A PROMESSA QUE NÃO SE REALIZA

Qualificados ou não, imigrantes haitianos e africanos tentam sobreviver – sem assistência nem reconhecimento.

Só este ano, mais de 14 mil haitianos já entraram no Brasil. Na Barra Funda, em São Paulo, todas as semanas chegam três ônibus repletos de naturais do Haiti vindos do estado do Acre: a viagem, que quase inevitavelmente termina nas portas da Igreja de Nossa Senhora da Paz, na Rua do Glicério, demora quatro dias. Ali, na Missão Paz, que desde 1978 acolhe migrantes (imigrantes e refugiados) em São Paulo, sabem que serão recebidos, bem tratados e encaminhados.

Yves Joseph, de 41 anos, saiu do Haiti no dia 6 de Setembro, e está hospedado na Casa do Migrante da Missão Paz desde então. A vinda para o Brasil foi a solução encontrada para ajudar a família – a noiva e um filho – que ficou para trás. “No Haiti não há trabalho, torna-se difícil fazer as coisas”, explicou. Até a festa de casamento está suspensa, à espera que encha a conta-poupança. Mas Yves, que trabalhava na construção, acredita que depois de uma temporada no Brasil conseguirá reunir o dinheiro suficiente para melhorar a situação da sua família, e voltar a casa.

As estimativas apontam para a existência de cerca de 35 mil haitianos no Brasil, que se tornou o principal destino e maior pólo de atração para a imigração em toda a América Latina. E se o movimento se mantiver constante, antes do fim deste ano, o número de haitianos no Brasil poderá chegar aos 50 mil, acreditam os pesquisadores do fenómeno migratório. As razões para sair do Haiti em busca de uma vida melhor são óbvias – e são as mesmas daquelas que levam milhares de bolivianos, peruanos e paraguaios a lançar-se para o país vizinho à procura de uma solução para a pobreza.

Mas, crescentemente, há outras razões por trás da enorme procura das fronteiras brasileiras. Imigrantes provenientes da Colômbia escapam da violência ou perseguição política; uma nova vaga de senegaleses, malianos ou de nigerianos chegam em fuga de violentos grupos militantes como o Boko Haram.

Alto e esguio, o jovem Aravali-Moiakani, de 23 anos, veio do Congo há um mês, “por problemas políticos. Era estudante e não podia ficar mais na universidade”, justifica, acrescentando que gostava de continuar a estudar. “Mas aqui queria começar a trabalhar, para depois poder ir para a universidade”, acrescenta.

À entrada, estes novos imigrantes solicitam o estatuto de refugiados, que lhes garante o direito imediato à carteira de trabalho enquanto dura o processo de tramitação. Os dados oficiais do Ministério da Justiça mostram que, este ano, já foram entregues 6886 solicitações com pedido de asilo, que a ser deferidas duplicarão a população de refugiados estrangeiros, que oficialmente é de 6721.
Nenhum destes números descreve, porém, as circunstâncias da chegada desta população trabalhadora estrangeira, e menos ainda as condições informais e por vezes desumanas que muitos imigrantes, exilados, refugiados ou beneficiários de visto humanitário – como é o caso dos cidadãos do Haiti – suportam para trabalhar, a maior parte deles na área metropolitana de São Paulo, mas em vários outros estados do Brasil, principalmente no Sul: Santa Catarina, Rio Grande do Norte e Paraná. É para lá que Yves Joseph vai partir neste sábado, contratado por um aviário que recorre à Missão Paz para o recrutamento.

Triste lembrança

Desde o momento do aliciamento, nos seus países de origem, até à viagem com os “coiotes” que os entregam na zona da fronteira, homens e mulheres chegam a ser avaliados para que os seus futuros patrões já tenham uma ideia da “disposição” de cada um deles para o trabalho pesado – habitualmente nas limpezas, construção civil ou em matadouros e unidades frigoríficas de processamento de carne. Depois de entrarem no país, os haitianos (como os congoleses e outros africanos, ou os dominicanos, que também já começam a chegar) são alvo de uma avaliação da compleição física, completa com uma medição da largura dos tornozelos, que determinará o posto para que cada um será escolhido. Tornozelo mais grosso, não serve para carregar; tornozelo mais fino, geralmente indica alguém que aguenta bem a dureza do trabalho e produz mais.

“É a negação total da inteligência, às vezes o Brasil parece que ficou parado no tempo ou que está a retroceder”, choca-se Tânia Bernuy, coordenadora do Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante, uma organização da sociedade civil que se dedica ao bairro de Tatuapé, em São Paulo, onde tem sede.

“Quando chegam os negros, são ou para trabalho de carga ou para trabalho em condições análogas à escravidão. São eles que garantem o trabalho manual e pesado que os brasileiros deixaram de querer fazer”, diz.

Sem assistência

Cerca de 5 mil haitianos moram atualmente em Mato Grosso. Deste número, 80% deles são homens que deixaram suas famílias no país para tentarem reconstruir uma nova vida no Brasil. Após os festejos da Copa, parte desses imigrantes se encontra desempregada, sem assistência legal do governo, além de não poderem voltar para casa, devido ao alto custo da passagem.

