A SEGUNDA FASE

Os imigrantes haitianos em Minas querem trazer mulheres e filhos.

A migração haitiana em Minas entra na segunda fase. Apesar da crise dos últimos anos, que tornou o mercado de trabalho brasileiro ainda mais difícil para um imigrante, eles querem ficar. É o que revela a pesquisa A imigração haitiana na Região Metropolitana de Belo Horizonte, realizada pelo grupo de pesquisa e extensão Direitos Sociais e Migração, da PUC Minas. Quase 80% dos entrevistados querem ir ao Haiti apenas para visitar parentes que ficaram lá. A pesquisa ainda apontou que a migração está avançando com a chegada das mulheres e das crianças, em processos de reunião familiar. Apesar das dificuldades, a maioria quer ficar e sonha trazer a família. Não há um número exato de quantos haitianos vivem em Minas – as entidades que atuam no acolhimento e suporte, como a PUC Minas, Secretaria de Direitos Humanos e Participação Social, trabalham com uma população que varia de 5 mil a 10 mil haitianos.

O Estado de Minas acompanhou a rotina das comunidades haitianas no Bairro Petrolândia, em Contagem, e São Pedro, em Esmeraldas – cidades na Grande Belo Horizonte que acolheram a maior quantidade de imigrantes desde o início do processo migratório, há cinco anos. O Haiti ganhou evidência mundial devido à tragédia que destruiu o país, mas os que vieram para cá em busca de oportunidade não se esquecem da história do país e da importância que teve para o mundo moderno. “O Haiti avisa ao mundo que ninguém vai ser escravo. É algo muito bonito. No século 18, o Haiti ensinou ao mundo a dimensão da liberdade”, ressalta a coordenadora do projeto República, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e autora do livro Brasil uma biografia, Heloísa Starling, em referência ao processo de independência que ocorreu simultaneamente à abolição da escravidão, iniciado em 1791.

Os brasileiros se aproximaram da cultura da ilha caribenha neste que é um dos maiores fluxos migratórios do século 21. O sotaque e palavras crioulos passaram a ser ouvidos nas ruas, praças, empresas e escolas de cidades mineiras escolhidas por boa parte dos imigrantes haitianos para viver. O empenho para aprender o português é condição primordial para conseguir trabalho, mas os imigrantes não esquecem a língua mãe. Falar o crioulo é trazer o Haiti para cá e uma maneira de os imigrantes estarem mais próximos da terra natal.

Muitos deles deixaram parte da família lá, enquanto tentam buscar oportunidade de emprego e renda por aqui. É o caso de Laudry Gilles, de 26 anos, que está há 2 anos e 4 meses no Brasil. Ao chegar do trabalho em Esmeraldas, ele se encontra com amigos, nas ruas do Bairro São Pedro, para um bate-papo. É o momento em que pode falar crioulo e relembrar sua terra. O jovem trabalha em uma fábrica de refrigerantes no Bairro Florença, em Ribeirão das Neves, e não gosta de sair de casa. “Sou estrangeiro. Não quero problema”, diz, para justificar por que não gosta de ir a festas. Ele planeja trazer a filha de 6 anos, que ficou com a mãe dele no Haiti.

Emprego

A pesquisa demonstrou que, como Laudry, 63% dos haitianos entrevistados trabalham com carteira assinada. Uma parcela significativa (14%) trabalhava no Haiti na construção civil e 15% atuavam como professores. A maior parte (42%) tem ensino médio completo e 5%, o ensino superior completo. A pesquisa entrevistou 150 haitianos.

Empregado em uma granja em Contagem, Lucson Fenelies, de 40, se encontra com os amigos para ouvir uma rádio haitiana pela internet, no celular. Há um ano e seis meses, veio de Sen-Mak (uma comuna no distrito de Saint Marc, no Haiti) para trabalhar no país de Ronaldinho Gaúcho, a principal referência do Brasil quando ainda estava em sua terra. A paixão pelo jogador brasileiro fez com que o torcedor do Tempête Futebol Clube adotasse o Atlético Mineiro como o time de preferência quando chegou a Minas.

Sonhos

Além de encontrar com os amigos na Praça da Petrobras, outra forma de diversão é ouvir no rádio do celular as partidas dos times do coração. Ele mora com conterrâneos em barracões de fundo no Bairro Petrolândia. Uma delas é Roselene Olive, de 30, que sonha conseguir um emprego como cozinheira e, para isso, aprendeu a preparar feijoada e outros pratos típicos brasileiros. “Gosto de tudo no Brasil.” Há um ano e três meses em Contagem, ela não tem dúvida de que quer viver aqui. “Gostaria de ir ao Haiti para ver meus pais e meus irmãos, mas quero retornar”, disse.

Uma jovem haitiana de 20 anos, que pediu para não ser identificada, esperava a irmã adolescente na saída da Escola Isabel Nascimento de Matos. Enquanto aguarda, conversa com duas mulheres testemunhas de Jeová. Como gosta de viajar, pretende cursar turismo. “A gente sabe que não está na terra da gente, mas gostaríamos de ser valorizados”, diz.

A PUC Minas elaborou uma cartilha bilíngue – em português e crioulo – com informações sobre assistência, saúde e educação. O grupo fará seminário em fevereiro e março. A cartilha será ilustrada com desenhos das crianças haitianas. Foram aplicados mais de 150 questionários.

Vinte e três por cento não querem voltar ao país nem para passear. “Eles amam a pátria, mas querem ficar no Brasil”, diz a professora Maria da Consolação Gomes de Castro, chefe do Departamento de Serviço Social da PUC Minas, que coordena a pesquisa de extensão para traçar o perfil do imigrante na Grande BH.

Márcia Maria Cruz

(Estado de Minas – 15/02/2016)



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