NA INTIMIDADE DA IMIGRAÇÃO

Quando, como tantos portugueses, há três anos decidi emigrar para o Brasil, estava preparado para tudo – menos para o que me aconteceu.

A decisão de emigrar para o Brasil foi tomada em Março de 2010 num restaurante de uma Avenida do Brasil em Lisboa. Ou pelo menos é essa a data da pergunta à Lu, então ainda minha namorada, sobre o que ela, brasileira, achava do assunto.

Porque a decisão vem lá do fundo. Das memórias que me foram passadas em casa – a telenovela Gabriela que os meus pais não me deixavam ver porque começava muito tarde, a Ópera do Malandro e o João Gilberto, que tocavam todos os sábados de manhã – a outras próprias – como o Mundial de Futebol de 82.

Sim, o meu fascínio pelo Brasil começou também por aí, pelo Mundial de 82, aos nove anos: os jogadores da seleção brasileira eram melhores do que os outros, usavam o peito para acariciar a bola, o calcanhar para a passar, e rematavam, com uma força prodigiosa, como o Éder, ou com delicadeza, como o Zico. Além do amarelo, do verde e do azul do equipamento, tão excessivos para aquele Portugal ainda a preto e branco, a seleção brasileira era composta de gente também ela de todas as cores, o Júnior, de cabeleira afro, o Falcão, de cabeleira loira, e claro, o Doutor Sócrates, o mais fascinante de todos, de barba misteriosa, um metro e noventa e um curso de medicina no currículo. O nome do Sócrates, aliás, reunia tudo o que me intrigava no Brasil: por um lado, nomes próprios exóticos, Sócrates Brasileiro, e, por outro, apelidos de uma simplicidade lusitana, Sampaio de Souza Vieira de Oliveira.

O Sócrates e os brasileiros: longínquos e próximos. Que gente tão incrível é esta com nomes próprios de outro planeta e apelidos iguais aos do meu vizinho do lado?

O Jorge Amado, o Chico Buarque, o Dorival Caymmi, o Doutor Sócrates passaram-me todos pela cabeça durante a tal pergunta à Lu na tal Avenida do Brasil:

— Se eu sou de um país que está a murchar e tu és de um país que está a florescer, porque é que vivemos no meu e não no teu?

Ela, brasileira, então com 33 anos, 12 de Portugal, sentia o mesmo, por mais que adorasse Lisboa e temesse o impacto de voltar. E o impacto que o Brasil real teria em mim.

A situação no jornal onde ambos trabalhávamos, ela como designer, eu como editor da secção de Desporto, foi o mote. Construído por gente especial, porque só gente especial troca estabilidade por aventura em tempos de crise, o i foi o que de mais estimulante aconteceu na imprensa portuguesa em 20 anos, com prémios na Europa e nos EUA (em Portugal quase não ganhou nada). Mas a crise económica, a miopia de quem o pagava ou ambas amputaram o jornal da sua direção. Se a crise revolta quando nos atinge o bolso, revolta muito mais quando nos quer mexer no cérebro.

Portugal podia ser um dos lugares mais agradáveis do planeta, a meio caminho – geográfico e social – entre a Europa e o Brasil. Para se trabalhar, mais organizado do que o segundo; para se viver, mais divertido do que a primeira; e mais ameno do que ambos. Mas tornou-se um lugar onde o prazer em trabalhar diminuiu e, por consequência, o prazer de viver também.

Seis meses antes de oficializar a minha saída, em Novembro de 2010, eu já estava decidido: não continuo no i, mesmo dispondo de um bom salário e de uma ótima equipa na editoria de desporto; não continuo em Portugal, mesmo morando no bairro que mais gosto, Campo de Ourique, da cidade que mais gosto, Lisboa.

No meio da burocracia de uma mudança de um país burocrático para outro ainda mais burocrático, eu e a Lu fizemos uma viagem de prospeção a São Paulo, a cidade que mais oportunidades de trabalho a curto prazo oferecia. Ela quase assinou logo ali um contrato com uma revista multinacional e eu voltei com um plano: procurar ser correspondente de jornais portugueses no Brasil. A Bola aceitou na hora, o Expresso a seguir e o próprio i condescendeu em pagar-me um quinto do que eu ganhava como editor durante os primeiros seis meses de 2011.

