BOLIVIANOS NA AVENIDA PAULISTA

Nos últimos anos o Brasil tem se tornado uma das opções mais tentadoras para imigrantes que saem de lugares como Bolívia, Peru e Paraguai e Haiti, em busca de melhores condições de emprego e educação. Nosso país tornou-se o que os Estados Unidos eram nos anos 90 para muitos brasileiros e mexicanos. E desde 2010 os haitianos passaram a integrar esse grupo.

O número de estrangeiros regulares em território nacional aumentou 50% de 2010 para 2011, de acordo com os registros da Polícia Federal. Em dezembro de 2010, havia cerca de 961 mil estrangeiros, enquanto no mesmo mês de 2011 esse número passou para cerca de 1,5 milhão de pessoas. Desse total estima-se que aproximadamente 63 mil  sejam bolivianos .

A comunidade boliviana é uma das que melhor se adaptaram ao Brasil. Não é estranho encontrá-los na Avenida Paulista, por exemplo. Todos os domingos um grupo de imigrantes vindos da Bolívia reúne-se na Feira do Parque Trianon, vestidos com roupas típicas andinas, para tocar e cantar músicas do folclore boliviano.

Rosana Valdéz é uma dessas pessoas. Ela explica que costumava frequentar mais a feira, e que hoje vai apenas quando os filhos pedem: “Vivo no Brasil há 15 anos, estou sempre por aqui. Moro na Barra Funda mas sempre pego o metrô e venho passear na Paulista. Aqui na feira encontro alguns amigos e costumava dançar com eles, agora é mais para visitar”.

A socióloga e integrante do grupo de pesquisa Observatório Experimental Sobre as Migrações Internacionais Nas Áreas Urbanas da América Latina (MIUrb-AL), Iara Rolnik Xavier, destaca que os bolivianos trabalham mais especificamente na área têxtil, dado confirmado no Censo de 2000. Na época, 48% atuavam no setor. Segundo a pesquisadora, existem três motivos essenciais que justificam os dados: “o primeiro é que, muitas vezes, os imigrantes já trabalhavam no setor têxtil em seus países de origem. O segundo são as “redes”, ou seja, se você conhece alguém que trabalha com isso, fica mais fácil conseguir emprego”, explica Xavier.

Para a socióloga, do ponto de vista legal, o Brasil recebe muito bem seus imigrantes, até mesmo pelos acordos que favorecem essas pessoas. Ela comenta que o Sistema Único de Saúde (SUS) é um dos elos de identificação importantes entre o governo brasileiro e os imigrantes. “Para os bolivianos, o cartão do SUS é uma forma de identidade. É um cartão brasileiro com o nome deles, visto de uma forma muito positiva”, revela. “Temos agentes de saúde que vão até eles, algo impensável em seu país de origem. Esse sistema é uma das coisas mais acolhedoras do Brasil.”

Na avaliação da socióloga, do ponto de vista trabalhista ainda estamos devendo. “De uma maneira geral, não diria que não somos uma cidade acolhedora, mas os bolivianos são menos frágeis do que pensamos. É uma situação ruim, mas tem trabalho. O boliviano dificilmente fica desempregado em São Paulo”, considera.

Iara Xavier afirma que o preconceito contra eles existe, já que muitas pessoas ainda acreditam que os imigrantes vêm para cá ocupar o lugar de brasileiros no mercado de trabalho. “Mentira. Eles não dominam a área da costura, quem majoritariamente trabalha com isso são os brasileiros, eles formam uma parcela ínfima”, expõe.

“Adoramos falar que São Paulo é uma cidade formada por imigrantes, e por isso é multicultural. É “bonito” morar em uma cidade formada por italianos, mas ninguém se lembra de que eles vieram para cá, em uma situação similar a dos bolivianos”, acrescenta.

Pesquisador do Centro de Estudos Migratórios da Casa do Migrante, Dirceu Cutti explica que o CEM não é um centro de pesquisas, mas sim uma mediação entre estudos teóricos e a realidade dos imigrantes: “Nós precisamos ligar esses dois eixos, eles precisam ajudar um ao outro”, opina. A partir do Centro de Estudos, Cutti conseguiu ter uma visão melhor da imigração no Brasil: “Os imigrantes são bem recebidos, mas é claro que há o preconceito. Cidade nenhuma está completamente de braços abertos para o novo, para o diferente, para o imigrante pobre. Aí o mito da cordialidade brasileira é questionado”.

Responsável pela Anistia Migratória, a Lei nº 11.961/2009 foi outro importante fator para o aumento da imigração, pois regularizou cerca de 45 mil pessoas que estavam em situação irregular no Brasil. Promulgada em 2009, ela dava direito aos estrangeiros que haviam adentrado o país até fevereiro do mesmo ano a se oficializarem cidadãos brasileiros. O fluxo migratório intenso também foi consequência do Acordo sobre Residência para Nacionais dos Estados parte do Mercosul, em vigor desde o inicio de 2009, mediado pelo Estatuto do Estrangeiro e o Conselho Nacional de Imigração (Cnig). O acordo garante aos cidadãos do Mercosul o direito de requerer visto de permanência em países do bloco que não são de sua nacionalidade, ou pedir residência caso já esteja habitando em outro país, mesmo que irregularmente. Em consequência disso, houve um aumento, em 69%, da concessão de vistos de permanência e residência no Brasil a imigrantes nos últimos dois anos, de acordo com um levantamento do Departamento de Estrangeiros da Secretaria Nacional de Justiça.

Ainda segundo dados da instituição, a concessão de nacionalidade brasileira também aumentou, em 90% de 2008 para 2010. O imigrante que passa a residir no Brasil possui os mesmos direitos assegurados a todos os brasileiros, inclusive os trabalhistas.

Na opinião do General de Brigada do Exército Mário Antônio Ramos Antunes, há facilidade na transposição das fronteiras: “é uma divisa permeável onde não há selva, rio ou montanha. Na fronteira entre México e Estados Unidos temos um muro imenso, com fiscalização e tecnologia. Aqui não, falta ação do Estado e infraestrutura”. Ele ressalta que o Exército Brasileiro faz o que pode em suas missões e mantém uma relação harmoniosa e de ajuda aos imigrantes que surgem na fronteira da região Amazônica.

Ana Carolina Neira

(paulista900.com.br – 25/06/2012)



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