VIDA NOVA EM CURITIBA

‘Ninguém pode imaginar o que é deixar uma casa’, diz refugiada síria.

Há pouco mais de um mês, uma família de sírios está vivendo em Curitiba, onde pretende reconstruir a vida após fugir do conflito que assola o país do Oriente Médio. A viúva Kamilia Al Lahham, de 53 anos, chegou ao Brasil no dia 25 de dezembro com os cinco filhos: Mohamed Feras, de 32 anos; Ahmada, de 31; Yousra, de 29; Saad, de 27; e Nourallah, de 17 anos. Desde março de 2011, a República Árabe Síria enfrenta uma guerra civil que já deixou, pelo menos, 130 mil mortos, destruiu a infraestrutura do país e gerou uma crise humanitária regional.

“É muito difícil. Ninguém pode imaginar o que é deixar uma casa. Foram 33 anos construindo essa casa e, depois desse tempo, fechar as portas e ir embora. Eu decidi vir para cá porque o único país em que a família poderia ficar junto era o Brasil”, conta Kamilia. O marido de Kamilia morreu em 2008, de câncer.

Um dos filhos, Ahmada, explica que a família escolheu a capital paranaense como destino no Brasil porque ouviram relatos de que Curitiba era uma cidade segura e tranquila. Na embaixada, eles buscaram as informações sobre a possibilidade de conseguir a condição de refugiados no Brasil. A família recebeu o visto de turista para entrar no país e providenciou a documentação de refugiado para apresentar à Polícia Federal.

Até então, a família estava dividida – metade morando em Damasco, capital da Síria, e outra metade na Argélia, país da África do Norte. Kamilia diz que, com a guerra e a distância entre ela e os filhos, a preocupação era constante. Emocionada, ela lembra dos tempos difíceis causados pelo conflito. “Eu queria ir com meus filhos, que estavam comigo em Damasco, para a Argélia. Mas a situação lá também era muito difícil, e eu não poderia ficar com eles lá. Decidi que minha filha caçula ficaria com eles [os dois mais velhos] na Argélia para estudar porque as escolas em Damasco sofriam ataques de bomba todos os dias. A situação em Damasco era muito terrível. Às 15h, todo mundo já estava em casa, e a gente só ouvia as bombas do lado de fora”.

A jovem Yousra também se lembra das situações perigosas que presenciou no meio da guerra. Ela se considera uma sobrevivente. “Sobrevivi diversas vezes. Enquanto trabalhava, via várias bombas explodindo na minha frente. Eu realmente não sei como eu sobrevivi. Era muito difícil”, afirma.

O filho mais velho, Mohamed Feras, ressalta a importância da união da família. Ele afirma que, depois de ficarem tanto tempo separados por causa da guerra, o desejo da família era ir para um lugar onde pudessem ficar todos juntos. “Procuramos um país que aceitasse refugiados da Síria, e o único país do mundo que aceitava era o Brasil”, afirma Mohamed Feras, que é médico otorrinolaringologista.

Todos os irmãos, com exceção da caçula, que ainda está na escola, são graduados. Ahmada é dentista, Yousra é farmacêutica e Saad é formado em engenharia do petróleo. Agora, o sonho deles é revalidar o diploma no Brasil para trabalharem nas respectivas áreas. “Eu espero achar emprego aqui, que meu diploma seja revalidado. Eu era professor na universidade. Não é fácil deixar o seu país, vir para outro país, atravessar o oceano”, diz Saad.

“A gente queria viver como vivíamos lá. Eu trabalhava em uma grande indústria farmacêutica na Síria”, conta Yousra. Porém, a questão do diploma não foi o primeiro obstáculo encontrado.

“Nós chegamos aqui em uma época em que tudo estava fechado. Depois, tivemos problemas para alugar um lugar para morar porque aqui precisa de fiador. Nós viemos de outro país. Nós não temos fiador e ninguém entende nossa situação”, relata Ahmada.

Eles conseguiram alugar um apartamento da região central de Curitiba diretamente com o proprietário. Entretanto, eles estão buscando um lugar maior, pois o apartamento com dois quartos é pequeno para os seis integrantes da família. “Todos os dias procuramos por um novo apartamento, mas a situação é sempre a mesma: pedem fiador, conta bancária. Ninguém consegue imaginar nossa situação, que nós fugimos da guerra”, diz Mohamed Feras.

Outro problema enfrentado pela família síria é o idioma. Eles não falam português e ainda não encontram um curso de língua portuguesa, para a mãe e os cinco irmãos, que esteja dentro do orçamento familiar. “É tudo muito caro”, constata Ahmada. O dentista também observa a falta de oportunidades para refugiados. “A gente pode trabalhar com outras coisas [fora das respectivas áreas profissionais], como no comércio, em restaurante. Nós achamos que teria um tratamento diferente para refugiados, mas nós não encontramos nada”, completa.

Apesar dos contratempos que a família tem encontrado, todos acreditam em uma vida melhor no Brasil. Inclusive, eles agradecem ao governo brasileiro por abrir as portas do país para refugiados sírios.

“Nós temos muito obstáculos aqui. Todos os dias surgem novos problemas. Não achamos que teríamos tanta dificuldade para validar nossos diplomas. Nós viemos para cá para passar o resto de nossas vidas. Queremos trabalhar. Quando resolvermos esse problema, tenho certeza de que tudo vai ser bom aqui”, diz Mohamed Feras.

Neste pouco tempo que estão vivendo na capital paranaense, Mohamed Feras conta que já fizeram muitos amigos e que se sentem ótimos. “A união da nossa família era o que a gente queria. Estamos felizes também porque aqui não tem guerra, não tem bombas. É melhor do que a vida que estávamos vivendo, mas nós esperamos que outras coisas aconteçam”, deseja o médico.

Condição de refugiado

De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, a pasta concede vistos para refugiados nas embaixadas dos países vizinhos da Síria. Os vistos são concedidos em caráter humanitário a cidadãos sírios que manifestem a intenção de solicitar refúgio no Brasil. Em setembro de 2013, o Comitê Nacional de Refugiados (Conare), do Ministério da Justiça, publicou uma diretriz permitindo que os sírios, que desejem vir ao Brasil, como refugiados, não enfrentem as solicitações que qualquer outro estrangeiro, em situação normal, passaria para entrar no país.

O Brasil adota a política de reciprocidade para a obtenção do visto – os estrangeiros que pretendem visitar o Brasil são submetidos às mesmas restrições a que os brasileiros são submetidos em visita ao país de origem do visitante.
O Ministério da Justiça informou que não fornece ajuda financeira direta aos refugiados. Contudo, há o repasse de recursos, mediantes convênios, para instituições da sociedade civil que têm programas de acolhida, atenção e integração dos refugiados e solicitantes de refúgio em território nacional.

Atualmente, o Comitê Nacional de Refugiados tem convênio com as Cáritas Arquidiocesanas do Rio de Janeiro e de São Paulo e com o Instituto de Migrações e Direitos Humanos de Brasília. Os valores e assistências prestadas são acertados por meio de critérios estabelecidos por cada instituição depois de uma entrevista e da definição do perfil do refugiado e das necessidades imediatas, conforme o Ministério da Justiça.

Conforme o Ministério da Justiça, desde o início da guerra civil na Síria, 300 sírios reconhecidos vieram ao Brasil. Quatorze cidadãos sírios chegaram ao Brasil no ano de 2011; em 2012, foram 141; e, em 2013, 145.

Thais Kaniak

(G1 – 03/02/2014)



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