OS LIBANESES

Estereótipos sobre os libaneses devem ser superados, diz historiador.

“As imagens distorcidas do Líbano e de seus cidadãos precisam ser superadas. O país não é o lugar ingênuo das festas e da vida noturna ocidentalizada, nem o espaço do conflito e da ameaça”, afirma Murilo Meihy, autor do livro “Os Libaneses”, que tem como um de seus elementos a desmistificação dos estereótipos sobre os libaneses.

O historiador brasileiro e professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) faz parte da segunda geração de uma família que veio para o Brasil nos anos 1980, durante a guerra civil libanesa, e se instalou na cidade de Guaratinguetá.

Meihy recebeu convite da Editora Contexto e decidiu escrever sobre o povo libanês como uma forma de demonstrar a importância dos libaneses na pluralidade da cultura brasileira. “Quando se fala em imigração no Brasil, libaneses e seus descendentes devem ser reconhecidos como atores importantes das transformações vividas pelo Brasil nos últimos 100 anos”, pontua.

Para o historiador, existe hoje uma barreira cultural na relação Brasil-Líbano que impede um melhor relacionamento, devido ao fato de que poucos livros libaneses foram traduzidos no país e também à falta de missões diplomáticas. “Esse livro é uma tentativa de reconhecimento da relação fraterna entre esses dois povos. Essa proximidade entre o Líbano e o Brasil tem sido negligenciada”, defende.

De acordo com o autor, a obra se utiliza de uma linguagem literária e afetuosa (mas sem deixar de lado as dimensões acadêmica, jornalística e cultural) para mostrar o que é ser libanês e curiosidades do povo como os rituais em torno da comida, o uso do narguilé como instrumento de socialização e o modo peculiar com que os libaneses utilizam os palavrões.

Ele conta que exemplares do livro têm sido enviados à comunidade libanesa e tido boa repercussão. “Os descendentes de libaneses podem concordar ou discordar radicalmente do meu relato, só não podem ser indiferentes às alegrias e tristezas que todos nós sentimos quando nos lembramos do aroma de temperos como o zaathar, dos sotaques de nossos pais e avós, bem como das notícias sobre a Guerra Civil”.

Leia abaixo entrevista do autor ao ICArabe

Como surgiu a ideia do livro?

Tudo começou com um convite da Editora Contexto para escrever uma obra sobre os libaneses voltada para o grande público. Considerando que os libaneses são uma comunidade de grande importância para a História recente do Brasil, não poderiam ficar de fora dessa coleção. É preciso reivindicar o lugar que o Líbano e os libaneses têm na construção desse país, sem ufanismos e subestimação. Quando se fala em imigração no Brasil, italianos, portugueses e japoneses são referências obrigatórias, e os libaneses e seus descendentes devem ser reconhecidos como atores importantes das transformações sociais, culturais, políticas e econômicas vividas pelo Brasil nos últimos 100 anos. A importância dos libaneses na pluralidade da cultura nacional brasileira está ao lado desses povos anteriormente citados. Precisamos retribuir o carinho e a gratidão que o Líbano e seus cidadãos têm pelos brasileiros. Esse livro é uma tentativa de reconhecimento da relação fraterna entre esses dois povos.

Essa proximidade entre o Líbano e o Brasil tem sido negligenciada por nós. O número de missões diplomáticas brasileiras no Líbano ao longo de nossa História republicana, por exemplo, é insignificante, e contrasta com o peso que os descendentes de libaneses possuem na nossa sociedade civil. O volume de autores libaneses traduzidos para o português e editados no Brasil também é diminuto. Precisamos superar essas barreiras culturais.

Qual a história da sua família?

Sou a segunda geração da família. Quando minha família chegou ao Brasil, se instalou em Guaratinguetá, interior de São Paulo. Em uma loja de tecidos e aviamentos, foi onde passei minha infância. Da minha família vinham lembranças gostosas e perfumadas do Líbano. Mas a TV não trazia isso nos noticiários, já que nos anos de 1980, o Líbano sofria com os tiros da Guerra Civil.

A obra apresenta um estilo mais acadêmico ou literário?

