
As cartografias são escritas em movimento. São registros daquele que viaja, rastros que ficam nos lugares por onde se passa e símbolos que são levados por quem atravessa. Mudar de país ainda carrega um imaginário poderoso: crescimento profissional, novas oportunidades, qualidade de vida, reinvenção pessoal.
No entanto, em um cenário global marcado pelo aumento da migração forçada, esse imaginário convive com frustrações, rupturas e perdas profundas, muitas vezes invisibilizadas. Segundo os pesquisadores do método cartográfico Eduardo Passos, Virgínia Kastrup e. Liliana da Escóssia: “Intervir para o cartógrafo não pode ser, portanto, conduzir ou dirigir o outro como se levasse nas mãos coisas” (PASSOS; KASTRUP; ESCÓSSIA, 2015, p.123).
O outro geralmente nos parece diferente do que é, nosso olhar é atravessado por nossas próprias referências culturais, por aquilo que somos e pelo que acreditamos ser o mundo. Ao ocupar o lugar de estrangeiro, algo se desloca: estranhamos nossa própria cultura, aquilo que antes parecia estável e familiar. Um exercício diário entre luto e celebração, entre perdas e ganhos intensos.
Quando passei a entender o “ser” como movimento, minha pesquisa começou a se deslocar do campo exclusivamente artístico para o campo da experiência migratória.
O conceito de relacional está presente nos estudos e práticas artísticas desde a década de 1960. A chamada Arte Relacional se consolida como uma prática contemporânea na qual a relação entre artista e participante constitui a própria obra. Como descreve Nicolas Bourriaud, em Estética Relacional, “a esfera das relações humanas é o lugar da obra de arte. A interatividade não é um artifício teórico, mas o ponto de partida e de chegada” (BOURRIAUD, 2009).
Na obra The Green Line (2004), de Francis Alÿs, o artista caminha ao longo de uma linha simbólica de fronteira em Jerusalém, tornando visível com uma tinta verde uma divisão política e histórica que atravessa o território. Cada passo é mínimo, quase banal, mas cada passo produz relação com o espaço, com a memória coletiva e com quem observa. O gesto simples revela a complexidade do território.
De modo semelhante, Mona Hatoum expõe a condição do estrangeiro, do corpo e do afeto em obras como Measures of Distance (1988). Nela, cartas escritas pela mãe se sobrepõem a imagens do corpo materno, tornando a distância geográfica algo tátil, sensível e emocional. O que parece familiar se revela, ao mesmo tempo, como espaço de vulnerabilidade e estranhamento.
O que a arte relacional propõe como experiência estética: o encontro como obra, a migração impõe como condição de existência.
Minha pesquisa de mestrado, defendida em 2020 na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), sob orientação de Tania Alice, aprofundou-se nos estudos da estética relacional, analisando encontros, trocas e modos de presença no campo da arte contemporânea. À época, meu foco estava nos dispositivos artísticos e nos modos de ativar relações.
Após a defesa, veio a pandemia. E com ela, uma crise dupla: do mundo e do meu próprio lugar profissional. Esse período me levou a revisitar minhas andanças pessoais: fronteiras atravessadas, moradias fora do país, experiências interculturais acumuladas ao longo de mais de quinze anos. Percebi que essas vivências não eram apenas biográficas, mas estruturantes. Elas me deslocaram definitivamente para o campo migratório, do movimento constante e do atravessamento de culturas.
Migrar é carregar e soltar, ao mesmo tempo, aquilo que nos constitui e aquilo que nos constituiu.
Foi então que me perguntei: e se pudéssemos visualizar nosso Mapa de Presença Relacional?
Uma cartografia capaz de revelar, no cotidiano, onde colocamos nossa presença e como somos transformados à medida que nos relacionamos com os outros? Um mapa em constante movimento e transformação?
Nesse mesmo período, em meio à crise do mercado de arte, retornei a dar aulas de português para pessoas estrangeiras no Rio de Janeiro, buscando reorganizar minha vida profissional. Dar aulas de língua sempre foi, para mim, um gesto de inserção. Foi meu trabalho quando vivi como estrangeira em outro país, uma forma de habitar um território sem me perder completamente de mim mesma.
Foi nesse cotidiano que uma nova pesquisa emergiu. Dar aula de português em caminhadas pela cidade. Caminhadas pela cidade, conversas prolongadas, observação atenta dos gestos, dos silêncios e do corpo em relação ao espaço. A cada encontro, tornava-se evidente que a língua não era o elemento central do processo. O que importava era o encontro: o corpo no território, a relação com o outro, a experiência sensível de estar.
