CONEXÃO HAITI

A jornada de sonhos e dramas do mais novo e crescente grupo de imigrantes do Brasil.

Castin Serge está sentado em um corredor na Chácara Aliança, abrigo de imigrantes em Rio Branco, capital do Acre. Ele olha fixamente para a frente e para baixo. Parece cansado. Com mãos inquietas e longas pausas, busca palavras para tentar dimensionar, em seu inglês limitado, a turbulenta travessia que venceu para chegar ao Brasil.

São os primeiros dias de uma nova vida para ele. Uma vida ainda incerta. Tudo começou no início deste ano, quando seu pai lhe perguntou se conseguiria em cinco anos construir uma vida decente no país caribenho. O jovem cursava ciência da computação, em uma condição de ensino superior à da maioria de seus conterrâneos. Por outro lado, ponderou já estar com 25 anos e desejar constituir uma família. A resposta foi seca: “Não, pai. Depois da universidade não sei se encontrarei emprego. Para ajudá-lo, preciso deixar o Haiti”. As contas foram feitas. Debilitado por um recente derrame, o pai vendeu sua caminhonete e uma pequena propriedade. Comprou uma passagem de avião para o Equador e fez um empréstimo de 500 dólares. Assim, Castin, o mais velho dos seis irmãos, duas semanas depois de deixar a cidade de Gonaïves, está ali, no meio da Amazônia, à espera de um golpe de sorte do destino – a chance de regularizar sua situação e procurar um emprego em cidades mais ricas do Sul e do Sudeste do país.

Em dezembro de 2010, o Brasil abriu as portas para os cidadãos do Haiti, vitimados pela pobreza que se agravou depois do maior terremoto da história do país, em 12 de janeiro daquele ano. A tragédia afetou um terço da população; 220 mil pessoas morreram e 1,5 milhão ficaram desabrigadas. Um surto de cólera, em 2010, e dois furacões, em 2012, agravaram o caos. O alto desemprego estimulou os haitianos a partir em um fluxo desesperado em busca de vagas no exterior. O Brasil virou um destino cobiçado: além de seu amplo mercado de trabalho, mantém ótimas relações diplomáticas – o Exército brasileiro lidera a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah) desde 2004.

Mas a burocracia para conseguir a documentação correta de imigração no Haiti – no caso, um visto humanitário – induziu muitos jovens a uma rota clandestina e cheia de riscos, contando com o apoio de intermediários, os “coiotes”. Eles viajam de avião até o Equador, muitas vezes com escala na República Dominicana. Em seguida cruzam o Peru ou a Bolívia por terra, até chegar à fronteira com o Acre. Entram no país pela cidade de Brasileia ou de Assis Brasil, de onde seguem para regularizar sua situação na capital Rio Branco. “Encontrei problemas no caminho”, conta Castin. “No Peru, há muitas pessoas… que querem…” “Explorar?”, completo, ao perceber que ele não encontra a palavra certa.

“Exatamente. Na fronteira do Equador com o Peru, minha história de terror começou.”

Os haitianos viajam para o Brasil sem saber dos perigos dessa rota ilegal. Para instruir futuros imigrantes, o padre Onac Axenat, de 35 anos , quer voltar ao Haiti. O missionário está no Brasil desde novembro de 2010. Estudou português em Brasília por três meses e se mudou para Rio Branco com o projeto de construir uma paróquia. Onac acompanha o novo fluxo migratório desde o fim de 2011. Os recém-chegados eram bem reservados, nada contavam sobre a saída de seu país, mas aos poucos o religioso descobriu que gastavam até 4 000 dólares na viagem – e chegavam de mãos abanando à fronteira brasileira. Onac denunciou a situação como tráfico de imigrantes. “Ligaram para me ameaçar, mas fiz o que era preciso. Ouvi português, espanhol, creole. É uma rede internacional de coiotes”, diz.

“Essa rota vai continuar a existir enquanto ocorrer ação ostensiva desses intermediários”, alerta Nilson Mourão, de 62 anos, secretário de Justiça e Direitos Humanos do Acre. Para ele, desmontar a rota é uma operação que requer estratégia de identificação e repreensão por parte de todas as nações envolvidas – Haiti, República Dominicana, Equador, Peru, Bolívia e Brasil. Além disso, diz ele, é preciso facilitar a emissão do visto humanitário e de outros papéis nas embaixadas brasileiras. “Os coiotes”, explica, “vendem a ideia de que, pela rota ilegal, os haitianos serão logo documentados – o que é verdade. Por outro lado, é um processo perigoso e demorado. Os viajantes gastam mais, levam até 15 dias para chegar e são humilhados e explorados.”

O volume de imigrantes vindos do país caribenho só aumenta. Em setembro, 700 estavam no abrigo em Rio Branco – eram 175 em julho. Em 2013, o número de haitianos no Brasil superou 20 mil, quase 25% em São Paulo. Já para o final de 2014, a Organização Internacional para as Migrações estima chegar a 50 mil.

Castin Serge escorregou em um trecho pedregoso na trilha que leva à fronteira entre Equador e Peru. Cortou o calcanhar esquerdo, abandonou os sapatos e acelerou o passo para alcançar os dois senegaleses e o coiote peruano, para quem havia dado parte do dinheiro que trouxera do Haiti. Atravessaram um rio, ao encontro de motos-táxi que os aguardavam no Peru para levá-los até um hotel. Nos dias que se seguiram, Castin sofreu extorsão, furto, fome, sede. Pouco dormiu em hotéis precários ou escondido em vans e ônibus. “Os intermediários nos fazem acreditar que devemos ter medo da polícia, pois senão vão nos prender e deportar”, conta Castin, conformado, no abrigo em Rio Branco.

Na cidade peruana de Chiclayo, os imigrantes pagaram o que haviam combinado. No entanto, a cada parada, coiotes ou policiais corruptos exigiam mais dinheiro. Além disso, a mochila do haitiano acabou confiscada em um táxi contratado pelos coiotes, com laptop, roupas, sapatos e artigos de higiene. Castin nunca mais a viu. Ficou apenas com a maleta cheia de livros e documentos, também saqueada dias depois.

Kevin Damasio

(National Geographic Brasil – 17/12/2014)



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