Um curso para mudar os rumos…

Você está tão cansado de ouvir falar da Venezuela quanto eu, que sou venezuelano.

De usarem minha terra para te assustar, dizendo que você não deve tentar mudar nada no seu país para que não “acabe como a Venezuela” — ou de reciclarem velhos contos da Guerra Fria para justificar algo que — como você sabe — não tem justificativa.

Mas o fato é que os fatos calaram a boca de todos os que usaram a Venezuela para suas agendas: o governo “anti-imperialista” se rendeu aos Estados Unidos sem disparar um tiro e a suposta “cruzada” do Trump, que resultou numa aliança com as lideranças do “Cartel dos Sóis”…

Cadê o anti-imperialismo da grande resistência popular à invasão?

Cadê a guerra ao narcoterrorismo? Da destruição do Cartel?

Cadê as narrativas?

Da mídia grande e pequena, que reluta em falar com venezuelanos, porque os acha insignificantes demais para escutá-los?

Dos experts brasileiros e de todo o Planeta, que há tanto tempo falam em nosso nome como se fôssemos parte da fauna sul-americana e não um povo capaz de falar por si mesmo?

Dos que foram dar aulas em centros de tortura em nome do anti-imperialismo?

Dos que falavam, que Brasil ia virar “como a Venezuela”, no entanto tentavam implantar, pela força, um regime idêntico ao que Chávez e Maduro implantaram na Venezuela, até desconhecendo os resultados eleitorais?

Mas, além da Amazônia e de Roraima, além de tudo o que o Brasil considera importante, fica um paisinho, uma nação derrotada pelo seu governo e por governos estrangeiros, pelos seus próprios líderes. Derrotada por si mesma.

Mas uma nação, no fundo, não muito diferente do Brasil.

Para essa nação a derrota não é um destino, mas se tornou um caminho, quase um modo de ser, e quanto mais ela é negada — ou escondida atrás de esperanças ridículas — mais difícil é mudar os rumos para uma sociedade que, ao que parece, é incapaz de aprender com sua derrota.

Mas, será que podem os outros aprender com a derrota alheia?

Você sabe que a Venezuela te adverte de algo, que significa algo — mesmo que seja mentira que outros países possam acabar como ela só porque chegue ao poder um governo de “esquerda” ou um “populismo autoritário”.

Você sabe que não é tão simples, mas também que há algo ali: algo próximo, algo conhecido, e você o vê se repetir aqui e acolá — até nos Estados Unidos! — embora não se repita da mesma forma: além de ideologias e retóricas que já não significam nada, entre farsas imitando tragédias e tragédias imitando farsas, a derrota da Venezuela fala sobre todos os males, doenças e problemas do nosso continente.

Por que a sociedade venezuelana perdeu suas liberdades e riquezas, até mesmo sua soberania nacional? Por que esse país tão livre e rico terminou nesse estado lamentável?

Ou será que nunca foi tão livre nem tão rico?

A derrota venezuelana é um caso totalmente à parte ou é um sinal dos nossos tempos?

Esse imenso fracasso é produto de uma história extremamente particular ou expressa tendências comuns à América Latina e até ao hemisfério ocidental?

Esqueça retóricas e ideologias, o fato é que a Venezuela, desde os tempos do Chávez, é um exemplo de “captura do estado”: simplesmente o país onde as elites políticas, os oligarcas, os militares e policiais corruptos, os burocratas, os empresários mafiosos e os políticos fisiológicos se coligaram , tomaram todo o poder e deixaram o povo comum indefeso.

Você deveria temer esse destino, ainda que não seja o seu.

Em meio às nossas Guerras Culturais, assume-se que tudo se reduz a uma culpa atribuível: seja à ditadura, seja ao “bloqueio criminoso” dos Estados Unidos — e não a uma responsabilidade coletiva, distribuída entre gerações inteiras de venezuelanos, que abriga culpas e crimes pelos quais muitos teriam que responder.

Mas essa derrota, na medida em que é repetitiva, recursiva, tem outro aspecto: a incapacidade coletiva de aprender com ela, como parte da incapacidade coletiva de uma sociedade de se renovar e reinventar — e quanto mais derrotada e afundada esta a sociedade venezuelana, mais se apega aos velhos hábitos, às mesmas rotinas: e a vemos reincidindo nas fantasias e ilusões…

…e os menos capazes e dispostos a aprender são as supostas lideranças

Acha comum esse padrão?

Então:

É possível aprender com os venezuelanos sobre o que foi uma derrota para todo o continente?

Isso só podemos saber se tentarmos aprender com essa derrota. Se aprendermos a aprender com ela.

Neste curso — continuação de um curso anterior, em que tentei explicar o como e o porque do colapso da venezuela — quero apresentar uma série de hipóteses, as mais importante são a seguintes:

  • Que a Venezuela é uma derrota vergonhosa e exemplar de uma sociedade diante de si mesma — ou das suas piores tendências — e que a Venezuela é, hoje em dia, um exemplo do que não se deve fazer e que, por isso, o nosso mau exemplo deve ser bem estudado.
  • Que, para a América Latina — e até certo ponto para todo o Hemisfério — é simplesmente um grupo de controle em que as piores tendências da política continental — autoritarismo, extrativismo, patrimonialismo, desintegração territorial — chegaram aos extremos sem nenhum tipo de contrapeso: sem instituições fortes, com uma sociedade civil frágil e uma economia pouco diversificada, a Venezuela é análoga a um doente que nem tem sistema imunológico forte nem recebe tratamento.

Em quatro sessões, a partir da segunda semana de abril, tentarei não apenas demonstrar — ou ao menos sustentar — essas hipóteses, mas extrair uma série de “lições” que sejam relevantes para a Venezuela em particular e para todos os países da América Latina em geral: desde a insuficiência das formas de ação e participação política, a incompetência das lideranças e das elites, as concepções limitadas da democracia e os efeitos da polarização e das guerras culturais e do idealismo geopolítico, até as deformações causadas pelo extrativismo e o patrimonialismo.

Sessões.

1. As democracias não morrem: elas nunca chegam a nascer.

A democracia não é um regime: é uma tendência e os ciclos de desdemocratização nos quais essa tendência recede são longos e antecedem a chegada ao poder de autocracias e populismos.

O que primeiro faz recuar a democracia são as oligarquias, as elites políticas e os próprios partidos que dizem personificar a democracia. Usando como exemplo a longa desdemocratização venezuelana, que se inicia nos anos setenta, discutiremos se as democracias realmente morrem ou simplesmente nunca nascem.

2. Não se deve deixar a política nas mãos dos políticos.

Quando a vida política se reduz a uma “indústria” da representação por candidatos profissionais, os cidadãos não apenas se tornam espectadores, mas a vida política tende a se degradar recursivamente e os partidos a se transformarem em empresas privadas com fins patrimoniais.

Por meio da análise dos partidos políticos venezuelanos, que funcionam mais como Firmas Políticas do que como partidos. Veremos como a política fisiológica, patrimonialista e eleitoreira, muito semelhante àquela do Centrão, selecionou sistematicamente os piores elementos na política venezuelana, deixando a oposição sem lideranças aptas para conduzi-la.

3. Democratizar é empoderar o povo comum, não os políticos.

Durante décadas, enquanto o governo usava a organização de base para controlar e aparelhar a população das favelas a oposição — sem outro horizonte além de derrubar o governo ou derrotá-lo eleitoralmente — se recusou a construir grandes organizações populares ou cidadãs, pensando a democratização como uma simples troca de políticos no governo.

Analisando a relação do chavismo e da oposição com seus seguidores, veremos como as definições reducionistas da democracia — fossem participatórias ou representativas — foram instrumentalizadas pelas elites políticas venezuelanas e o que isso diz sobre o fenômeno global de degradação da democracia como prática e até mesmo como conceito.

4. Geopolítica não é futebol.

A ideia muito difundida de que na geopolítica existem campos que agrupam estados “bons” e “maus” — sejam os bons os “anti-imperialistas” ou os “democráticos” — é que temos que torcer pelos bons é uma ficção ridícula, mas extremamente poderosa, que herdamos do século XX: seja quando se fala de “democracias” que combatem autocracias e só existiriam para fazer o bem, ou de outros regimes que estariam em luta permanente contra o imperialismo que os ameaça.

Na experiência venezuelana, veremos os resultados desastrosos do idealismo geopolítico e da visão “campista” das relações internacionais, percorrendo a história dos romances e casamentos das forças políticas venezuelanas com países e blocos geopolíticos: de Chávez manipulado por Fidel Castro a María Corina Machado descartada pelo Trump, veremos os efeitos devastadores de uma geopolítica principista e rígida.

Sobre o Curso

Nome: Venezuela: Lições de uma Derrota.

Tipo de curso: Online Assíncrono.

Início: Segunda semana de abril.

Duração: 4 semanas.

Responsável: Jeudiel Martinez, sociólogo, escritor no Substack e colaborador no Caracas Chronicles e no Atelié de Humanidades.

Informações e contato: jeudiel@gmail.com