A partir dessas experiências, construí o que hoje chamo de Mapa de Presença Relacional. Ele nasce da observação direta de mais de duzentas caminhadas realizadas com estudantes e participantes de cursos de português vindos da Tunísia, Marrocos, Inglaterra, Chile, Alemanha, Eritreia, Estados Unidos, Polônia, República Dominicana, Nicarágua, Venezuela, Colômbia, entre outros países.
O mapa não mede competências linguísticas ou profissionais. Ele observa como a presença do corpo, a percepção do espaço e a relação com o outro influenciam o bem-estar, a adaptação e o sentimento de pertencimento em um novo território.
Hoje, esse método se estrutura a partir de cinco pilares fundamentais para a experiência migratória: Corpo, Identidade, Território, o Outro e Espaço – seja ele a casa, a cidade ou o ambiente de trabalho. A escuta e a presença orientam o acompanhamento de estrangeiros em organizações não governamentais e também em contextos institucionais, sempre a partir da experiência vivida.
Os dados confirmam aquilo que a observação cotidiana já revelava. Mesmo quando planejada, desejada ou economicamente privilegiada, a migração frequentemente vem acompanhada de sofrimento emocional, isolamento e desafios relacionais. No campo profissional, esse fenômeno é conhecido como expatriate failure. Estudos clássicos indicam que até 40% das expatriações são interrompidas antes do previsto, não por falta de competência técnica, mas por dificuldades de adaptação cultural, sofrimento emocional e isolamento social (BLACK; GREGERSEN, 1991; HARARI et al., 2022).

Pesquisas recentes e meta-análises com milhares de participantes confirmam que fatores como empatia cultural, inteligência cultural e capacidade de construir vínculos sociais são decisivos para o ajuste no exterior. A migração forçada, por sua vez, também atinge pessoas com alto nível educacional — profissionais qualificados, acadêmicos, empresários e famílias de classe média — que perdem, de forma abrupta, status, redes, identidade profissional e capital social. O sofrimento, nesses casos, não se limita à perda material, mas à ruptura simbólica e relacional: deixar de ser “alguém” em seu contexto de origem para se tornar estrangeiro em outro.
Estudos de larga escala indicam que o principal fator protetivo para o bem-estar psicológico de migrantes não é renda, país de destino ou tempo de permanência, mas sim:
- a presença de apoio social
- a sensação de pertencimento
- a construção de vínculos significativos no território de acolhimento
Quando esses elementos falham, aumentam os índices de ansiedade, depressão, transtornos de ajustamento, desejo de retorno e a sensação de “não pertencimento permanente” (Nature Human Behaviour, 2024). Isso vale para expatriados corporativos, migrantes voluntários e pessoas em situação de migração forçada.
Migrar não é apenas atravessar fronteiras. É romper laços e construir outros, no corpo, no espaço e na identidade. Assim como na arte relacional, o encontro é a própria obra. O Mapa de Presença Relacional não é um instrumento burocrático, mas um método de atenção ao humano no território — uma forma de observar como as relações moldam aquilo que significa estar, pertencer e existir como estrangeiro.
Hoje, como fundadora da Feltrip, sigo desenvolvendo esse mapa como uma metodologia viva, que nasce da escuta, do corpo e da experiência migratória, atuando na interseção entre cultura, deslocamento e presença.
Fernanda Paixão é fundadora da Feltrip, iniciativa voltada à adaptação cultural e à experiência migratória. É arte-educadora e caminhante.
Para acompanhar mais reflexões interculturais, você pode ler a newsletter The Boba Manifesto, no Substack, e acessar seu manual de cultura em construção:
https://substack.com/@thebobacompass
https://cultureguide.feltrip.com/

Referências
ALŸS, Francis. The Green Line. Jerusalém, 2004. Performance.
BLACK, J. Stewart; GREGERSEN, Hal B. The other half of the picture: antecedents of spouse cross-cultural adjustment. Journal of International Business Studies, v. 22, n. 3, p. 461–477, 1991.
BOURRIAUD, Nicolas. Estética relacional. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
HATOUM, Mona. Measures of Distance. Londres, 1988. Vídeo-instalação.
HARARI, Michael B. et al. Expatriate adjustment: A meta-analytic review. Journal of International Business Studies, 2022.
NATURE HUMAN BEHAVIOUR. Social integration and mental health outcomes among migrants: a large-scale meta-analysis. Nature Human Behaviour, 2024.
PASSOS, Eduardo; ESCÓSSIA, Liliana da; KASTRUPP, Virgínia. (Orgs.) Pistas do método
da cartografia: pesquisa, intervenção e produção de subjetividades. Porto Alegre: Sulina,
2015.
UNHCR. Global Trends: Forced Displacement in 2023. Genebra: United Nations High Commissioner for Refugees, 2024.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Mental health and forced displacement. Genebra: WHO, 2023.
VARELA, Francisco J.; MATURANA, Humberto R. A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. São Paulo: Palas Athena, 2001.


