UM CORAÇÃO, DUAS PÁTRIAS

No Ano Brasil-Portugal, a equipe do GLOBO-Niterói Sábado celebra a reciprocidade entre os dois países conversando com imigrantes que adotaram a cidade de coração. Eles chegaram jovens, cheios de expectativas, formaram família e atingiram o sucesso em suas profissões. Em comum, um sentimento: não há melhor lugar para viver do que o Brasil, principalmente Niterói.

Uma dessas histórias é protagonizada por Dona Henriqueta Henriques, proprietária da Gruta de Santo Antônio, na Ponta D’Areia. Quando chegou ao Brasil, aos 23 anos, era apaixonada pela costura e não pela cozinha. Cortava tecidos e fazia modelos para ajudar o marido a sustentar a família.
— Naquela época, por mais que eu tivesse aprendido desde pequena os truques e as receitas da culinária portuguesa, era o meu marido que tinha a fama de bom cozinheiro, comandando a Pensão Europa, um pequeno restaurante no Centro de Niterói. O cardápio era simples, tinha sempre carne assada, dobradinha, jardineira e, de vez em quando, bacalhau à Gomes de Sá — relembra ela, que chegou à cidade há mais de 40 anos.

O negócio prosperou e, em 1977, eles decidiram abrir a Gruta, uma homenagem ao santo de devoção. Mas, dois anos depois, seu marido faleceu e Dona Henriqueta trocou a máquina de costura pelo fogão, as agulhas pelas panelas, e, com muita coragem, assumiu os negócios da família.

— Foi difícil, muito! Mas tive muita garra e determinação para levar adiante os trabalhos. Não podia parar — diz.

Hoje com 35 anos, o restaurante é citado por Chico Buarque e por outras celebridades como o melhor português do Brasil. O motivo do sucesso, Dona Henriqueta responde de pronto.

— Faço questão de ir de mesa em mesa conversar sobre a preferência do cliente, seus gostos, sugerir pratos e, principalmente, garantir que todos sejam sempre bem atendidos e acolhidos em nossa casa — comenta ela, ressaltando que serve cerca de uma tonelada de bacalhau por mês no restaurante.

O capricho com a culinária acabou resultando no livro “Cozinhar é preciso”, que tem prefácio da jornalista Sandra Moreyra. Em sua terceira edição, a obra foi lançada pela editora Senac Rio, e traz, além de uma pequena biografia de Dona Henriqueta, alguma das receitas mais famosas da Gruta de Santo Antônio.

Um coração, duas pátrias

Quando chegou ao Brasil, aos 13 anos, o advogado Fernando Guedes de Azevedo, atual presidente do Clube Português, foi trabalhar como ajudante de mercearia e também entregava jornais pelos morros da cidade. Há mais de 40 anos em Niterói, com muito suor ele conseguiu se formar em Direito e, aos 26 anos, começou a participar dos movimentos estudantis da faculdade. Ele conta que o amor pelo trabalho lhe abriu as portas.

— Sempre gostei de estudar contabilidade. Por isso, quando me formei em Direito, iniciei a carreira na OAB de Niterói como tesoureiro. Com o passar do tempo, assumi a vice-presidência, até me tornar, de fato, presidente da instituição por três mandatos — conta ele.

Há quatro anos à frente do Clube Português, Azevedo faz questão de ressaltar a receptividade com que o povo niteroiense o recebeu quando chegou no Brasil.

— Nunca houve qualquer preconceito por parte do povo desta cidade maravilhosa. Amo Niterói e sua gente e espero que a nova geração que está vindo de Portugal para cá, assim como os brasileiros que estão indo para lá, honrem esta relação de reciprocidade tão bonita — comenta.

Amor Luso-brasileiro

Maria Alice Gonçalves chegou em Niterói aos 17 anos, por intermédio de uma carta de chamado que, naquela época, era exigida dos imigrantes. Ela também reside há mais de 40 anos na cidade e relembra como iniciou a vida em Niterói.

— Ao chegar, fiz cursos de corte e costura, bordado, bolos de aniversário e também confecção de mesas artísticas. Com o tempo, consegui me estabelecer na cidade e, no início da década de 70, abri a Alice Modas, em Icaraí. Vendi a loja após oito anos e abri a lanchonete Marilice, no Centro. Há dez anos me desfiz do negócio para me dedicar à família. Sempre procuro viajar para Portugal, mas foi aqui que formei minha família, tive os filhos e netos que tanto amo.

