Em abril, frases racistas contra alunos africanos foram escritas nos muros na UNESP, em Araraquara. Em maio, uma estudante angolana é assassinada em São Paulo e outros três angolanos são alvejados. Em junho, uma moradia de estudantes da UNILA é invadida pela polícia dando início a uma sucessão de arbitrariedades. Esta triste escalada de violência reflete um problema que precisa ser discutido: a integração dos estrangeiros e especialmente dos latino-americanos e africanos no Brasil.
As intenções de integração entre o Brasil e seus vizinhos das Américas, bem como aproximação dos brasileiros com os outros povos que falam o português ganharam forma com a criação de universidades. A Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Brasileira, UNILAB, sediada na cidade de Redenção, no Ceará, foi criada no intuito de unir os países que tem o português como idioma oficial. Nela, brasileiros e estrangeiros estudam lado a lado em cursos que visam atender interesses comuns. Outro exemplo, na cidade de Foz do Iguaçu, no Paraná, encontramos a UNILA, Universidade Federal da Integração Latino-americana. A UNILA foi planejada para melhor integrar estudantes de Brasil, Argentina e Uruguai, mas recebe universitários de outros países latinos ampliando a tríplice fronteira.
Se a intenção de criar polos universitários interculturais é boa, ela é não tem sido suficiente. Alunos da UNILA, por exemplo, queixam-se publicamente das promessas não cumpridas pelo Governo Brasileiro. Os alojamentos, a alimentação e até mesmo a qualidade curricular tem sido alvo de questionamentos. Vivendo em condições precárias e sem cobertura médica, muitos alunos estrangeiros renunciam o sonho de estudar no Brasil e preparam as malas para voltar para casa.
No entanto, o problema vai além da falta de recursos financeiros. Os estudantes africanos no Brasil têm sido vítimas de violências racistas que vão desde pichações dentro da universidade de frases como “Sem cotas para os animais da África” até tiros, como os que mataram a estudante Zulmira de Sousa Borges Cardoso em um bar na capital paulista. E antes que pensemos que a questão afeta apenas os universitários africanos ou que reflete o pensamento de uma minoria da sociedade, vale lembrar que na madrugada do último domingo, 3 de junho de 2012, a moradia de cerca de sessenta alunos da UNILA, foi invadida por policiais. Sem permissão judicial, sem argumento plausível e com a máxima brutalidade, autoridades que deveriam salvaguardar a segurança pública espancaram, ofenderam e ameaçaram os muitos universitários latinos que ali estavam.
Não se trata, portanto, de responsabilizar um ou outro grupo de extrema direita ou afirmar que o problema é específico desta ou daquela cidade. A questão não comporta reducionismos. Sim, os pichadores da UNESP devem ser punidos. Sim, o assassino da estudante angolana deve ser preso. Sim, os policiais de Foz do Iguaçu precisam ser responsabilizados. Mas, acima de tudo, a questão deve estar no debate público e políticas efetivas de integração acadêmica, cultural, política e econômica entre o Brasil e os países vizinhos e lusófonos precisam sair do papel. O Brasil deve tratar melhor os estrangeiros que escolheram este país para estudar ou trabalhar ou estará cada vez mais distante dos princípios de cooperação e solidariedade que fundamentaram a criação de suas duas universidades interculturais.
Danúbia Andrade
