A DOENÇA E O SINTOMA

O assassinato do jovem haitiano, em Santa Catarina, é apenas a mais recente ilustração trágica do ódio disseminado em certas partes do país.

Com golpes de facas, pás, pedras, os assassinos de Fetiere Sterlin davam seu recado de ódio: “vai embora para tua terra, criolo”. Mas o haitiano de 33 anos não voltaria para casa. A mesma falta de dinheiro que o trouxe a Navegantes, cidade de 72.000 habitantes no litoral de Santa Catarina, o prendeu para sempre em terras brasileiras. Morto no sábado, dia 17, a família teve que esperar por seis dias para sepultá-lo. E só o fez porque a proprietário do cemitério particular Jardim dos Florais doou um espaço. Os três cemitérios públicos do município recusaram o seu corpo alegando falta de vagas.

Fetiere, a esposa e quatro amigos resolveram passear na noite de sábado. Não chovia, depois de quase duas semanas de temporais no município. Eles conversavam na Rua Adolfo Koeler, quando três garotos passaram de bicicleta e um gritou “macici”. Sem imaginar as conseqüências, ele revidou com um “macici é você”. Antes de partir o garoto ainda respondeu: “Se eu sou macici, tu vai ser morto”. Após alguns minutos, cumpriu sua promessa.

“Macici”, que significa gay, foi a primeira e talvez única palavra que os moradores de Navegantes aprenderam em crioulo, língua falada por quase toda população do Haiti, conta João Edson Fagundes, diretor da Associação de Haitianos da cidade e único brasileiro engajado no projeto que busca oferecer amparo jurídico e social aos imigrantes que, na maioria dos casos, chegam ao Brasil sem nada e são explorados no Sul do país como mão de obra barata.

“Eles entram pelo Acre, através dos coiotes, que sugam o pouco que têm”, diz Fagundes. Segundo a Agência Brasileira de Inteligência, quase 40.000 haitianos cruzaram nos últimos quatro anos a fronteira brasileira sem visto, a rede de coiotes faturou cerca de 187 milhões de reais com a miséria alheia.

Fetiere também entrou ‘clandestinamente’ no país. Trabalhou durante oito meses em Rio Branco, no Acre, viveu um ano em São Paulo e desde 2013 morava em Navegantes, onde conheceu a belenense Vanessa Nery Pantoja, sua companheira desde então. Os dois tinham vidas semelhantes. Batalharam desde cedo, tiveram que abandonar a terra amada e a família por uma oportunidade de emprego e sofreram o preconceito dessa escolha.

“Você pensa que somente os haitianos sofrem? Os trabalhadores do Norte e Nordeste também são excluídos nesta cidade. O ódio deles é pela cor da pele. Tenho uma amiga baiana que já foi xingada, ‘macici’, ‘macici’. Achavam que ela era haitiana. Minha filha de nove anos é negra, por isso te falo tudo isso. Não quero que ela sofra. Talvez a gente precise ir embora. Todos nós”, diz Vanessa.

Da morte brutal até o sepultamento o corpo, Fetiere permaneceu quase 90 horas no IML (Instituto Médico Legal), que aguardava os documentos da embaixada haitiana, e mais um dia inteiro para descongelamento e preparo na funerária.

Na quarta-feira, o delegado Rodrigo Coronha deteve quatro adolescentes. Todos são brancos, de classe média baixa e têm entre 14 e 17 anos, além de um homem de 24 anos, que participou do espancamento. Eles confessaram o crime e responderão por homicídio qualificado por motivo torpe, que inclui xenofobia, racismo e ódio. Três deles foram distribuídos entre centros de atendimento socioeducativo de Blumenau e Joinville, o quarto adolescente aguardava até este sábado abertura de vaga em Rio do Sul. O homem está preso no Complexo de Canhanduba, em Itajaí.

O adolescente de 17 anos justificou a autoria do crime ao alegar que Fetiere paquerou sua namorada enquanto passeavam de bicicleta. As testemunhas, porém, desmentem essa versão. “Primeiro não havia menina. Depois, Fetiere jamais desrespeitaria uma mulher. Ele sequer mexeu comigo quando nos conhecemos. Era um homem sério, trabalhador. Se esforçava para enviar dinheiro para filha de oito anos que mora no Haiti e para comprar nossas passagens”, diz Vanessa.

Fetiere trabalhava como isolador naval e Vanessa como montadora de eletrodomésticos. Os dois economizavam para se mudarem para os EUA em 2016. Parte da família dele vive lá há quase uma década e está em melhores condições financeiras. “É um sonho que desaguou”, concluiu Vanessa.

Mão de obra barata

O economista britânico Paul Collier publicou em uma pesquisa encomendada pela ONU (Organização das Nações Unidas), que um trabalhador haitiano custava menos do que um chinês. Isso em 2009. Desde que o chão tremeu no Haiti – no dia 12 de janeiro de 2010- e deixou 1,5 milhão de desabrigados, os imigrantes que desembarcam no Brasil trabalham pelo preço que for pago.

Santa Catarina é o principal destino dos haitianos desde o ano passado. Eles trabalham nos frigoríficos do Oeste, nas plantações da Serra e nos canteiros de obras na Grande Florianópolis. Trabalhos que ninguém queria e que aumentam consideravelmente a riqueza do Estado, que já é o sexto mais rico do país.

Segundo Fagundes, dos 700 haitianos que vivem em Navegantes menos de 30% tem carteira assinada, assim não recebem direitos trabalhistas, muitos ganham salários menores que os catarinenses e apesar do Haiti ter liderado a única revolta de escravos que deu certo, há 211 anos, alguns vivem em situação análoga à escravidão.

A presidenta Dilma Rousseff publicou três mensagens no Twitter que lamentavam a morte de Fetiere. “Num país como o Brasil, conhecido mundialmente pela solidariedade e fraternidade, crimes de ódio como esse são inaceitáveis”, escreveu.

Maioria branca

A violência contra Fetiere não foi a primeira registrada contra um haitiano em Navegantes. Em janeiro no ano passado, Claude Gustavo recebeu cinco tiros, sobreviveu e foi embora. João Edson Fagundes disse que as agressões contra os imigrantes são corriqueiras. No Brasil, outros dois haitianos foram mortos de agosto a outubro deste ano, segundo Jacson Bien-Aimé, conselheiro da Embaixada do Haiti no Brasil. Os outros crimes foram em Rondonópolis, no Mato Grosso, e em Flores da Cunha, no Rio Grande do Sul.

Mas o racismo em Santa Catarina não se resume às mortes e explorações trabalhistas. Nas eleições de 2014, por exemplo, o Estado foi o único que não elegeu nenhum negro no país. Já o jornal The Sun, segundo de maior circulação no Reino Unido, publicou que Florianópolis é a cidade com mais pessoas bonitas do mundo. Os jornais estaduais estamparam o assunto nas manchetes, com diversas fotos, nenhuma de um negro, até porque apenas 2,9% da população se declarou afrodescendente no Censo.

Já em novembro de 2013, os moradores de Brusque, cidade vizinha a Navegantes, viraram notícia pela carta intitulada “Aviso aos baianos”, que ameaçava eliminar os migrantes que não fossem embora.

Aline Torres

(El País – 24/10/2015)



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