Antes, a 10 de Dezembro de 2010 casei-me com a Lu. E após dezenas de despedidas de amigos e familiares, no dia 22 de Dezembro estava no aeroporto da Portela. Nos instantes finais, sentado no Cockpit, um bar nas partidas, bebi uma última “italiana”, sabendo que nos próximos anos por aquele prazer simples teria de pedir “um café expresso curto” e ainda explicar exactamente como o queria. E, consciente de que não os teria na minha mão por tempo indeterminado, li os jornais portugueses em tom solene de despedida. Ia começar a viagem da minha vida.

O que eu não sabia é que a viagem da minha vida não era de avião sobre o Atlântico mas ali à mesa do Cockpit.

A Lu, grave, olhou para mim e interrompeu-me a “italiana” e os jornais:

— Com esta história das burocracias e do casamento…

— Sim?

— Perdi a conta e acho que posso estar grávida.

O impacto

No primeiro dia em São Paulo, vemo-nos então numa farmácia a comprar um teste de gravidez. Na manhã seguinte, no hotel onde nos hospedámos sem data de saída – seria até encontrar um apartamento para viver – ela confirma-me: grávida.

Em dois anos, tinha deixado de morar sozinho para morar acompanhado. Tinha trocado um emprego de nove anos no Record por um sonho no i. Tinha casado. Tinha decidido mudar de continente. Tinha escolhido passar de editor contratado a jornalista freelance. E agora ia ter um filho brasileiro.

E São Paulo foi, como canta o Caetano Veloso, um difícil começo. Precisávamos de encontrar casa em tempo recorde porque o hotel era caríssimo; o preço do metro quadrado é dos mais altos do mundo, sobretudo nos bairros que nos garantiam qualidade de vida próxima da que estavamos habituados em Lisboa; o euro valia só 2,1 reais na altura; cada refeição, mesmo na lanchonete da esquina, custava uma fortuna; e o dinheiro ia acabando porque afinal estávamos sem emprego fixo. E, grávida, a Lu tinha perdido a hipótese de começar naquele que apalavrara.

Pelo meio, as chuvas torrenciais de Janeiro, um trânsito dantesco, violência nas ruas, enfim, o choque de uma cidade à primeira vista (e à segunda e à terceira) hostil.

Tinha muitas perguntas na cabeça. O que estamos aqui a fazer? Sem plano de saúde, quanto custará um parto? E agora já não temos casa nem carro nem empregos em Lisboa se quisermos voltar atrás.

Uma semana depois de desistirmos de uma dúzia de apartamentos por causa dos preços e das burocracias que nos impunham, encontrámos um ao lado da principal artéria da América do Sul, a Avenida Paulista. Parecia milagre. Finalmente, passados 15 dias de chuvas até o sol apareceu.

Mas na tarde seguinte, enquanto eu fiquei à espera da entrega da cama que compráramos, sentado no chão de uma casa ainda sem móveis, a Lu voltou de uma ida ao ginecologista com uma novidade:

— João, eu ouvi os coraçõezinhos.

E eu tinha de começar a conquistar A Bola, um jornal onde conhecia quase toda a gente mas na qualidade de concorrente, e o Expresso, que me obrigaria a sair do desporto e a tratar de política, economia ou sociedade. E a justificar a ligação ao i. Mais: ainda em Lisboa aceitara escrever o livro Os 100 Melhores Futebolistas de Todos os Tempos para a Oficina do Livro – tinha até final de Fevereiro, faltava um mês e meio, para escrever 250 mil carateres, uns três jogadores por dia, ou melhor, por noite, porque o dia era dedicado aos jornais (quem comprou o livro, fica a saber que o texto do Messi foi escrito a dormir).

Sem internet nas primeiras semanas, comecei a escrever, os artigos e o livro, em cibercafés, enquanto percorria São Paulo, atrás dos centros de treinos dos principais clubes, para mandar trabalho para A Bola. Ingénuo, olhava para o mapa e dizia, “é relativamente perto”. À minha escala lisboeta, se eu vivia numa espécie de Avenida da Liberdade e o centro de treinos do Corinthians é ali no canto do mapa, será como ir de metro do Marquês ao Estádio da Luz. Afinal, demorava uma hora e meia de metro e ainda pagava 25 euros de taxi. Os limites de São Paulo são como de Setúbal a Leiria. O meu bairro paulistano, os Jardins, tinha praticamente a área de Lisboa.

