O diálogo social que a obra de Banksy estabelece com o público sobre migração forçada e refúgio é uma oportunidade para refletir sobre a temática sob uma ótica humanista e humanitária. Afinal, a proteção integral a refugiados e migrantes forçados não depende apenas de compromissos de governos, mas da percepção da sociedade sobre o tema. E esse parece ser o grande papel da Arte, como instigadora da percepção do público sobre a compreensão e os vários significados de eventos em momentos de transformação social ou de aprofundamento de crises ou ainda de polarização de posicionamentos. “A Arte funciona como um instrumento para destacar valores, princípios, problemas e se transforma em ferramenta essencial para o diálogo social”, afirmam Carla Lyra Jubilut e Liliana Lyra Jubilut no artigo “A arte como incentivadora de proteção”.

A exposição The Art of Banksy: Without Limits reúne mais de 150 obras do artista de rua, entre gravuras, fotos, litografias, esculturas, murais e instalações de vídeos feitas especialmente para esta edição. Depois de passar pela Europa, Estados Unidos e São Paulo, está no Rio de Janeiro, onde ficará até o dia 24 de setembro, no Village Mall, na Barra da Tijuca. É uma daquelas exposições imersivas, com espaços instagramáveis, que registra sucesso de público, na faixa de mais de um milhão de pessoas em diferentes localidades do mundo. Definitivamente, é uma experiência impactante.

Banksy é considerado o grafiteiro mais célebre do momento. Sua identidade segue em sigilo até hoje. Sabe-se que ele é britânico. Chegou a ser eleito pela revista “Time” uma das 100 pessoas mais influentes do planeta, em 2010, ao lado de Barack Obama, Steve Jobs e Lady Gaga. Em 2020, financiou em segredo um navio humanitário, o “Louise Michel”, para resgatar migrantes no Mar Mediterrâneo.

Suas obras já foram vendidas por mais de milhões de dólares. Entre elas, está lá na exposição uma reprodução do mural “Girl With Ballon”, de 2019. O quadro foi vendido pela mais famosa casa de leilões de arte do mundo, a Sotheby’s, por alto em torno de R$ 8,5 milhões. Quando o leiloeiro bateu o martelo na mesa, uma parte do quadro começou a ser picotada. Lembra disso? A performance chamou a atenção do mundo inteiro e o valor do quadro explodiu e acabou sendo vendido, mesmo triturado, por mais de R$ 109 milhões.

Depois de mostras imersivas de artistas como Van Gogh e Frida Kahlo, a exposição de Banksy impacta de uma forma diferente ao trazer trabalhos bem recentes do artista. Há uma sala inteira dedicada à Ucrânia, com suas intervenções feitas em uma área bombardeada na guerra com a Rússia.

Suas posições políticas são sempre contundentes. A humanidade, por exemplo, é representada por ratos. Há um ambiente da mostra exclusivo para eles. Ou para nós? Ao lado, um soldado de rosto coberto na Palestina lança um buquê de flores coloridas.

Algumas peças, perturbadoras. Crianças e armas costumam estar na mesma cena. É o caso de “Crianças sobre armas”, uma peça sombria em que silhuetas de um menino e uma menina seguram brinquedos nas mãos, no alto de uma montanha de armas. A menina segura um balão vermelho em forma de coração, preso por uma corda, retratando a emblemática menina com o balão.

“Napalm”, conhecida como “Não consigo superar esse sentimento”, causa indignação de imediato. Baseada na famosa foto de Kim Phuc, a menina queimada na Guerra do Vietnã, a peça representa a figura americana clássica, com o Mickey Mouse de um lado e o Ronald McDonald do outro, numa representação sarcástica da dualidade do tratamento dado pelos americanos às crianças. Infâncias destruídas pela guerra, criança-soldado, pomba da paz com colete à prova de balas e um cavaleiro de capa vermelha no lugar de Napoleão em referência a mulheres refugiadas proibidas de usar burca na França. Dorothy e Totó são parados pela polícia, que vasculha a cesta de piquenique em busca de contrabando, numa alusão à paranoia dos governos sobre a migração. Um mural de pombos com cartazes foi considerado racista e ofensivo pelo governo de um distrito inglês e retirado, sem saberem que a obra era do artista.

Numa sala pequena, decorada com boia salva-vidas em forma de coração rosa, a menção ao refúgio contemporâneo é evidente. Um capacho de boas-vindas com fios de um colete salva-vidas, uma instalação de refugiados em um barco e um vídeo que mostra a omissão dos salvadores.

A crítica ao sistema, ao poder estabelecido, à autoridade… está tudo ali. Não se pode negar que a exposição imersiva atrai muitos visitantes em pouco tempo. Tampouco se pode negar que os espaços instagramáveis rendem divulgação em redes sociais, visualizações, curtidas e compartilhamentos, atingindo pessoas que não teriam acesso a esse conteúdo ou mesmo interesse. Esse modelo de exposição torna a arte mais palatável para um público maior. No entanto, há um outro questionamento que Sacchettin (2021) propõe: “o que acontece se deslocarmos a questão da quantidade para a qualidade?”. “Ainda que o número de visitantes e o montante dos lucros possa crescer, é importante indagar se o contato com a arte é enriquecido na mesma proporção”. Ou seja, as exposições espetaculares atraem multidões, mas será que a experiência é realmente transformadora?

A exposição termina numa lojinha com canecas, chaveiros, camisetas e pôsteres, como todo evento do tipo. Não tem comida, mas o preço é salgado. A caneca, por exemplo, sai por 89 reais. Mas o funcionário adverte que a renda é doada para alguma instituição tal, “ou não nada daquilo ali faria sentido”.

Serviço:

Exposição “The Art of Banksy: without limits”

Local: VillageMall – Área de Eventos do piso SS1

Período: até 24/09/2023

Horários: Segunda a sábado das 10h às 22h (última sessão até 21h) | Domingos e feriados das 12h às 22h (última sessão até 21h).

Referências

JUBILUT, Carla Lyra; JUBILUT, Liliana Lyra. A arte como incentivadora de proteção: o diálogo social de Banksy e os migrantes forçados e refugiados. Anais do VIII Seminário Nacional da Cátedra Sérgio Vieira de Mello. São Paulo: Ed. Universitária Leopoldianum, 2017. pp. 50-52

SACCHETTIN, Priscila, Instituto de Estudos Brasileiros de São Paulo (IEB), 2021.

Fotos: da autora, tiradas sem flash, conforme orientação dos organizadores do evento.