RETRIBUINDO

Haitiano volta ao Acre para ser tradutor voluntário em abrigo.

No abrigo para imigrantes mantido pelo governo do Acre em Rio Branco, o haitiano Esdras Hector, de 31 anos, tem se tornado fundamental. Fluente em português, ele tem trabalhado no local como tradutor voluntário, ajudando a equipe do abrigo a se comunicar com seus compatriotas, que, na maioria dos casos, falam apenas francês e crioulo, idiomas oficiais do Haiti.

A saga de Hector para chegar ao Brasil é similar a de milhares de imigrantes que entraram no Brasil pela fronteira do Acre. Ele conta que chegou ao estado pela primeira vez em 2011, passando pela rota que muitos seguem. Do Haiti à República Dominicana onde pegou um avião até o Equador e de ônibus pelo Peru, até chegar à cidade acreana de Assis Brasil, a 342 km da capital acreana, Rio Branco.

O imigrante diz que os primeiros meses no Brasil não foram fáceis. Sem conhecer a língua portuguesa, ele teve que trabalhar como servente de pedreiro, algo nunca imaginado antes por ele.

“Foi um choque, porque nunca havia feito isso. Enquanto chorava lembrei da história de um imigrante haitiano que era cardiologista e foi para os Estados Unidos na década de 1980. Chegando lá, foi procurar emprego em um hospital e ouviu da direção que não tinha competência para trabalhar lá e a única oportunidade que ele teria era como faxineiro. Ele tomou um choque, mas acabou aceitando. Pensei nessa história e disse: vou trabalhar como servente de pedreiro e talvez Deus me ensine algo”, conta.

Entre abril de 2011 e janeiro de 2012, ele trabalhou e viveu no Acre, enquanto aprendia o português. A sorte dele mudou quando uma construtora com sede em Mato Grosso veio ao estado para contratar um grupo de 40 imigrantes. Hector foi chamado como tradutor para auxiliar nas negociações e acabou sendo contratado pela empresa. “Acabei sendo contratado como tradutor e assistente administrativo, cargo que exerci durante três anos”, lembra.

Defensor de direitos humanos da ONU

Com o fim do contrato com a empresa, e já fluente em português, ele decidiu que era hora de voltar a focar no sonho de trabalhar como defensor de direitos humanos da Organização das Nações Unidas. Para isso, resolveu voltar ao Acre e começar por conta própria uma investigação sobre os custos adicionais que os imigrantes são submetidos durante a viagem do Haiti ao estado.

“Pensei em voltar ao Acre para ficar mais perto dos imigrantes e entender melhor as questões de direitos humanos. Voltei também para poder orientar aqueles que estão chegando e dizer que a vida não vai ser tão fácil quanto eles imaginavam ao sair do Haiti”, diz.

O bacharel tenta ainda uma vaga na Universidade Federal do Acre (Ufac) para poder fazer a complementação do curso de direito e assim poder fazer o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Situação dos imigrantes

Hector conta que durante as entrevistas com os imigrantes pôde perceber que por falta de informação e medo, uma grande acaba sendo lesada durante a viagem. “A maioria dos imigrantes que passa pelo Peru sofreu extorsão ou pelos coiotes, ou pelos taxistas, ou pela polícia”, conta sobre os dados que pretende transformar em um relatório.

Ele diz ainda entender a preocupação do Ministério das Relações Exteriores do Brasil quanto à questão da imigração ilegal e acredita que o anúncio feito pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, no dia 21 de maio, quanto ao aumento no número de vistos concedidos e a adoção de medidas mais “duras” para combater a ação dos coiotes podem amenizar a situação. “É um passo para que possamos ter uma solução para esse problema”, diz.

Ele acredita ainda que o problema da imigração precisa ser resolvido na raiz. “Entendo a preocupação das autoridades quanto a imigração, mas o problema não vai ser avaliado aqui. Temos que ir ao Haiti para entender qual a situação lá, para mim, o primeiro passo é ir para lá e verificar o que acontece na hora da emissão dos vistos”, afirma.

O imigrante acredita, no entanto, que a imigração ilegal deve continuar ocorrendo por enquanto. “Vão continuar vindo sem parar, mesmo com todos os problemas. Porque, para muitos haitianos, o problema é o Haiti e para melhorar de vida é preciso sair de lá apesar do risco”, finaliza.

Yuri Marcel

(G1 – 01/06/2015)



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