Há exatos cinquenta anos, em 11 de setembro de 1973, um golpe civil-militar destituiu o presidente democraticamente eleito Salvador Allende e colocou no poder uma junta militar liderada pelo general Augusto Pinochet. Terminava aí uma longa tradição democrática, e o Chile, a partir desse dia, vivenciou uma ditadura cruel que comandou o país por longos 17 anos e deixou oficialmente 1.469 vítimas, entre mortos e desaparecidos. O número de pessoas que sofreu diferentes formas de violência do regime de exceção é na verdade muito maior, se considerarmos os torturados, presos políticos e assassinatos e desaparecimentos forçados não contabilizados oficialmente. Somados, podem chegar a 100.000.

Brasil e Chile experimentaram conexões fortes nos anos 60 e 70. Após o início da ditadura brasileira, em 1964, o país andino foi um dos destinos preferidos dos exilados brasileiros, principalmente com a eleição de Allende, em 1970. Estimativas apontam que o número de brasileiros que migraram para o Chile, somente na década de 60, foi de cerca de 4 mil pessoas (Norambuena, Palomera e Lopez, 2018). Santiago se converteu na “capital do exílio brasileiro” (Simon, 2021, p. 20). O governo se preocupava com a grande quantidade de opositores do regime vivendo num país vizinho, principalmente após Allende vencer as eleições. A partir daí o governo brasileiro passou a trabalhar pela deposição do socialista, foi o primeiro a reconhecer a legitimidade da junta militar de Pinochet e transformou o Brasil no segundo maior fornecedor de armas à mais nova ditadura da região, somente atrás dos Estados Unidos.

O golpe e a brutal violência que se seguiu fez o Chile passar a ser um país de emigração. Milhares deixaram suas casas principalmente em direção a locais não alinhados com o novo governo e que ofereceram asilo para os chilenos que fugiam de Pinochet, como Suécia, Canadá, Venezuela e França. O período ditatorial chileno também foi marcado por uma forte recessão econômica, com queda dos salários e aumento do desemprego, e assim muitos nacionais, mesmo não vinculados aos partidos de esquerda e à oposição, optaram pela migração. Inclusive para países que também experimentavam ditaduras de direita, mas que viviam um melhor período na economia, como o Brasil.

Antes do golpe militar de 1973, a quantidade de chilenos no país era bastante reduzida: o censo demográfico brasileiro de 1970 indicou que somente 1.900 cidadãos nascidos no Chile viviam no Brasil. Já o censo de 1980 contabilizou 17.830 pessoas, e o de 1991 sinalizou a presença de 20.437, a maior quantidade de chilenos já registrada no país. Esse número caiu para 17.131 pessoas no censo de 2000 e 15.432 no censo de 2010, o último realizado no Brasil (Nuñez, Gutiérrez e Contreras, 2017). A imensa maioria chegou, portanto, ao longo da década de 70, nos primeiros anos de Pinochet e quando o Brasil ainda vivia os reflexos do chamado “milagre econômico”. A maior parte se estabeleceu em São Paulo, pelo fato dessa região abrigar um grande volume de indústrias e estabelecimentos de serviços espalhados entre a capital, a região do ABCD e cidades como Campinas; o que era fundamental para indivíduos que vieram em busca de emprego e renda (Fernandez, 2011).

Isso dialoga com diversos relatos de migrantes que vieram nesse período, que apontam a questão econômica como a causa fundamental da saída do Chile, como podemos observar no relato da chilena Berta Rosas Morales, cujo marido perdeu o emprego após a tomada do poder pelos militares e foi convencido a se mudar para o Brasil por uma familiar: “Ela falou que aqui no Brasil tinha boas oportunidades de trabalho, que engenharia civil era muito aceita, e ele topou. Foi aí que começou a história do exílio econômico” (Fernandez, 2011, p. 73).

