VOCÊ SE IMPORTA?

Refugiados fazem campanha para informar e sensibilizar a população sobre sua situação.

Um grupo de refugiados lançou em São Paulo uma campanha para informar e sensibilizar a população sobre a situação dessas pessoas que deixam seus países de origem para escapar de perseguições ou violência. Entre as ações, está a venda de camisetas com a frase: Refugiados, eu me importo. A cada compra, o apoiador é convidado a posar ao lado de um dos estrangeiros para uma foto, que é postada na página do Facebook do grupo.

“Nós pensamos: ‘Vamos sair um pouco da rede social. Porque não é todo mundo que está na rede social. Não é todo mundo que é seu amigo na rede social. Pegando a frase e estampando na camiseta, você vai sensibilizar milhares de pessoas”, diz o fundador do Grupo de Refugiados e Imigrantes Sem Teto (Grist), o advogado Pitchou Luambo, que veio há cinco anos para o Brasil da República Democrática do Congo.

Além das camisetas vendidas sob encomenda no centro da capital paulista, os estrangeiros organizam encontros para debater assuntos que afetam diretamente os refugiados e para apresentar um pouco da cultura africana e haitiana. “Nos nossos eventos culturais, nós temos um debate, onde falamos dos nossos problemas, do que estamos enfrentando aqui. Apresentamos a gastronomia e a música do Haiti e de países da África”, explica Luambo.

A união entre os imigrantes africanos e os provenientes do Haiti é, segundo ele, uma consequência de como são vistos pela sociedade brasileira. “Quando eu passo, ninguém sabe se eu sou africano ou haitiano. Acho que seria uma hipocrisia tentar se separar dos haitianos. Como eles [brasileiros] misturam, eu tento juntar”, diz o advogado sobre a dificuldade que até os próprios estrangeiros têm em definir a origem da pessoa. “Todo dia alguém na rua vem falar comigo em crioulo [língua haitiana]”, conta Luambo.

Na opinião do congolês, a discriminação é um dos problemas mais comuns que os refugiados enfrentam. “Você não consegue pegar taxi”, exemplifica ele ao contar a experiência que viveu com o amigo do Benin Roberto Gédeon, em um dia de chuva: “Fomos pegar um taxi. Ele [taxista] disse: ‘Não, já fechei’. A gente não estava percebendo que era discriminação. Só que uma moça veio, nem perguntou nada, entrou [no taxi] e ele a levou”, relata Luambo, acompanhado do amigo beninense.

Para Luambo, o preconceito faz com que tarefas cotidianas se tornem mais complicadas. Ele conta que já teve problemas para abrir conta bancária e ter acesso a direitos trabalhistas. “Eu fui a um banco e o cara me pediu passaporte. Como eu vou ter passaporte se sou refugiado? O funcionário disse: ‘É norma bancária’. Eu fui a um terceiro banco e a moça nem falou nada. Se fosse norma bancária, ia ser igual em todos os bancos”.

História e cultura

A burocracia também é um obstáculo para as atividades de refugiados no país. A demora para conseguir a renovação da carteira de habilitação fez com que Luambo perdesse o emprego que tinha como operador de empilhadeira. “Demorou quatro meses só para mandar um e-mail de autorização”, reclama.

Agora, o congolês trabalha dando aulas de francês e investe na atividade que, antes, era apenas para garantir uma renda extra. O grupo pretende estruturar um curso da língua, com enfoque na cultura africana. “Conseguimos um lugar na zona sul”, diz sobre o espaço em que os cursos serão ministrados, próximo a Estação Jabaquara do Metrô.

Além disso, o grupo recebe convites de escolas para dar palestras sobre a história e os costumes da África. Para Luambo, essas palestras trazem memórias contraditórias: ao mesmo tempo em que ele tem esperança de um dia voltar à terra natal, tem recordações amargas da violência que sofreu. “Um país que está sempre em guerra desde 1996. Quando você nasce e cresce dentro da guerra, você não sabe quem é o seu inimigo”.

Ele conta que os massacres começavam durante a madrugada e se estendiam até o meio do dia. “Quando você escuta: pá! Quer dizer bala. Porque lá não temos fogos de artifício. Se acontece mais de três vezes, quer dizer que a guerra começou. Quando você sai, encontra mais de mil e quinhentos cadáveres. E pode passar dois dias até a Cruz Vermelha vir retirar”, recorda Luambo.

Ao se posicionar contra as injustiças, violência e brutalidade que ocorriam em seu país, Luambo se tornou uma pessoa visada. “Lá não tem negócio de ameaça. Você não pode duvidar”, diz sobre quando resolveu deixar o país. Antes de chegar ao Brasil, ele passou por Uganda, Quênia e Argentina. “Quando você está saindo do seu país você vai pela intuição”, diz sobre como escolheu a rota e o destino final.

Segundo o Alto Comissariado para Refugiados das Nações Unidas (Acnur), existem 8.687 pedidos de refúgio em tramitação no Brasil, dos quais 7.130 foram apresentados em 2014. São Paulo é o estado que concentra mais pedidos: 26% do total.

Daniel Mello e Eliane Gonçalves

(EBC – 04/10/2015)



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