É possível observar pelas ruas da capital alguns vendedores ambulantes com bijuterias, relógios, entre outros objetos, além de alguns atuantes na construção civil ou em bares e restaurantes da cidade. No entanto, apesar de empregados, parte desses trabalhadores sofre com a exploração por parte de empresários, que se aproveitam da vulnerabilidade dos haitianos em conseguir um emprego para se sustentar e ajudar a família que está em outro país.

“Quando encontram algum emprego, eles são explorados. Às vezes, as empresas pagam um valor diferente aos haitianos, por conta da vulnerabilidade deles. Daí eles fazem o trabalho que um brasileiro não quer fazer. Um haitiano faz porque precisa de dinheiro. Eles têm uma obrigação para pagar aluguel, comer e manter a família que deixaram no Haiti”, disse o haitiano Duckson Jaques, presidente da Organização de Suporte das Atividades dos Haitianos no Brasil (Osamb).

Outra grande dificuldade dos haitianos é a comunicação. Devido ao fato de a língua de origem ser o crioulo e também o francês, muitos deles acabam se sentindo perdidos no Brasil. “Muitos falam espanhol, mas para quem não fala é uma dificuldade muito grande. No entanto, todos fazem um esforço”.
A maioria desses estrangeiros que chegam ao Brasil em busca de novas oportunidades por vezes se depara com uma realidade diferente do que almejava. Segundo Duckson, muitos se arrependem de ter vindo ao país devido às dificuldades, mas não podem voltar, por causa dos altos preços da passagem.

“Uma das maiores preocupações pra gente voltar é que a passagem é muito cara. Uma passagem de ida e volta às vezes chega até a R$ 7 mil, depende do momento que você vai. E você não pode comprar uma passagem muito longe, porque custa muito caro. Eles sempre me cobram desta forma, pois eu já participei de várias conferências. Eles sempre falam para eu cobrar a passagem”.

Duckson ainda avalia o suporte no Brasil: “O governo federal faz a sua parte, já os governos estadual e municipal ainda para mim não fazem nada neste sentido. Eu penso que a gente está criando este mecanismo para facilitar”.
Permanência

Duckson Jaques está há um ano e seis meses na capital e até hoje não possui o visto de permanência no Brasil. Segundo ele, não há prazos para conseguir o documento, que garante mais liberdade nas atividades do estrangeiro no país. “Tem gente que está na mesma situação que eu e pega a permanência em seis meses. Tem gente que fica muito mais, uns dois anos, e até hoje não tem a permanência. É uma situação complicada e incontrolável”.

Quem luta pela permanência também é Pierre Charles, de 38 anos. Atualmente ele trabalha com construção civil em uma empresa na capital. Para vir ao Brasil, teve que deixar esposa e uma filha de 12 anos no Haiti, para buscar melhor qualidade de vida. “Me arrependo um pouco de ter vindo, por causa do calor. Mas aqui acho melhor qualidade de vida pra mim e para a minha família, por isso estou em busca de permanência”, disse ele, que ganha R$ 900 ao mês.

Já o eletricista Mulier Janvier, de 32 anos, disse que não se arrepende de vir ao Brasil, mesmo que esteja há dois anos esperando o visto de permanência. No momento, ele se encontra desempregado, mas aguarda a resposta de uma empresa. “Aqui é melhor que em meu país, porque tem qualidade de vida. Mas o problema é que não tenho o visto de permanência. Tem gente que fica seis meses e consegue, eu já tenho anos e não consegui. Vou trabalhar e ficar mais dois anos aqui, depois penso no que vou fazer

Sem reconhecimento

O que Djoni faz hoje não tem nada a ver com o sonho profissional que ele tem, o haitiano veio há pouco mais de um ano para Cascavel e desde maio trabalha na Construção Civil. Na República Dominicana ele cursou um ano de medicina e a intenção era continuar a graduação aqui, mas não foi possível.

Com a dificuldade não teve opção, somente se dedicar ao trabalho braçal, mesmo assim, a noite não quis ficar com o tempo livre e está fazendo curso de técnico de informática.

Também em busca de oportunidades veio o irmão dele, Milô, como ele ainda não fala bem o português a conversa foi intermediada por Djoni, um pouco mais velho ele já tem o diploma de contabilidade, mas exercer a profissão por aqui, nem pensar.

Este tem sido o principal problema para quem veio de outros países procurar a sorte no Brasil. No albergue por exemplo, primeiro abrigo buscado pelos estrangeiros quase metade dos hóspedes tem graduação.

A supervisora da Agência do Trabalhador já observa esse cenário, boa parte dos que procuram emprego tem um bom currículo, no entanto, se encaixa nas vagas que aparecem, não necessariamente na área de atuação.

Mesmo numa área bem diferente alguns conseguem destaque, os irmãos haitianos, por exemplo, estão sendo promovidos e o chefe é só elogios para eles.

Pra os estrangeiros o Brasil acolhe de braços abertos quem vem do exterior, porém tem faltado estrutura para receber e aproveitar melhor esses profissionais que vem de fora. Djoni e Milô assim que puderem vão voltar para casa, para só então exercer as profissões para as quais se prepararam.

(Agências – 27/10/2014)



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