CHINESES ADAPTADOS E BEM-SUCEDIDOS

Os bem-sucedidos jovens que aparecem nesta reportagem deixaram a terra natal no rastro da onda de investimentos chineses no Brasil e, bem adaptados, querem ficar

Na escola que frequentava em Wuhu, cidade de 2 milhões de habitantes no sudeste da China, o especialista em relações internacionais Kevin Xie, 28 anos, ouvia dizer que o Brasil era urna terra tomada de flora exuberante e animais selvagens, como uma grande Amazônia. Hoje executivo da montadora chinesa Chery, ele acaba de aceitar um convite para assumir um posto no Brasil, país sobre o qual diz saber o que realmente importa: “É um dos Brics, né? E está crescendo, né?”. Em São Paulo, onde vive, tornou-se habitué de churrascarias (a palavra picanha figura entre as raras que aprendeu em português) e gosta de bater perna sempre junto de outros recém-chegados de Pequim. Xie pertence a uma turma de jovens chineses na faixa dos 30 anos, donos de currículo de alto nível e trajetória ascendente, que vê no Brasil uma chance de queimar etapas na carreira e inovar em mercados em franca expansão. Mesmo que o choque de culturas às vezes pese, assim como a saudade dos familiares que não cogitam deixar a China, a maioria não tem previsão de volta. Enquanto a economia estiver boa, explicam em inglês fluente, vão ficando.

Essa entusiasmada leva de imigrantes aparece em destaque em um recente levantamento feito pelo Ministério da Justiça. De acordo com o relatório, o ritmo de crescimento do número de chineses que chegam anualmente ao Brasil é o dobro do de estrangeiros como um todo: o grupo aumenta à velocidade de 44% ao ano desde 2009. Já são 200 000 no país. Eles vêm no rastro dos crescentes investimentos chineses – só nos últimos dois anos, alcançaram 22 bilhões de dólares, 86 vezes o que foi registrado ao longo das duas décadas anteriores, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China. Os recém-chegados ocupam cargos de médio e alto escalão em empresas chinesas como o gigante de telecomunicações Huawei, que acaba de dobrar seu quadro de funcionários no país. “O Brasil se tornou prioridade”, conta o diretor Liu Xifu, veterano do grupo com nove anos de São Paulo, que recepciona os novatos fazendo uso de um peculiar manual de sobrevivência. Entre outras coisas, sugere que seus conterrâneos deixem de passear com câmeras e tablets a tiracolo. Essas empresas trazem funcionários da matriz com o propósito de que incutam a cultura de lá nos trópicos. Do ponto de vista brasileiro, é bem-vindo. “É justamente esse o perfil de imigrante que mais impacta positivamente na economia de um país”, diz Reinado Gregori, doutor em demografia pela Universidade da Califórnia, em Berkeley.

A primeira barreira na qual esses chineses esbarram é a língua. “Nunca tive contato com uma fonética tão estranha quanto a do português”, desabafa o engenheiro Wang Xiao Lei, 28 anos, que está se aventurando pelo básico do idioma em aulas pelo YouTube. O esmero é grande, os avanços nem tanto. Ele e os outros se comunicam com os brasileiros em inglês ou fazendo mímica, como quando aparecem em grandes grupos em um restaurante. No Rio de Janeiro e em São Paulo, onde vive mais da metade dos recém-chegados, muitos dos que vêm sem a família dividem apartamento, ainda que tenham dinheiro para arcar com o aluguel sozinhos: é econômico e espanta a solidão. Em coro, ressentem-se da ausência de karaokês, programa preferencial desses jovens executivos em Pequim e Xangai, mas estão aos poucos aprendendo a fazer substituições. “Meu lazer agora é na praia”, conta a gerente de marketing da petroquímica Sinochem Crystal Lee, 30 anos, que, segundo os amigos chineses, virou “carioca”, tal a rapidez com que se aclimatou. Na orla, onde se instalou há onze meses, ela pode ser flagrada quase todos os dias pela manhã fazendo ioga.

A primeira grande onda migratória da China rumo ao Ocidente data do século XIX. Os chineses debandavam de um país mergulhado em sucessivas crises e guerras civis. O principal destino eram os Estados Unidos, onde muitos viriam a substituir os escravos recém libertos em tarefas braçais. Nessa época, uma leva que vivia em Macau, então colônia portuguesa, aportou no Rio de Janeiro a mando do rei dom João VI. Serviu de mão de obra para a construção de ferrovias. A segunda leva a deixar maciçamente a China, entre as décadas de 50 e 70, fugia do regime de terror de Mao Tsé-tung, um período de trevas em que professores universitários eram forçados a criar gado e as escolas se transformaram em centros de adoração ao líder Mao. Foi então que muitos cérebros chineses acabaram acolhidos em algumas das melhores universidades do mundo.

A leva atual é a primeira que troca de país não por não encontrar boas alternativas na própria pátria – o que todos têm -, mas por considerar que pode chegar mais rápido e longe fora de casa. Também pesa a favor a oportunidade de ter uma experiência no exterior. “Ao contrário das que vieram antes, essa é uma turma globalizada e disposta a integrar-se”, observa o especialista Oliver Stuenkel, professor da Fundação Getulio Vargas. O passaporte de boa parte dos que fincam base no Brasil é coalhado de carimbos recentes de toda parte. O engenheiro Liang Kai, 28 anos, tem rodado os vários países da Ásia, da Europa e da América Latina em que a empresa onde trabalha há três anos, a fabricante de celulares ZTE, tem operações. Para ele, o Brasil oferece um desafio que o enche de entusiasmo. “Todos os grandes estão disputando um naco desse mercado, mas só quem realmente conseguir inovar vai vencer”, afirma Kai, que com tal propósito, vive enfurnado no centro de desenvolvimento de tecnologia da empresa, na Zona Oeste do Rio. Como outros compatriotas com os quais partilha o escritório, onde reina o mandarim, ele não quis comprar passagem de volta. Ainda solteiro, diz: “É bem possível que meus filhos venham a ser brasileiros”.

Helena Borges e Renata Betti

(Publicado na Veja em 27/02/2012)



Categorias:imigrantes

Tags:

%d blogueiros gostam disto: