Especialmente a partir do feminismo negro, a interseccionalidade é constituída não somente enquanto uma mirada teórica de análise da vida social, ao passo que se propõe à compreensão de matrizes de poder que estruturam relações de dominação (a partir dos encontros entre raça, etnia, classe, gênero, nacionalidade, entre outros) e, por sua vez, compõem as realidades coletivas e subjetivas (Collins & Bilge, 2022).
Para além disso, tal perspectiva também representa um caminho ético-metodológico frente à transformação da realidade social, ao se entender como práxis que pode situar atuações e intervenções democraticamente implicadas de forma a encaminhar possibilidades de coalizões entre sujeitos e territórios em suas experiências diversas — mas, especialmente, em lutas por acesso a direitos.
Também é, partilhando deste solo e chegando aos cuidados culturais em saúde mental, que emergem os desafios ao costurar reposicionamentos dos saberes psis — historicamente, situados pela branquitude e desarraigados da realidade comunitária — e diálogos que se propõem à horizontalidade de saberes e à participação social das comunidades naquilo que lhes concerne e interessa enquanto protagonistas.
A partir deste entendimento, o grupo de pesquisa “Modos de Subjetivação, Políticas Públicas e Contextos de Vulnerabilidade” da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) desenvolveu uma investigação nacional (“Competência Cultural e Qualidade do Cuidado em Saúde Mental: Desenvolvimento e Avaliação de Indicadores na Atenção Primária à Saúde”), em parceria com outras universidades brasileiras.
Uma de suas tarefas consistiu na realização de oficinas e na construção de uma cartilha que intenciona, ao reunir saberes técnicos e de experiência, sensibilizar profissionais diante das interseccionalidades nos contextos de saúde mental. Assim, será trazido para a construção do cuidado o protagonismo das comunidades culturalmente diversas e historicamente marginalizadas (migrantes, refugiadas, tradicionais, indígenas, negras, LGBTQIAPN+, em situação de rua, assentadas, etc.).
Fonte: Dimenstein, M.; R. S., Ana Carolina. Cuidados Culturais, Saúde Mental e Atenção Psicossocial / Magda Dimenstein; Ana Carolina Rios Simoni (Organizadores) – 1. ed. — Porto Alegre, RS: Editora Rede Unida, 2026. 660 p. (Série Saúde Mental Coletiva, v.14). ISBN: 978-65-5462-297-4 DOI: 10.18310/9786554622974
A atividade contou com a participação de quarenta e cinco pessoas, dentre as quais, para além da equipe organizadora (pesquisadoras/es do grupo de pesquisa, discentes e docentes), estiveram representantes de populações diversas e de movimentos sociais (ligados a direitos humanos e diversidades) e trabalhadoras/es da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
Enredando, metodologicamente, o trabalho junto à vivência do Mural Inca (McCarthy & Adrião, 2001), do Teatro-fórum (Canda, 2012) e da criação de um fanzine, as oficinas trouxeram aprendizados culturalmente sensíveis e pistas sobre “práticas de cuidado que colaboram com o enfrentamento das desigualdades estruturais e revelam a força de quando esse cuidado é realizado com abertura para a diferença e quando particularizado de acordo com a singularidade de cada sujeito(a)” (Simoni et al, 2026, p. 339).
Deslocando, além de ideias, posições ético-políticas e possibilidades de atuação territorializada e equitativa junto às populações, a construção da cartilha apontou para as relações de poder interseccionais relacionadas à determinação social de saúde, no sofrimento psicossocial e na relação com os processos de estigmatização e individualização do sofrimento psíquico — marcadamente presentes no contexto neoliberal.
Por fim, entende-se que uma das mais significativas convocações ético-políticas feitas por esta artesania coletiva se estabeleceu na direção da reinvenção dos espaços formativos a partir de processos de educação permanente e, por consequência, dos dispositivos de cuidado — contemplando, sobretudo, as perspectivas da integralidade, da interculturalidade e da interseccionalidade.
Quem sabe, talvez, pelas vias da interpelação feita pelas comunidades em alianças de amizade com o território e com a academia (no exercício da sua função social democrática), consiga-se provocar furos em práticas e discursos que (re)produzem subalternidades. Talvez, somente pelas vias da composição de uma rede de afeto-política (Paiva, 2024), seja possível bancar o desmantelamento das políticas de produção de morte.
A Cartilha de Cuidados Culturais em Saúde Mental está em fase de produção e será, em breve, lançada.
Acesse o artigo publicado sobre a experiência da construção da cartilha e das oficinas (capítulo 16): https://editora.redeunida.org.br/project/cuidados-culturais-saude-mental-e-atencao-psicossocial/

Lattes: http://lattes.cnpq.br/4411206725036557.
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Referências
Boal, A. (2005). Jogos para atores e não atores. Civilização Brasileira.
Canda, C. N. (2012). Teatro-fórum: propósitos e procedimentos. Urdimento: Revista de Estudos em Artes Cênicas, 1(18), p. 119–128. https://doi.org/10.5965/1414573101182012119.
Collins, P.H. Bilge, S. (2021). Interseccionalidade. Boitempo.
Dimenstein, M.; R. S., Ana Carolina. Cuidados Culturais, Saúde Mental e Atenção Psicossocial / Magda Dimenstein; Ana Carolina Rios Simoni (Organizadores) – 1. ed. — Porto Alegre, RS: Editora Rede Unida, 2026. 660 p. (Série Saúde Mental Coletiva, v.14). ISBN: 978-65-5462-297-4 DOI: 10.18310/9786554622974
McCarthy, J. Adrião, K. G. (2001). ARTPAD: um recurso para o teatro, participação e
desenvolvimento. 1ª edição. Brasil/Reino Unido.
Simoni, A.C.R. Dimenstein, M. Leite, J. F. Silva, M. P. R. Silva, J.P.Q. Santos, F.A. Paiva, M.C.F.A. Queiroz, G.S. Marques, L.S. Munção, A.P.C. Lopes, M.L.S. Belém, M.L.S., Souza, M.V.N. Santos, M.R.S. Bezerra, I.S.G. (2026). Oficinando cuidados culturais em saúde mental: produção coletiva de um dispositivo de educação permanente em saúde. In Cuidados Culturais, Saúde Mental e Atenção Psicossocial (p. 318-343). Editora Rede Unida. https://editora.redeunida.org.br/project/cuidados-culturais-saude-mental-e-atencao-psicossocial/
Paiva, M. C. F. A. (2024) ‘Entre estuários e encruzilhadas: uma escuta ético-política junto aos indígenas Warao em Natal/RN’, Universidade Federal do Rio Grande do Norte. https://repositorio.ufrn.br/handle/123456789/58949