Meu coração tem duas pátrias, é brasileiro e português — diz ela, que hoje organiza os eventos típicos do Clube Português, além de dedicar parte de seu tempo a trabalhos na Beneficência Portuguesa de Niterói, onde, nos últimos seis anos, exerceu os cargos de diretora social e de abastecimento.

Sucesso no ramo empresarial

O comendador Orlando Cerveira chegou em Niterói em 1957, aos 16 anos. Ele veio sozinho de Portugal e agradece a Deus pelo caminho percorrido. Empresário de sucesso, o proprietário da Kátia Decorações, que possui quatro lojas na cidade, relembra como foi o início:

— Os espinhos da vida foram importantíssimos para que eu me tornasse quem sou hoje. Tenho orgulho de dizer que fui faxineiro, ajudante de cozinha, copeiro, garçom e vendedor de bebidas.

Cerveira começou no ramo graças a quatro amigos que estavam iniciando uma sociedade.

— Um deles estava quebrando e, como era meu amigo, eu disse que poderia ajudá-lo financeiramente. Foi quando ele disse que eu deveria entrar como sócio. Juntei-me a eles em 1974, e em 1977 já estava gerindo a empresa sozinho — conta ele, que também foi presidente do Clube Português por cinco anos e meio, quando chegou a entregar uma bandeira da entidade ao atual presidente de Portugal, Cavaco Silva.
De ajudante de pedreiro a dono de padarias

Jaime Abrantes chegou ao Brasil em 22 de março de 1954, um dia após completar 19 anos dentro de um navio. Assim como todos na época, veio por meio de uma carta de chamado. Primeiramente foi trabalhar em Ipanema, do outro lado da baía. Até se tornar dono de duas padarias em Niterói, muita história aconteceu.

— Quando meu pai faleceu, eu tinha 14 anos. Para fugir da lavroura em Portugal, fui trabalhar como ajudante de pedreiro. Continuei nessa atividade até os 18 anos, antes de vir para cá — relembra.

Ao desembarcar no Brasil, Abrantes trabalhou como ajudante de uma mercearia no bairro que começava a se tornar o queridinho da juventude carioca.

— Imagina como foi para mim. Eu acabara de fugir da lavoura, era ajudante de pedreiro e, de repente, chego em Ipanema, com tantas garotas bonitas e toda aquela facilidade que se tinha para trabalhar no Brasil, principalmente no Rio. Antes de vir, me falaram muito que o pessoal daqui iria me discriminar, me maltratar, mas isso nunca aconteceu. Pelo contrário, sempre fui muito bem tratado e respeitado, principalmente quando cheguei em Niterói — relembra.

Após um ano e meio, aproximadamente, Abrantes conseguiu juntar dinheiro para vender seus próprios pães. E, em 1958, resolveu deixar Ipanema e vir para Santa Rosa, quando descobriu “essa maravilhosa cidade”.

Junto com o cunhado, comprou uma casinha no bairro e ali se estabeleceu com a primeira padaria. Segundo ele, foi preciso muita coragem e determinação para transformar aquele pequeno espaço no seu maior patrimônio. Após cinco anos, o negócio começou a gerar frutos, e outro estabelecimento foi aberto em Icaraí. Além das padarias, o comerciante cita a família como seu grande bem.

— Vivi um romance, no qual tive dois filhos. Então, atualmente, me considero mais brasileiro do que português. Niterói sempre foi um lugar maravilhoso para se viver. Às vezes, penso até que foi tão bom que cheguei a gastar muito dinheiro quando era garotão — diz o comerciante.
Com mais de 30 funcionários nas duas padarias, ele os considera como parte da família. O tempo dedicado à profissão continua o mesmo da época em que começou. Abrantes acorda todos os dias antes das 6h e só retorna para casa após as 22h:

— Costumo dizer que, se eu morrer trabalhando, será sinal de que morri bem de saúde.

(Globo – 03/11/2012)



Categorias:diásporas

%d blogueiros gostam disto: