L’ENFANT NOIR

A história do jovem do Congo que começou uma vida nova no Brasil.

Refugiado da República Democrática do Congo (antigo Zaire) desde o início deste ano, o menino de 15 anos não pode ser identificado nesta reportagem por questões de segurança. No fim de uma entrevista, na escola estadual onde estuda, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, demora não mais do que dez segundos para escolher um nome fictício para aparecer no jornal.

— Quero me chamar L’Enfant Noir (A Criança Negra). É o nome de um dos livros do meu autor predileto, Camara Laye (1928-1980), africano da Guiné. Estudei muito sobre ele — diz, com naturalidade, enquanto escreve as grafias corretas no bloco do repórter.

Somente no ano passado, a Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro, entidade que auxilia no acolhimento de refugiados, encaminhou para redes públicas de ensino de diversos estados do Sul, Sudeste, Norte e Nordeste do país 233 meninas e meninos entre 5 e 17 anos, que deixaram países como Congo, Colômbia e Angola em busca de recomeçar a vida no Brasil. L’Enfant Noir é um dos dois jovens nesta situação matriculados no ensino médio da rede estadual fluminense. No que é possível fazê-lo contar em apenas um dia de convivência, fica claro que passou por sofrimentos inimagináveis. O que não o impede de emocionar funcionários e professores do colégio onde estuda.

— Ele é muito inteligente, extremamente dedicado. No início, estranhou um pouco a sala de aula, perguntou por que os seus colegas faziam muito barulho enquanto o professor falava. Disse que em seu país não é assim — conta a diretora da unidade, que acrescenta: — Logo que ele chegou, fez a prova bimestral de avaliação da rede estadual e vimos que estava apto para cursar o 1º ano do ensino médio.

Lágrimas

Para os amigos da escola, L’Enfant Noir é apenas mais um estudante que chegou do Congo, país africano do qual eles não têm quase nenhuma informação. E é basicamente isso que os colegas sabem. Ele prefere não falar muito sobre sua história. Em pouco menos de uma hora de entrevista, é difícil para o repórter saber até onde ir para que ele fale de seu passado. Apesar de o principal idioma de seu país ser o francês, o menino já fala um português quase perfeito. Sabe até o significado da nossa tão própria palavra saudade. Respondida com lágrimas e com aquele que é o seu maior sonho:

— Quero ver meu pai de novo. Quando tivemos que fugir, ele estava trabalhando. É engenheiro.

Mesmo sem que L’Enfant Noir conte todos os detalhes, o que ele revela de seu passado recente é um soco no estômago de qualquer um. Apesar de seu país não estar oficialmente em guerra civil nos dias de hoje, a cidade onde morava, Uvira, quase na fronteira com o Burundi, vem sendo castigada pela ação de milícias, caracterizadas principalmente pelo estupro indiscriminado de mulheres. Ao ver que sua casa seria cercada, ele fugiu com a mãe, de 37 anos, e um irmão, de 9:

— Corremos pela mata durante dois, três dias. Levamos só um pouco de dinheiro. Para comer, tivemos até que caçar gatos.

L’Enfant Noir diz que, com ele, seu irmão e sua mãe, fugiram várias crianças, muitas sem qualquer parente que as acompanhasse. Eles conseguiram chegar à casa de um idoso, perto da fronteira com o Burundi, que, depois de muita insistência, lhes deu abrigo por alguns dias, para que pudessem providenciar um transporte para sair do país.

— Conseguimos um carro grande, como se fosse uma picape. E viajamos por quase 24 horas, deitados, bem grudados com outras pessoas, todos em embaixo de uma lona para que não pudessem nos ver. Nesse dia, mal tomamos água — lembra ele.

Já no Burundi, L’Enfant Noir, a mãe e o irmão conseguiram apoio numa igreja católica, que providenciou a vinda para o Brasil. A família já tinha conhecidos de seu país que vieram tempos atrás e ajudaram na chegada. Mesmo antes de frequentar a escola, ele já foi aprendendo rápido o português, o que sua mãe ainda não conseguiu. Um detalhe inusitado é a imagem que o menino tinha do Brasil, apesar de ter saído de um país que viveu entre 1998 e 2003 uma guerra civil, com mais de três milhões de mortos.

— O que eu sabia do Brasil é que é um lugar muito perigoso. Sim, já tinha ouvido falar alguma coisa sobre futebol, mas sabia que era perigoso — afirma o menino, que reforça o pensamento quando é perguntado sobre hoje em dia: — Ainda acho perigoso, tenho medo de andar na rua.

Quando chegou ao país, a família ficou morando de favor em São Gonçalo. Atualmente, vive numa situação semelhante, mas em Duque de Caxias. A mãe de L’Enfant Noir demonstra muita irritação quando o menino repassa a ela a pergunta sobre o futuro por aqui. Eles recebem apenas um apoio da Cáritas de R$ 600 por mês, mas que deve acabar em breve.

— Minha mãe trabalhava num restaurante na minha cidade, mas aqui não consegue emprego. Ela ainda não entende o idioma. Está muito preocupada — diz o jovem.

Na República do Congo, país de origem da família, o futuro também é incerto. Os combates entre grupos armados persistem. No mês passado, por exemplo, o general brasileiro Carlos Alberto dos Santos Cruz, que comanda uma missão de paz da ONU, teve seu helicóptero alvejado por rebeldes quando sobrevoava uma área no Leste do país. Em janeiro, pelo menos 27 pessoas morreram numa onda de protestos contra mudanças na lei eleitoral que ajudariam Joseph Kabila, presidente desde 2001, a se manter no poder.

Apesar de a situação da família de L’Enfant Noir ser angustiante, a coordenadora do Programa de Atendimento a Refugiados da Cáritas do Rio, Aline Thuller, acredita que há esperança:

— Recebemos casos assim quase que diariamente. Sei que parece muito difícil, mas é gratificante acompanhar essas pessoas e ver como o ser humano é capaz de se superar, de recomeçar. Dá uma tranquilidade dizer para eles: “Vai ser difícil, mas você vai conseguir”.

Além da esperança de rever o pai, L’Enfant Noir tem um sonho simples para o ano que vem no Brasil: trabalhar nos Jogos Olímpicos. Apesar das lembranças tristes, e da timidez, no pouco tempo de entrevista ele ensaiou sorrisos que parecem estar engasgados, prontos para sair. Depois da entrevista, pediu o número do celular do repórter: mandou um sinal de positivo pelo WhatsApp. E o repórter ganhou um amigo, vindo do outro lado do Atlântico.

Ruben Berta

(O Globo – 06/006/2015)



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