O livro tenta fugir do modelo de publicações que temos no Brasil sobre os países e povos do Oriente Médio. Há uma série de trabalhos acadêmicos que se debruçam sobre a imigração libanesa, ou apresentam uma discussão técnica da instabilidade política do Líbano nas últimas décadas. A proposta desse livro é proporcionar uma leitura mais afetuosa do Líbano, sem negligenciar sua História, costumes e problemas. As dimensões acadêmica, jornalística e cultural se misturam, para atender ao gosto do público brasileiro. Essa foi nossa preocupação com o texto.

O livro permite a brasileiros desfazerem estereótipos sobre os libaneses e descendentes que vivem aqui?

A desconstrução de estereótipos sobre o Líbano e os libaneses é o tema que abre o livro. O Líbano não pode ser visto por caricaturas extremas: não é o lugar ingênuo das festas e da vida noturna ocidentalizada, nem o espaço do conflito e da ameaça. As imagens distorcidas do país e de seus cidadãos precisam ser superadas. O Líbano é uma nação diversa, com tensões próprias que refletem a agenda política do Oriente Médio e o projeto de poder de velhas elites herdeiras da Guerra Civil que varreu o país entre 1975 e 1990. A partir desse caldeirão cultural, o Líbano acaba sendo visto pelo resto do mundo a partir de suas fragilidades internas. Em parte, os descendentes de libaneses tentam reconstruir sua terra de origem na diáspora, e acabam sofrendo com os mesmos estereótipos que a opinião pública internacional ajuda a construir cotidianamente. No Brasil, onde libaneses, sírios e árabes em geral são pejorativamente chamados de “turcos”, cresce o ataque a mesquitas, o medo do terrorismo, e a desinformação sobre o Oriente Médio em geral.

No outro extremo dessas visões deturpadas sobre a imigração libanesa ao Brasil, está o discurso de que a chegada dos libaneses e a assimilação cultural por aqui foi pacífica e marcada por histórias familiares de sucesso econômico. É preciso superar a imagem heroica do mascate que enriqueceu e se integrou à sociedade brasileira. Episódios como a chamada Guerra do Pente de 1959, em Curitiba, e as reportagens sobre a existência de células terroristas islâmicas na região de Foz do Iguaçu depois dos ataques de 11 de setembro, são expressões de como os conflitos sociais também marcaram a História da imigração libanesa no Brasil. Esses eventos, entre outros que expõem a fragilidade da narrativa romântica sobre os libano-brasileiros estão presentes no livro.

Que curiosidades o livro mostra sobre a cultura do Líbano e o que é ser libanês?

Não quero estragar a surpresa, mas posso revelar aqui três elementos definidores da cultura libanesa: os rituais em torno da comida, o uso do narguile ou narguilé como instrumento de socialização, e o modo peculiar com que os libaneses utilizam os palavrões. Em um dos capítulos do livro, discuto esses aspectos singulares da vida libanesa.

Como a obra tem sido divulgada e a comunidade libanesa no Brasil tem a recebido?

O livro começou a ser distribuído há pouco tempo. […] antes mesmo do início da venda, a Editora Contexto tomou o cuidado de enviar alguns exemplares para associações comunitárias e núcleos de estudos sobre o Líbano. Por enquanto, a repercussão tem sido positiva. Sei que algumas partes do livro problematizam questões sobre o país que a maioria dos libaneses prefere manter em silêncio, mas expor as feridas ajuda a cicatriza-las. No geral, fico feliz quando alguns leitores dizem que partes específicas do texto despertam lembranças afetivas. Os descendentes de libaneses que entrarem em contato com o livro podem concordar ou discordar radicalmente do meu relato sobre nossa terra de origem, só não podem ser indiferentes às alegrias e tristezas que todos nós sentimos quando nos lembramos do aroma de temperos como o zaathar, dos sotaques de nossos pais e avós, bem como das notícias sobre a Guerra Civil.
Título: Os Libaneses.
Autor: Murilo Sebe Bon Meihy.
Editora: Contexto.
Páginas: 192.
Preço Médio: R$ 43,00.

Arthur Gandini

(ANBA – 11/02/2016)



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