
A psicologia, no contexto das migrações contemporâneas, nos convida a compreender os processos subjetivos que emergem quando indivíduos são colocados na condição de “outro”, muitas vezes de forma forçada ou estigmatizada, em territórios sociais, culturais e afetivos que não os reconhecem plenamente. Ao lidar com a experiência de deslocamento — não apenas físico, mas também simbólico e subjetivo — a psicologia social e intercultural busca compreender como migrantes constroem sentidos de pertencimento, enfrentam a exclusão e reelaboram suas identidades em contextos marcados por fronteiras visíveis e invisíveis. Em tempos de intensificação de crises políticas, ambientais e humanitárias, as migrações tornam-se experiências cada vez mais complexas, atravessadas por desigualdades históricas e discursos xenorracistas. Nesse cenário, pesquisadoras e pesquisadores que estudam fluxos migratórios são convocados a olhar para esses sujeitos não como meros dados estatísticos ou vítimas passivas, mas como produtores de significados, resistências e novas formas de existência em territórios nos quais, frequentemente, são tratados como “o outro do outro”.
Ao relatarem suas experiências no Brasil, migrantes africanas e africanos, por exemplo, frequentemente expressam sensações de deslocamento, “pertencimento fragmentado”, xenorracismo e diferentes tipos de preconceito e discriminação no contexto brasileiro, como apresentado em pesquisa de Ewerton (2025). Nesse sentido, também constroem estratégias coletivas de resistência e redes de apoio que ressignificam suas trajetórias. Para a psicóloga ou o psicólogo, reconhecer esses sentidos atribuídos pelos próprios migrantes é condição fundamental para uma atuação ética, situada e comprometida com a transformação social.
A psicologia deixa de ser apenas uma lente analítica e torna-se uma prática de escuta e intervenção que considera os marcadores sociais da diferença – como raça, nacionalidade, língua, gênero, sexualidade e classe– como centrais na produção dos encontros e trocas interculturais. Em uma perspectiva intercultural, o trabalho da psicóloga ou psicólogo não envolve apenas compreender essas camadas, mas acolher os modos de narrar, sentir e simbolizar o mundo, criando espaços de cuidado e de reconstrução subjetiva em meio às violências institucionais e simbólicas que muitas dessas pessoas enfrentam. Portanto, trabalha-se no sentido de validar emoções e oferecer o cuidado como forma de pertencimento em suas pesquisas.
Atravessando muros físicos e simbólicos, migrantes continuam a ser sistematicamente desumanizados em todo o mundo. Nos EUA, o endurecimento das políticas de fronteira, a criminalização da migração e a crescente militarização do controle territorial têm ocupado manchetes internacionais. A precarização da condição migrante no país intensifica-se a cada dia: famílias são separadas; indivíduos são confinados em centros de detenção insalubres e submetidos a regimes de vigilância intrusiva — isso quando não são sumariamente deportados. Revela-se, assim, a lógica perversa dos Estados-nação contemporâneos: certos migrantes não são reconhecidos como vidas a serem preservadas, mas como ameaças a serem contidas ou neutralizadas — seus corpos reduzidos à condição de objetos descartáveis.
A situação dos EUA, entretanto, está longe de ser uma exceção. Migrantes em trânsito — sejam eles africanos tentando atravessar o Mediterrâneo, centro-americanos cruzando desertos rumo ao norte ou haitianos e venezuelanos enfrentando rotas arriscadas até o Brasil — compartilham uma condição em comum: a de serem o “outro do outro”. Esse conceito aponta para a radicalização da alteridade que recai sobre certos corpos migrantes, especialmente aqueles racializados, empobrecidos e que não se encaixam nos padrões eurocêntricos de pertencimento. Não se trata apenas de não serem “nós”, mas de serem continuamente empurrados para as margens do que é considerado humano, legítimo e digno de voz e proteção.
“Pensar globalmente e agir localmente” significa reconhecer que as experiências vividas por migrantes, ainda que enraizadas em contextos específicos, estão conectadas a dinâmicas globais de desigualdade, xenofobia e fronteiras físicas e simbólicas. Atuar junto a essas comunidades exige escuta sensível, produção de vínculos e práticas que fortaleçam seus sentidos de agência e pertencimento. Dessa forma, é justamente no cotidiano, nas instituições, nas redes de cuidado e em quaisquer territórios nos quais a exclusão opera que a psicologia social pode e deve se fazer presente — como ciência e como ética —, contribuindo para transformar não apenas a realidade dos migrantes, mas também as formas como produzimos o outro e o mundo em que habitamos coletivamente.
EWERTON, B. Diáspora Digital e Visibilidade: Xenorracismo Algorítmico para Migrantes Africanos(as), 2025. Dissertação (Mestrado em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social) – Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, Rio de Janeiro, 2025. Disponível em: https://www.academia.edu/128465713/Di%C3%A1spora_Digital_e_Visibilidade_Xenorracismo_Algor%C3%ADtmico_para_Migrantes_Africanos_as_

