O dia em que me nomeei Fluminense não teve choro nem vela, nem mosaico no Maracanã ou espanto da galera.
O dia em que me declarei Fluminense foi um dia como outro qualquer, daqueles em que a gente só se dá conta de que está incluída quando já não para mais para pensar sobre o assunto.
É preciso explicar que sim, que eu gosto de futebol, mas prefiro jogar.
Mas ser Fluminense não tem só a ver com o clube, com a beleza das cores – tem a ver com inclusão e identidade.
Ser migrante interna é descobrir que seu país, Brasil, é um continente, o que queixa os sentidos aguçados para tudo o que é diferente, ou que tem cheiro de casa, ou que soa muito esquisito.
Sentir-se incluída no Rio de Janeiro sendo paulistana é achar natural que as crianças gostem de mate e ter certeza de que o que se compra na praia em galão não faz mal nenhum.
É sentir uma leveza, apesar do trabalho duro, mas ainda se espantar com a beleza da cidade.
O dia em que me senti Fluminense, não só pertencente ao estado, mas ao clube, foi quando entrei numa família carioca que tem no amor ao time uma cola que gruda todos – a linha que amarra os sentimentos e entrelaça os afetos.
Mas eu não contei para ninguém. Insistia que seguia sendo do meu time lá de São Paulo, que virar Fluminense era coisa de vira-casaca, que é expressão que entrega a idade, mas ainda vale.
Discursava que precisava manter o mínimo de diversidade dentro de casa, que era importante ser amigo de quem é diferente. Bom, isso é verdade. Mas, aos poucos, fui percebendo que a razão não era bem essa…
Era um pedaço da minha identidade que precisava ser preservada. Um pouco da minha cultura que delimitava o meu contorno na nova morada.
Porém, aos poucos, o Fluminense foi crescendo dentro de mim enquanto eu fui tomando conta da cidade que ia reconhecendo como minha.
Gerar crianças cariocas deixaram as raízes mais fortes – pequenos Fluminenses de macacões tricolores saindo da maternidade.
A mais velha aos prantos, da altura dos seus três ou quatro anos, ao descobrir que morava em Botafogo, mas o que ela queria mesmo era morar em Fluminense.
Não adiantou explicar que era todo o estado, muito mais do que um bairro. Ela foi entendendo isso aos poucos, devorando picolés nos jogos do Maracanã.
Já o pequeno um dia despertou para o time – assim, como se algo tivesse sempre estado lá, camadas sobre camadas que explodem em alegria e paixão. Estatísticas desde 1902 agora habitam suas pesquisas e fluem para ouvidos atentos.
O dia que entendi que era Fluminense também compreendi que tinha atravessado uma das últimas fronteiras da migração, que havia me libertado da ilusão de que ao me prender ao meu time de São Paulo estava segura de mim.
O dia em que abracei o Fluminense, mergulhei na imensidão do delírio dos meus, na goma que une as idas aos jogos, no sofrimento dos campeonatos, na alegria das conquistas.
Porque não é (só) sobre futebol, mas também é!
É sobre se vestir de abraço, envolver a casa e assumir ser este um lugar que também é meu.
Imagem do post: acervo Gabriela Azevedo de Aguiar.