Ao mesmo tempo, desesperado, concorri a vagas de “plantonista de domingo” no Estadão e na Folha, os principais jornais da cidade. Não me responderam. Ainda bem, não me via a perder um domingo para fazer o trabalho mal remunerado de miúdos saídos da faculdade. Ao Diário de São Paulo, jornal que se reformulou com base no i, fui diretamente pedir ao editor de esportes um lugar na equipa dele. Ele disse, “cara, você tem currículo para o meu lugar, não para sair por aí cobrindo clubes…”.

— Então, dá-me um espaço de opinião e pagas-me alguma coisa.

— Aí você já tem currículo a menos. Opinião aqui só têm os “bam-bam-bam” (estrelas) do jornalismo esportivo brasileiro.

Mexi então os cordelinhos para ser convidado quatro vezes de programas do Band Sports, um canal da Rede Bandeirantes. Mas a fama não se constroi em 15 dias. Muito menos, no Brasil, um país com uma oferta e um ritmo esmagadores.

Continuava por isso com muitas perguntas na cabeça. A casa onde vivíamos, apesar de bem situada, não comportava um berço quanto mais dois. Teríamos de ir viver para longe do centro, onde há crime a cada esquina?

A Lu oscilava entre momentos de apoio e outros de choro por causa dos vómitos de fim de tarde – os bebés zangavam-se invariavelmente entre as seis e as sete.

— Quero ir para Lisboa!, gritava ela.

— É melhor ficar aqui!, gritava eu.

A solução afinal estava à frente dos nossos olhos mas eu, lisboeta, e a Lu, que morou em Brasília, São Paulo, Londres e Lisboa, não conseguíamos ver nada à frente do nariz a não ser capitais, grandes centros. A solução era, claro, Ribeirão Preto, a 300 quilómetros dali, no interior do estado de São Paulo, onde a minha sogra e o marido, loucos por netos, viviam.

A adaptação

Quatro horas de viagem de ônibus depois, Ribeirão Preto.

O estado de São Paulo é maior do que a Grã Bretanha, mais populoso do que a Espanha e tem um PIB cinco vezes superior ao de Portugal. Ribeirão, nesse contexto, é uma cidade de médio porte, com 700 mil habitantes. É conhecida – com exagero – por “Califórnia Brasileira”, por causa do sol permanente, da boa qualidade de vida e das muitas fortunas que o agronegócio e a construção civil geraram. Também é a capital do chope do Brasil, que corre gelado em milhares de botequins e restaurantes da cidade – um deles, o Adega Leone, é justamente considerado um dos quatro melhores portugueses do país.

Os apartamentos são mais baratos do que na inflacionada Sampa, a cidade é “family friendly” e – com cinemas e teatros, livrarias, centros comerciais modernos, quatro jornais locais, três rádios e televisões – está longe de ser um fim de mundo. Mais importante, a cidade tem dos melhores hospitais públicos da América do Sul, onde se podem realizar partos sem custos e em segurança.

Chegar a Ribeirão deu, portanto, para respirar fundo. Faltava adaptar-me, de facto, a um novo país. Para isso, segui teorias antropológicas: agir no meu primeiro ano de Brasil como um brasileiro tipo.

Preferi a cerveja ao vinho, a carne ao peixe e o arroz e o feijão a tudo o resto. Na televisão, acompanhei a novela das oito, Insensato Coração, vi os programas de crime das 17 horas e os grandes programas de entretenimento. E excluí a TV portuguesa da grelha de canais.

Percebi que só nos sentimos adaptados aos países não tanto quando sabemos o que gostamos neles mas sobretudo quando sabemos o que não gostamos. Com as pessoas, se calhar, é a mesma coisa.

Em paralelo, estudei muito. Fiz um curso intensivo da economia e da sociedade brasileiras. Sobretudo da política e da selva de 21 partidos e improváveis alianças. Decorei nomes e caras de ministros, de governadores e de prefeitos e procurei entender o que os move a todos através dos jornais e revistas que leio – e entender o que move os jornais e revistas que leio: Estadão, Folha e Veja.

A sofrer da austeridade própria de quem passa de zero a dois filhos num instante e logo durante o período de adaptação a um novo continente, a novos patrões e a um novo tipo de rotina, disparei para quase todos os media do Brasil – e alguns de Portugal – de modo a aumentar o leque de colaborações. De tanto tentar, acabaria por ser recompensado quase por acaso, ao ser convidado a participar de um programa, Legião Estrangeira, do meu canal preferido, a TV Cultura, com correspondentes, como eu, dos principais jornais do mundo.

Para Portugal passei a colaborar através de uma coluna sobre o Brasil com o jornal Dinheiro Vivo, gerido pela cúpula que fazia mover o i, e que substitui no orçamento o fim da colaboração com esse mesmo i. Escrevo artigos sobre o Brasil que me levaram a ter um exigente clube de leitores no país e em Portugal, composto por sexagenários anti-facebook, que me pedem para lhes enviar os textos por email. Para o Expresso já escrevi sobre política, economia e sociedade e sinto-me cada vez mais parte de uma equipa. Para A Bola, mais do que as sete manchetes, o que me orgulha são os quase 700 artigos assinados nas páginas do jornal em dois anos. Pago independentemente do que produzir, é ponto de honra para mim produzir muito.

Troquei, profissionalmente e não só, o certo pelo incerto e percebi que é mais provável a felicidade vir com o segundo do que com o primeiro. Não foi, como esperava, uma decisão indolor. Houve um forte sentimento de perda no processo até porque vivia bem, a todos os níveis, em Lisboa – é nessas condições, e não no desespero, que se deve dar um passo deste tipo. Mas não me arrependo: pelo contrário. No meu íntimo, não tive um segundo de hesitação mesmo nos momentos em que tudo parecia desabar. Hoje tenho uma certeza: cada dia emigrado vale por dois.

Aqui, à distância, nunca vi Portugal tão politizado como hoje, o que faz pressupor que da próxima vez a abstenção não ganha as eleições; mas em contrapartida nunca vi Portugal tão pouco mobilizado para votar nos partidos do arco do poder. Há cada vez mais uma separação entre eles – os partidos tradicionais – e nós – os eleitores e supostos donos da democracia. Aqui, à distância, ouve-se com mais nitidez o assobio da bomba que já vai no ar e pode explodir a qualquer momento. Uma bomba em forma de Salazar ou em forma de Beppe Grillo? Não sei. Mas vem aí uma bomba.

Entretanto, as minhas filhas luso-brasileiras, a caminho dos dois anos, são mais do que eu esperava. Continuam a reclamar entre as seis e as sete da tarde, como reclamavam na barriga da mãe, e adormecem às oito. Por isso eu deito-me muito cedo – voltei a não conseguir ver Gabriela, em reprise.

A minha mulher, que suportou mais de seis quilos repartidos por duas pesadas bebés, duas mudanças de cidade, uma delas intercontinental, e mil e uma dúvidas na cabeça foi heróica durante a gravidez. E continuou a sê-lo ao manter em suspenso uma carreira profissional que só agora retomou para ser mãe a 200 por cento. A minha sogra e o marido são inexcedíveis no apoio.

Hoje em dia, no café perto de casa tratam-me pelo nome e trazem-me uma “italiana” sem eu precisar de pedir. E o senhor Zé, um amigo que fiz no quiosque, recusa-se a cobrar-me pelos jornais brasileiros que substituiram, e com vantagem, os jornais portugueses de quem me despedi solenemente no Cockpit.

E há até acontecimentos de repercussão mundial em Ribeirão Preto: fui o único jornalista europeu no enterro de uma das maiores figuras do futebol brasileiro e referência de jovens de todo o mundo, incluindo, de Portugal. Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, criado em Ribeirão, onde se formou em medicina e se distinguiu no futebol, foi enterrado aqui, perto de casa.

“E quando voltas?”, perguntam-me dezenas de vezes. O sr. Leone, o dono do tal restaurante português da cidade, portuense com 35 anos de Brasil, diz que não se conseguiria readaptar à mesquinhez de Portugal. Eu, infelizmente, compreendo-o. Mas prefiro deixar tudo em aberto. Da mesma forma que em 2009 não imaginava que viria morar no interior de São Paulo, se amanhã tiver de viver em Nova Iorque, Xangai ou Lisboa estou preparado. Porque a vida é um carrossel.

Há quem diga que me adapto com facilidade porque não sofro de “saudades”. Talvez. Combato-as, pelo menos, porque perdi os meus pais cedo e quem perde pessoas próximas aprende a não desperdiçar saudades. Mas Lisboa continua na minha memória daqui de onde escrevo, no número 1912, de uma Avenida Portugal, algures no Brasil, dois anos e meio depois daquela pergunta à Lu na Avenida do Brasil, algures em Portugal.

João Almeida Moreira & Margarida Girão

(Carrossel Mag – 17/06/2013)



Categorias:imigrantes

%d blogueiros gostam disto: