Hoje, é praticamente impensável que alguém viva sem a presença constante de um dispositivo digital, seja para pagar contas, trabalhar, estudar, se comunicar, interagir ou para qualquer outra atividade do dia a dia. Este cenário ilustra bem o conceito de plataformização da vida, que se intensifica com a massificação da Inteligência Artificial (IA) em dispositivos e a disseminação de plataformas amplamente acessíveis, como WhatsApp, Instagram, ChatGPT, Facebook, Google, entre outras. Na interseção entre humanos e máquinas pensantes, surge uma questão fundamental: como somos afetados por essa realidade e como construímos novas formas de existência?

a imagem traz a metáfora de máquinas, como o telescópio, ampliarem a capacidade natural do humano além da visão do olho. Tesauro, Il cannocchiale aristotelico [O telescópio aristotélico], frontispício da
edição de 1670, Turim.
No campo de estudos da Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) junto a Psicologia, meu tema de pesquisa sobre ‘Diáspora Digital e Visibilidade’ busca compreender esse imaginário híbrido, revelando como as tecnologias não são neutras. As tecnologias digitais são tecidos vivos, inteligentes e pensantes, bordados com os fios da capacidade de aprendizagem de máquina da IA, que aprendem as práticas culturais dos usuários e também suas exclusões, o chamado viés algorítmico (Ewerton; Lima, 2023). Em estudo de Ewerton et al. (2024), sobre pesquisas realizadas no Brasil sobre a diáspora digital em comunidades de migrantes, já era indicada uma lacuna significativa em compreender como o viés algorítmico pode afetar os migrantes que criam conteúdos nas plataformas digitais. Com isto, minha pesquisa de mestrado no Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), contou com a participação de seis migrantes africanos(as) que são criadores de conteúdo, com grande visibilidade nas redes sociais. Nos resultados, emerge nas experiências desses usuários uma nova forma de viés algorítmico na visibilidade digital, como relata um dos entrevistados da pesquisa.
Um exemplo que realmente me marcou aconteceu no TikTok […] Eu via que
quando falava sobre racismo ou xenofobia, o engajamento caía. Muitas
vezes, seguidores me diziam que não estavam conseguindo ver meus posts.
Isso me deixou pensando: será que o algoritmo estava de alguma forma
“punindo” conteúdos que traziam discussões mais sérias e necessárias? Ao
mesmo tempo, percebia que vídeos de pessoas que não eram negras e que
faziam piadas racistas ou compartilhavam estereótipos, muitas vezes
recebiam destaque. Isso me deixou indignada e triste, porque é como se as
plataformas priorizassem entretenimento fácil em vez de conversas que
realmente importam. (Entrevistado).
O relato traz à tona uma dimensão crítica da experiência de criadores de conteúdo migrantes negros(as) em plataformas digitais como o TikTok, onde discussões sérias sobre racismo e xenofobia parecem ser invisibilizadas ou “punidas” pelos algoritmos. Essa percepção de que vídeos com temáticas sociais importantes recebem menos destaque ou são deliberadamente suprimidos, enquanto conteúdos ofensivos e estereotipados ganham maior visibilidade, reflete o fenômeno do xenorracismo algorítmico. Este tipo de enviesamento opera no cerne da forma como as plataformas de mídia social gerenciam a circulação de conteúdo, favorecendo narrativas sensacionalistas e desvalorizando discussões que desafiam preconceitos e estruturas de poder.
Esse comportamento algorítmico está diretamente relacionado ao que podemos chamar de colonialismo digital, onde o espaço online, que teoricamente deveria ser democrático e inclusivo, continua a reproduzir as hierarquias coloniais que privilegiam determinadas identidades em detrimento de outras, como é discutido em pesquisa de Ewerton e Lima (2023), junto a denúncias de influenciadores(as) digitais
negros(as). Neste contexto, as plataformas atuam como novas ferramentas de opressão, reforçando estruturas de poder globais, onde corpos negros, especialmente de migrantes africanos, são marginalizados tanto no mundo físico quanto no digital.

numérico, Cambridge University Press, 1922.
Quando vejo que meus conteúdos que tratam de identidade, racismo e cultura
africana têm menos engajamento, me pergunto se não é exatamente isso quea sociedade e os algoritmos estão dizendo: “que esses conteúdos têm menos
valor ou são menos interessantes”. A gente vive isso nas ruas, no trabalho, e
depois sente o mesmo nas plataformas digitais, como se a nossa voz fosse
constantemente silenciada ou ignorada com uma sensação de invisibilidade.
(Entrevistada).
As lógicas de visibilidade e invisibilidade estabelecidas pelos algoritmos colaboram para restringir o acesso a muitos conteúdos de criadores migrantes africanos, em espacial os relacionados com discursos transformadores e que combatem o status quo. Aqui, o algoritmo não é apenas uma ferramenta técnica, mas um ator sociotécnico que agencia novas formas de opressão, agindo como um filtro que seleciona quem pode ou não ser visto e ouvido no espaço digital.
Esse processo reflete não apenas o xenorracismo presente na sociedade, mas também como ele é amplificado pelos algoritmos que priorizam certos tipos de conteúdo em detrimento de outros. Como as plataformas são projetadas para maximizar a economia da atenção, conteúdos que se alinham a entretenimento fácil ou reforçam estereótipos tendem a ter maior visibilidade, enquanto narrativas que abordam temas como racismo, identidade e cultura africana enfrentam uma espécie de marginalização digital.
[…] Sempre que mencionava diretamente palavras como “racismo” ou
“discriminação”, o engajamento caía drasticamente. Uma vez, publiquei um
vídeo abordando a luta contra o racismo no Brasil, com uma análise crítica
sobre a representação dos negros na mídia. Normalmente, minhas postagens
atingiam cerca de mil visualizações nas primeiras horas, mas essa em
específico mal passou de 200. (Entrevistado).
Nos caminhos virtuais que conectam o mundo, migrantes africanos (as) constroem narrativas que cruzam fronteiras, resistem a silêncios e dão novos significados às suas existências. Essa diáspora digital, marcada por vozes que reivindicam pertencimento, é também um espaço de embate, onde preconceitos se reconfiguram em códigos e dados. O xenorracismo algorítmico se apresenta não apenas como um viés, mas como uma mediação de categorias identitárias, promovendo o racismo e a xenofobia de maneira interseccional no meio digital; ecoando assim exclusões do mundo físico e fazendo com que elas sejam reformuladas no mundo digital.
Referências:
EWERTON, B.; LIMA, C. Racismo Algorítmico: Vivências e Percepções de Influenciadores (as) Digitais Negros (as). Revista África e Africanidades, v. 2, n. 48, p. 1-18, 2023. Disponível em:https://africaeafricanidades.com.br/documentos/ARTLIV03_ed.47-48.pdf. Acesso em: 30 ago. 2024.
EWERTON, B.; VILLALÓN, C.; ELHAJJI, M. Diáspora nas plataformas digitais no Brasil: pesquisas sobre TIC’s e migrações. Lumina, v. 18, n. 1, p. 128-145, 2024a. Disponível em:https://doi.org/10.34019/1981 4070.2024.v18.42910. Acesso em: 30 ago. 2024.
EWERTON, B. Diáspora Digital e Visibilidade: Afetações do Xenoracismo Algorítmico para Migrantes Africanos(as), 2024. Dissertação (Mestrado em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social) – Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, Rio de Janeiro, 2024. (no prelo). Ainda Não publicado.

