RACISMO E VIOLÊNCIA

Quando o sonho de uma vida melhor se transforma em pesadelo.

Em um canteiro de obras em Campinas, o haitiano Wilbens Saintilus foi covardemente espancado por um grupo de colegas brasileiros. As diferenças culturais, o receio da concorrência estrangeira e o preconceito teriam sido os motivos da briga que não virou notícia, caso de polícia ou teve reação da sociedade.

Em Hortolândia, o jovem Christian Mbengela, nascido na República Democrática do Congo, trabalhava seguidamente em uma câmara fria a 14 graus negativos. Ao ficar doente, sua chefia o despediu justificando que ele “não servia para o trabalho” e deu dez dias para que deixasse a casa alugada pela empresa, que divide com uma dezena de companheiros que também cruzaram o Atlântico atrás de oportunidades. “Eles acham que os africanos são máquinas”, lamenta o rapaz.

Na vizinha Sumaré, a polícia descobriu o cativeiro de uma quadrilha especializada em ataques contra colombianos. Foram 12 casos até que alguém da comunidade tivesse coragem de pedir ajuda.

Já Suhib Zinou, empresário de sucesso na destroçada Síria, agora luta para reerguer sua vida com um restaurante no Cambuí. A burocracia para acertar o negócio, potencializada pelas dificuldades linguísticas e culturais, é o obstáculo.

Esses são alguns exemplos de como a imagem do Brasil acolhedor e repleto de oportunidades pode se transformar em um pesadelo para alguns estrangeiros que chegam como imigrantes ou refugiados.

Seja fugindo de guerras, perseguições políticas e religiosas, da miséria ou de desastres naturais, muitos deles têm escolhido a região de Campinas para viver.

De acordo com dados da Polícia Federal, 57 pessoas pediram refúgio na cidade até o momento este ano. Outras 81 entraram com solicitações de permanência no País por aqui. Em uma situação mais estável, 1.041 estrangeiros estabelecidos na região foram atrás da expedição de suas carteiras de identidade brasileiras nesse mesmo período.

Haitianos, africanos e sírios são os que procuram a PF com mais frequência. Um deles foi o já mencionado Saintilus. Engenheiro formado no Haiti, ele não teve o seu diploma validado no Brasil. Para sobreviver, o jeito foi recorrer a “bicos” como servente de pedreiro e ajudante de eletricista.

“Vim aqui para estudar. Meu objetivo era trabalhar para pagar a escola, mas ficou difícil. Eu não sabia o que ia encontrar. Os haitianos gostam muito do Brasil, mas fiquei decepcionado ao chegar. Achei que ia encontrar um serviço melhor, mas foi diferente. Estava com meu diploma, mas só encontrei oportunidades na construção civil”, lembra o haitiano, que agora cursa engenharia de controle e automação em uma universidade particular e paga quase R$ 1 mil de mensalidade.

“Sou engenheiro e trabalhei aqui com pessoas que não sabem nem escrever o próprio nome, que querem xingar você, bater em você. É difícil. Tenho esperança de que possa melhorar de vida aqui, mas esse tempo não chegou ainda”, diz ele, pensando em voltar para o Haiti.

Decepção

O congolês Christian Mbengela está há um ano e dois meses no Brasil. Desde criança, encantado com o futebol canarinho, queria conhecer o País. Depois de conseguir um visto como turista, chegou e passou a batalhar pela sua permanência. Mas as barreiras pelo caminho tem feito o africano mudar de ideia.

Com três diplomas universitários (administração pública, ciência política e engenharia elétrica) e domínio do inglês, francês, português e lingala (língua bantu falada no centro-sudoeste da África), seu conhecimento não tem servido para nada por aqui. Até agora, o máximo que Mbengela conquistou foi uma vaga como operador de armazém. Mesmo assim, ele acaba de ser demitido.

“Eu fiquei decepcionado porque eu tenho muita capacidade intelectual, mas não consigo colocar esse potencial em prática. Procuro um lugar para legalizar os meus diplomas, mas não acho. Precisamos de alguém para ensinar o português e, assim, ter mais chances. Também estou aqui há mais de um ano e ainda não peguei os meus documentos. Por que demora tanto?”, questiona ele, que pensa em fazer contabilidade no Brasil.

“O salário é pequeno. Não consigo alugar uma casa, comprar roupas ou mandar dinheiro para a família na África”, explica Mbengela, que deixou a mulher e um filho no outro continente. “Se Deus me ajudar, eu quero trazer todos para cá. Mas a realidade não me permite fazer isso”, lamenta.

Atletismo

O pequeno haitiano Jordaens Aristil, de 14 anos, está há nove meses no Brasil, mas já domina o português muito bem. A rotina na escola o ajudou nisso.

“No primeiro mês aqui eu percebi que, se não aprendesse o português, não ia conseguir tirar boas notas. Era uma questão de sobrevivência. Meu espanhol ajudou muito”, diz o menino, que também já morou no Equador com os pais e os dois irmãos.

Além do português, Jordaens agora fala espanhol, francês e o creole, língua falada no Haiti, de onde saiu após o terremoto em 2010.

Além da língua, o menino está desbravando um mundo que ele jamais imaginaria antes: o atletismo. Tudo depois de ter recebido a doação de um par de tênis usados de uma igreja.

“Eu nunca pensei que treinaria um dia. Já estou me sentindo um atleta”, diz, que pensa em defender o seu país de origem em futuras competições.

Seus treinos são seguido de perto pela professora de educação física Dilcinéia Grecco, uma espécie de “anjo” dos haitianos em Campinas. Voluntariamente, ela já arrumou moradia, escola e emprego para 78 deles.

“Eles viam o Brasil como um país em ascensão, mas muitos se arrependeram e já voltaram”, afirma.

Fábio Gallacci

(Correio do Povo – 26/04/2015)



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