
Daniela Fusaro é terapeuta certificada pelo Instituto de Terapia de Exposição Narrativa NET/Fiocruz e em processo de certificação pelo Hakomi Institute, do Colorado, EUA; e Instrutora de Círculos de Construção da Paz e Justiça Restaurativa certificada pela Associação de Juízes do Rio Grande do Sul (AJURIS), com atuação voltada ao fortalecimento de vínculos comunitários como estratégia de promoção de saúde mental e cidadania em contextos de vulnerabilidade social e violência.
Em 2021, trabalhou em uma comunidade de venezuelanos em Pacaraima (Roraima), onde viveu por nove meses, aplicando a metodologia dos Processos Circulares.
No dia 12 de dezembro, às 17 horas, a equipe do oestrangeiro.org receberá Daniela Fusaro em um encontro digital por Google Meet. Nela, Daniela Fusaro falará um pouco sobre o contexto migratório de Pacaraima e como aplicou a metodologia dos Processos Circulares. Em seguida, será realizada uma oficina em que a metodologia será aplicada com os participantes. A conversa inicial (sem contar com a oficina) será gravada e ficará disponível no canal do O Estrangeiro no YouTube: https://www.youtube.com/@oestrangeiroorg/featured.
Quando e em quais circunstâncias você descobriu os Processos Circulares?
R: Assisti uma entrevista sobre a formação de policiais das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), no início dos anos 2000, e me senti arrebatada pela experiência relatada. Pouco tempo depois, tomei parte na oficina de Comunicação Não-Violenta (CNV), mencionada na entrevista, e fiquei muito entusiasmada com a ideia de que paz não tem a ver com silenciamento, mas com a expressão autêntica do que nos incomoda e que precisa ser transformado. Foi nessa oficina que ouvi falar sobre a Justiça Restaurativa (JR), vindo a tomar conhecimento dos Processos Circulares, a principal ferramenta de diálogo da JR no Brasil, logo em seguida.
É por meio do conflito que nossos vínculos se aprofundam ou se rompem, e essa estrutura dialógica, inspirada na prática de povos originários do Canadá, contribui para a construção colaborativa de soluções mais satisfatórias para todos os envolvidos. Diferente da Mediação de Conflitos, os Processos Circulares não servem apenas para resolver conflitos. Eles são uma forma de reunir pessoas em torno de temas de interesse comum, fortalecendo vínculos, pertencimento e identidade.
A partir da sua experiência em Pacaraima, de que formas você acredita que os Processos Circulares possam ajudar na inclusão de populações imigrantes à sociedade brasileira?
R: Em 2017, comecei a facilitar Círculos de Diálogo – um tipo de Processo Circular – em contextos de vulnerabilidade e violência como estratégia de promoção de saúde mental e cidadania por meio do fortalecimento de vínculos comunitários. Atuei junto a adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de privação de liberdade; a mães de vítimas de violência policial; a policiais militares afastados por questões de saúde mental; a mulheres transgênero e travestis vivendo com HIV; autores de violência doméstica…
Em 2021, facilitei um Círculo de Fortalecimento de Equipe junto a colaboradores da Cáritas Brasileira, em Boa Vista, e decidi seguir para Pacaraima, na fronteira, para facilitar Círculos de Diálogo junto a migrantes venezuelanos que haviam deixado para trás toda a sua rede de pertencimento. O contexto migratório trazia múltiplos desafios de convivência junto à população local e entre os próprios migrantes.
“O migrante deixa de ser uma pessoa e passa a ser uma nacionalidade”, me disse um amigo venezuelano. Os Círculos podem contribuir para a construção de novos vínculos; para o diálogo junto à comunidade local, agências humanitárias e órgãos governamentais; e para a construção de consenso interno e externo, em um ambiente tomado por conflitos. Mas, acima de tudo, o Círculo constitui um espaço onde cada imigrante resgata sua dignidade, singularidade e humanidade ao narrar sua história.
Como os imigrantes reagiram aos Círculos? No que a experiência deles diferiu em relação às de outros grupos com os quais conduziu essa atividade?
R: A experiência de acolhimento dos Círculos costuma ser importante para todas as pessoas. Em Pacaraima, no entanto, onde a experiência de alteridade entre brasileiros e venezuelanos é bastante exacerbada, tal acolhimento ganhava maior relevância, como uma permissão para existir. Mas acredito que a principal diferença tenha sido a possibilidade de se apresentar como sujeito dotado de singularidade, de uma trajetória pessoal que dá relevo ao rótulo unidimensional de “venezuelano”.
Fale um pouco sobre os tópicos que abordará no nosso encontro e explique como ocorrerá a dinâmica.
R: Vamos começar pelo retrato do contexto migratório de Pacaraima, em 2021, baseado em dados, relatos e em minha própria experiência, com uma apresentação de vídeos e slides. Então vamos vivenciar as principais etapas do Círculo de Diálogo e concluir com uma troca de ideias sobre possíveis aplicações desta metodologia nos diferentes contextos migratórios conhecidos pelos participantes.
Arte por: Sidney Dupeyrat


Que momento único e imperdível para refletir sobre ações neste tempo movimento imigratório e refúgio de tantos indivíduos que não podem ser silenciados.