A expressão “exílio econômico”, utilizada pela colaboradora, é indicativa de uma primazia da busca por trabalho como causa principal da migração do Chile para o Brasil no período. No entanto, sabemos que a migração é sempre um fenômeno complexo, ocasionado por diversas razões, ainda mais em momentos críticos como aquele. Outro entrevistado, Osvaldo, decidiu nos anos 80 deixar o país natal rumo ao Brasil para fugir do toque de recolher e do ambiente extremamente opressivo: “Eu já tinha vindo para o Brasil no ano 79, passar um tempo com minha irmã e meu cunhado. Depois eu vim outra vez, a passeio, e gostei. E como eu sempre estive junto da minha irmã, como eu já não aguentava mais a situação no Chile, decidi vir para morar. E aí em vim, em 1986. Ainda era ditadura no Chile e eu estava cansado daquela situação. Eu não queria mais viver obrigado a fazer coisas, não gosto que ninguém me imponha regras, por exemplo o toque de recolher que havia” (Apud, p. 126).

A ditadura, de uma forma ou de outra, atravessou a experiência migratória dos chilenos que vieram nesse período. A comunidade muitas vezes se via dividida pela política, e a opção pelo silêncio era uma estratégia adotada para evitar a divisão e tentar superar os traumas: “Teresa e o filho Guido Patrício, dançaram até a última apresentação do Conjunto Chile Chico do Rio de Janeiro e essa família cedeu, em muitas ocasiões, a sua residência para celebrações e ensaios. No entanto, a dona da casa sempre pedia aos visitantes que na sua residência e nesses encontros não se falasse de política, deixando claro que havia sofrido muitas perdas e que preferia não mais lembrá-las” (Lemos Urtubia, 2022, p. 54). A ditadura pinochetista também era evitada na intimidade do lar e nas conversas familiares, como lembra um descendente de chilenos nascido no Brasil: “Do Chile… eles não falavam muito de política. Tanto que eu soube quem era Pinochet quando eu voltei pro Chile. (ênfase) Eles não gostavam de tocar nesse assunto” (Santana, 2023, p. 208).

Atualmente, são cerca de 15.432 pessoas nascidas no Chile que residem no Brasil e 570.703 nos diferentes locais fora do território chileno, a maior parte tendo migrado entre as décadas de 70 e 80. As histórias de vida são muito diversas, mas todos lembram de alguma forma do 11 de setembro de 1973, data que desencadeou sofrimentos, despedidas e a necessidade de recomeçar em outro lugar, como lembra uma amiga do autor: “No dia 9 de setembro de 1974, minha família deixava o Chile de forma definitiva. O país estava às vésperas de completar um ano do golpe de estado e nós, de mala e cuia vínhamos para a terra do meu pai. Se me perguntam por que motivos viemos, eu não sei responder com exatidão. Foi um misto de tristeza, decepções e perdas, geradas pelo conflito político e a falta de emprego que meu pai vivia… Embarcamos pela clássica escadinha e o avião fez as manobras para decolar. Parecia que o piloto sabia que aquele povo todo não arredaria o pé da pista até ver o avião voando. E assim foi. Ao levantar voo a aeronave inclinou-se de modo a que víssemos, pela última vez os nossos mais valiosos bens e eles, todos juntos, acenaram com seus lenços brancos. Nunca esqueci essa imagem. Acenos brancos entre lágrimas e esperança”.

Imagem do post: Alejandro Hoppe.

Referências

FERNANDEZ, V. P. R. Dilemas da Construção de Identidade Migrante: História Oral de Vida de Chilenos em Campinas (Dissertação de Mestrado). Programa de Pós-Graduação em História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil, 2011.

LEMOS URTUBIA, María de la Merced de. A cueca caiu no samba: Memória, diáspora e práticas culturais dos chilenos no Rio de Janeiro e em São Paulo (Dissertação de Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Memória Social, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, 2022.

NORAMBUENA, Carmen; PALOMERA, Adriana; LOPEZ, Ana. Brasileños en Chile durante la dictadura militar: Doble refugio 1973-1975. História Unisinos, Vol. 22 Nº 3 – setembro/outubro de 2018. DOI: 10.4013/htu.2018.223.10.

NUÑEZ, X. C., GUTIÉRREZ, E. S., CONTRERAS, C. M. Segundo Registro de Chilenos en el Exterior. Instituto Nacional de Estadísticas: Santiago de Chile, 2017.

SANTANA, Sidney Dupeyrat de. Vidas e memórias que atravessam o continente: a construção identitária intercultural dos migrantes chilenos e descendentes no Rio de Janeiro (Dissertação de Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social do Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil, 2023.

SIMON, Roberto. O Brasil contra a democracia: a ditadura, o golpe no Chile e a Guerra Fria na América do Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.