cidade porque alguns deles não tiraram o visto, que deve ser renovado a cada seis meses. A chegada dos refugiados do Haiti em Três Lagoas começou há pouco mais de um ano.

Em Três Lagoas, esses haitianos devidamente registrados possuem endereço fixo e emprego. A maioria deles trabalha no setor industrial, mais precisamente no ramo têxtil e também na área de construção civil e no comércio.

(Redação + Agências)



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