O Brasil já foi, no fim do século 19 e início do século 20, um país amplamente receptivo a todos os tipos de imigrantes. Italianos, espanhóis, alemães, japoneses, coreanos, africanos, judeus e árabes, grupos originários de todas as partes do mundo desembarcaram por aqui em busca de nova vida. Criaram raízes, construíram riquezas, desenvolveram empresas, trouxeram ao Brasil novas ideias, experiências de vida e formas de lidar com o trabalho. E, sobretudo, deram a cara que a nação tem hoje. Ao longo de um século, no entanto, o país perdeu sua capacidade de atração de estrangeiros.

Em 1900, o total de imigrantes como proporção da população brasileira correspondia a 7,3%. Desde então, esse porcentual vem declinando: passou a 5,2% já em 1920 e, no fim do século, em 2000, atingiu 0,4%. Os últimos dados do IBGE indicam que, em 2010, a participação era de 0,3%.

O Brasil deve aos imigrantes, por exemplo, a transformação da USP na maior e mais reconhecida universidade da América Latina, como parte de uma bem-sucedida política migratória no início do século 20. Os europeus trouxeram para o Brasil novos métodos, técnicas e conhecimentos que foram fundamentais para o desenvolvimento da universidade — o mais lembrado, até hoje desses pesquisadores é Claude Lévi-Strauss, fundamental nas primeiras décadas de existência da USP.

Da mesma forma que no início do século, atrair trabalhadores estrangeiros e facilitar sua entrada e fixação em terras brasileiras significaria suprir uma lacuna em várias áreas que não dispõem de profissionais em quantidade e na qualidade que o país necessita para desenvolver-se, especialmente nos segmentos ligados a serviços de engenharia. Calcula-se que o Brasil forme, hoje, cerca de 40 mil engenheiros por ano, ante uma demanda de 60 mil profissionais.

Para os países de origem desses trabalhadores, a transferência para terras brasileiras também seria benéfica, pois o Brasil utilizará seus conhecimentos enquanto vai investindo para criar uma geração nova de engenheiros, e o trabalhador voltará depois ao país de origem com mais experiência. Significaria dar a profissionais capacitados uma chance que não conseguem oferecer em seus mercados de trabalho domésticos — casos de Portugal e Espanha, que enfrentam altos índices de desemprego.

O país também poderia atrair mais estudantes. Em países como os Estados Unidos, é comum os alunos aproveitarem as férias de verão para buscar trabalhos que lhes permitam ganhar experiência e adquirir conhecimento, os chamados summer jobs. Dados do Relatório de Talentos da BRAiN indicam que, para cada mil habitantes, menos de um estudante entra ou sai do país. Nos Estados Unidos, esse índice é de 2,2 estudantes; na Coreia do Sul, de três, e na Austrália, campeã mundial de intercâmbio, de sete estudantes.

Um trabalho para o aprimoramento da política brasileira de imigração vem sendo desenvolvido pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República, em parceria com a Brasil Investimentos & Negócios (BRAiN). O grupo vai avaliar, entre outros aspectos, o fluxo imigratório no Brasil, o potencial de atração do país, as vantagens e desvantagens, assim como os impactos que uma política de imigração para trabalhadores qualificados e não qualificados podem ter sobre o desenvolvimento nacional.

Robert John Dijk

(Diretor estatutário da Brasil Investimentos & Negócios – BRAiN)

(SAE – 16/01/2013)