Conforme planejado, o Centro de Referência e Atendimento para Refugiados Imigrantes e Apatridas  (CRAI–RIO) encerrou sua fase de fundação e, com o início do segundo semestre, passou a ser dirigido pela Secretaria Especial de Cidadania da Prefeitura do Rio de Janeiro. O centro brinda apoio para imigrantes, refugiados e apátridas recém-chegados ou que já são moradores do Rio de Janeiro; e é administrado por outros migrantes já com residência na cidade e brasileiros, todos dedicados a ações humanitárias relacionadas com os fluxos migratórios. Esse suporte incluiu nesses primeiros seis meses  um abrigo emergencial, com limite máximo de estadia de dois meses para pessoas sozinhas, famílias, pessoas LGBTQIA+ e indivíduos de diferentes religiões. As pessoas atendidas no abrigo emergencial do CRAI foram sujeitos que estão em posição de vulnerabilidade social e em alguns casos tiveram que sair de seus países de origem por conta de perseguições ou por enfrentarem situações socioeconômicas críticas. O órgão também  oferece assistência social, jurídica e psicológica, aulas de língua portuguesa, computação e formação para o desenvolvimento econômico.

O CRAI conta com três tipos de alojamentos: feminino, masculino e para famílias. Foto: Santos/Rio Prefeitura (2023).

A etapa fundacional do CRAI-RIO foi uma parceria da Secretaria Especial de Cidadania com a ONG CORE Response e o apoio da Organização Internacional para as Migrações (OIM) e do Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). A CORE Response (Community Organized Relief Effort) é uma organização de ação humanitária que executa ações emergenciais de curto prazo, e foi a responsável por construir e implementar o CRAI-RIO. Após o período de seis meses, a CORE Response se retirou e o CRAI passou a ser administrado temporalmente pela Secretaria Especial de Cidadania SECID enquanto esta mesma secretaria realiza o chamamento público para uma outra organização começar a gerir o Centro. O CRAI-RIO foi inaugurado em 7 de janeiro de 2023  e está localizado no terceiro andar do prédio do Mercado Popular Leonel de Moura Brizola, no bairro de Gamboa, no centro da cidade do Rio de Janeiro.

O centro conta com salas para aulas de português e inclusão digital
Foto: Santos/ Rio Prefeitura (2023).
 

Conquistas

A equipe fundadora do CRAI-RIO foi coordenada por Catalina Revollo Pardo, que trabalhou com um grupo de funcionários, voluntários e colaboradores. Catalina é  mãe migrante colombiana, psicóloga formada pela Universidade de La Sabana, doutora em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora na área da migração, vice líder do grupo de pesquisa DIASPOTIC UFRJ. Quando perguntada sobre os objetivos alcançados, responde com entusiasmo: “Conseguimos ter sujeitos migrantes e refugiados atendendo pessoas em situação de migração, refúgio e apatridia na cidade de Rio de Janeiro. Isso é uma conquista, já que em geral a administração pública não contempla a possibilidade de migrantes e refugiados atuarem nos serviços de ponta. O acordo entre a CORE e a Secretaria Especial de Cidadania teve esse sucesso porque a CORE garantiu um corpo de servidores híbrido, com estrangeiros e locais. Foram no total dezessete servidores, dos quais onze eram imigrantes. Tivemos uma grande diversidade de nacionalidades e a possibilidade de fazer atendimentos em diversas línguas. Essa situação de interculturalidade pode ser das mais cruéis na prática, quando um servidor brasileiro não conhece outra língua e o migrante ainda não aprendeu o português, e assim um não consegue entender o outro. Os servidores precisam ter uma sensibilização e treinamento para trabalhar com esta população para evitar a discriminação por racismo-xenofobia e/ou negação dos seus diretos. Essa questão é muito importante, e por isso a Secretaria Especial de Cidadania apoia que o novo corpus de servidores também tenha imigrantes, refugiados e pessoas locais treinadas e sensivilizadas”.

Catalina Revollo Pardo, coordenadora do CRAI-RIO. Foto: Pino (2023).

“Outra conquista foi criar um aparelho que deu vários serviços ao mesmo tempo: assistência sócio jurídica, psicológica e de acolhimento. O acolhimento era um ponto cego que a cidade do Rio de Janeiro estava em dívida com a população refugiada e migrante e que conseguiu cobrir até o dia 30 de junho, data em que o abrigo emergencial encerra atividades. Também ocorreram as aulas de português como língua de acolhimento, sem divisão por línguas, algo baseado numa política de integração. Temos uma sala de inclusão digital apoiada pelas doações da OIM e USAID, o que faz com que o CRAI tenha a possibilidade de oferecer vários cursos para promover a integração da população migrante, como treinamento de empreendedores, empregabilidade e para a área de tecnologia. Criamos ainda o CRAI cultural, onde o espaço foi disponibilizado como atelier para a população empreender no centro processo criativos e onde ocorreu o sarau no Dia Mundial do Refugiado. Conseguimos uma versatilidade para integrar atividades acadêmicas, como palestras, e a circulação de pesquisadores e grupos dedicados às migrações, como o NIEM, Diaspotics, e organizações como VIVA RIO, Aldeias SOS, LGBT+Movimento e Cáritas. As conquistas também se manifestam em números, 700 atendimentos ocorridos até o fim de maio” . A Dra. Revollo Pardo fala ao estrangeiro.org enquanto cuida das questões cotidianas, onde funcionários e demais pessoas conversam em diferentes idiomas, especialmente em português, espanhol e inglês.

Desafios

Catalina Revollo Pardo afirmou que “o CRAI deve manter a qualidade e a diversidade de atendimento que tem desde seu início. A reabertura do abrigo deveria ser com a integração da Secretaria de Assistência Social. As duas secretarias abriram um dialogo que esperamos ter frutos. A existência de um abrigo para migrantes tem particularidades muito diferentes às de um abrigo tradicional. Outro desafio será que o futuro quadro dos servidores contemple profissionais imigrantes e população refugiada”.

Depoimentos de alguns membros da equipe

Adriana dos Santos Silva (carioca)
Minha função no CRAI é: Aprender.
O mais bonito do CRAI é: Diversidade.
O que eu mais gosto de fazer no CRAI é: Acolher.
O que o CRAI me deu: Esperança.
Adriana é a docente de português como língua de acolhimento no CRAI. Ela é advogada OAB-SP- 476119; membro da Comissão especial sobre a verdade da escravidão negra no Brasil; membro da Comissão de Direitos Humanos e da Comissão da Mulher Advogada.

Mbalo Cesar (angolano)
Minha função no CRAI é: Monitor de informática.
O mais bonito do CRAI é: União.
O que eu mais gosto de fazer no CRAI é: Ajudar imigrantes.
O que o CRAI me deu: Oportunidade de crescimento como ser humano, profissional e abriu minha mente sobre causas migratórias que eu não fazia ideia.

Deyanira Rodríguez (venezuelana)
Minha função no CRAI é: Agente Social.
O mais bonito do CRAI é: Acolhimento a todos os migrantes e refugiados.
O que eu mais gosto de fazer no CRAI é: Ajudar as pessoas melhorar a qualidade de vida.
O que o CRAI me deu: Maturidade e sensibilidade para pensar em como criar políticas de ajuda para os mais vulneráveis

Benvindo Manima (angolano)
Minha função no CRAI é: Assistente Social. O mais bonito do CRAI é: ser uma porta de entrada dos migrantes para acesso aos direitos.
O que eu mais gosto de fazer no CRAI é: Fazer atendimento.
O que o CRAI me deu: Mais experiência nesta área de trabalho e pesquisa.

Gabie Nzazi (congolês)
Minha função no CRAI é: ser porteiro.
O mais bonito do CRAI é: os imigrantes ajudando a outros migrantes.
O que eu mais gosto de fazer no CRAI é: Ajudar com amor as pessoas.
O que o CRAI me deu: esperança de que é possível acolher os migrantes.

Maria Regina Petrus (carioca)
Minha função no CRAI é: voluntária na recepção.
O mais bonito do CRAI é: A forma eficiente de empatia dos funcionários com os migrantes.
O que eu mais gosto de fazer no CRAI é: Poder colaborar para um atendimento humanizado e inclusivo da população migrante
O que o CRAI me deu: Tudo que eu queria ver no Rio de Janeiro desde que comecei a pesquisar e trabalhar com os refugiados em 1997.

Maria Regina é doutora em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro com investigações na área das migrações de congoleses e angolanos no Brasil, professora aposentada da UFRJ e pesquisadora do NIEM/UFRJ. Assim como ela, vários pesquisadores das universidades apoiaram com tarefas silenciosas o CRAI-RIO.

Bairro da Gamboa no Rio de Janeiro. Foto: Pino (2023).

O CRAI-RIO funciona no estratégico bairro da Gamboa, de fácil acesso, próximo ao centro e a duas quadras da Central do Brasil. Em pouco tempo, se converteu no centro de referência de ações para a migração humanitária.

Esclarecimento do jornalista: Para a elaboração desta reportagem não foram realizadas fotos dos migrantes e refugiados que transitam ou estão abrigados, uma vez que o CRAI possui protocolos de segurança sobre a identidade das pessoas que respeitamos e aderimos.  As fotos do albergue e da sala de aula do CRAI são de SANTOS, Prefeitura inaugura Centro de Referência e Atendimento para Imigrantes no Rio. Rio Prefeitura, 7 jan. 2023. Disponível em: https://prefeitura.rio/cidadania/prefeitura-inaugura-centro-de-referencia-e-atendimento-para-imigrantes-no-rio/ Acesso em: 7 jul. 2023