BENGALIS SE ESPECIALIZAM EM ABATE ‘HALAL’

Fugindo da perseguição política, os asiáticos tentam refazer a vida aqui.

A reportagem começa com um singelo desafio ao amigo internauta: De qual país do mundo vem o maior número de imigrantes com pedidos de refúgio político ao Brasil?

A) Cuba – B) Colômbia – C) Haiti – D) Senegal – E) Nenhum dos países anteriores

Ponto para quem cravou a letra… E. Isso mesmo: última opção.

O Conare (Comitê Nacional para os Refugiados) acaba de divulgar informação no mínimo intrigante: 1.830 bengalis pediram refúgio político ao Brasil entre janeiro e novembro de 2013. É mais do que o dobro dos 799 nascidos no país africano Senegal, o segundo da lista.

Bengali, ou bengalês, é o cidadão nascido em Bangladesh. Um país pobre, muito populoso (cerca de 156 milhões de habitantes), localizado no sul da Ásia, separado do Brasil por longos 16 mil km e com metade da população acima de 15 anos analfabeta.

O salto impressiona. Em 2011, foram apenas 74. No ano seguinte, foram para 280 e, no passado, ainda sem contar dezembro, promoveram essa pequena invasão com 1.830 pedidos. Outro dado curioso: eles são os sétimos colocados na lista de estrangeiros empregados legalmente no Brasil em 2013. Especialistas e imigrantes bengalis estimam que entre 6.000 e 7.000 deles poderão estar por aqui legal ou ilegalmente.

Mas, afinal de contas, o que faz tanta gente de um país tão distante e diferente atravessar dois continentes e dois oceanos para viver por aqui nesses últimos anos? A busca da resposta a essa pergunta fez a reportagem do R7 localizar e conversar com alguns deles no Brasil. A perseguição política numa ponta e a tradição brasileira de boa receptividade na outra formam grande parte da explicação. Mas não é só.

Colônia

Marechal Cândido Rondon é uma agradável cidade de cerca de 48 mil habitantes no extremo oeste do Estado do Paraná, na divisa com o Paraguai, às margens do Lago de Itaipu. Uma das  potências do lugar é a Cooperativa Agroindustrial Copagril, poderosa produtora de aves e ração para o mercado interno e a exportação.

Os países de grande população ou maioria muçulmana são hoje grandes clientes da Copagril. Mas só compram e consomem as aves se elas forem abatidas no procedimento halal’ — método de preparação da carne de acordo com os preceitos islâmicos. Por isso, a Cândido Rondon tem uma das maiores colônias bengalis do País, com cerca de 150 pessoas, a maioria empregada nos setores de abate da cooperativa.

O bengali Alamgir Dewan Akash, 27 anos, faz parte do grupo. Veio para o Brasil em dezembro de 2012. Antes, morou por dois meses em Dubai e tentou, sem sucesso, entrar na Bolívia. Até que conseguiu um contato em Brasília que deu informações sobre Marechal Rondon e a Copagril.

Dewan Akash trabalhava no abate até bem pouco tempo, mas foi orientado por um médico a deixar o trabalho por causa de um problema em um dos braços, como conta ao R7.

— Ele disse que a atividade ficou pesada e imprópria para mim. Busco outro emprego, mas continuo vivendo na mesma casa, apoiando os antigos e recebendo novos amigos de meu país.

Ele recebia R$ 1.003 mensais brutos. Ao contrário de parte de seus compatriotas, não veio fundamentalmente por causa de salários como esse — e nem provavelmente pelos próximos, ainda que eles venham a ser razoavelmente maiores.

Exceção entre os amigos, Akash Dewan, filho de família financeiramente estável, veio para o Brasil para se livrar da perseguição política. Bangladesh era controlado politicamente pela Liga Awami e ele militava no principal partido de oposição, o Jamate-e-Islam, de orientação muçulmana. Outro grupo político forte rival do regime é o Partido Nacionalista de Bangladesh. Os conflitos entre essas três forças têm provocado instabilidade e mortes no país.

— Sou grato ao Brasil, mas ganhava muito mais por lá. Estudei comércio em um centro universitário. Trabalhei como ator e diretor de novelas, coisas das quais sinto muita falta. Conheço vários países. Falo chinês, indiano e outros idiomas, além do português, que já começo a arranhar, e do inglês, apesar de vocês acharem que essa língua não é isso que eu estou pronunciando agora (ele brinca carinhosamente com o repórter, com quem conversou num misto de inglês, português, espanhol e o que ele tentava escrever nestas três línguas).

E completa:

— Minha família controla duas empresas: uma confecção e uma agência de venda de pacotes turísticos. Tenho uma mulher, Asma Khamum, de 24 anos, uma filha, Huma, de seis, e um filho, Niloy, de cinco. Todos estão lá, muito longe de mim. Precisei me afastar para ter um pouco de paz e até mesmo preservar minha vida. Não sei se quero voltar. Se o Brasil me aceitar definitivamente, acho que irei apenas para pegar a família. A política por lá é muito problemática, mas, para as organizações internacionais, eles sempre dizem que está tudo muito bem.

Apesar do fuso horário de oito horas à frente no verão e nove no restante do ano, Akash Dewan fala diariamente com familiares por meio da internet. É sua forma de matar a saudade, aliviar as angústias e, ao mesmo tempo, se certificar de que a integridade física de todos eles está preservada.

No início de novembro de 2013, ele procurou a repórter Carina Waker Ribeiro, do jornal O Presente, de Marechal Cândido Rondon, para denunciar que a casa em que viviam a mãe, Rahima, a mulher e os filhos tinha sido incendiada pelos rivais políticos em Bangladesh.

O mesmo grupo, segundo relata, tentou colocar fogo também na confecção da família, que escapou sem ferimentos e foi para a casa de amigos. Mas Dewan fica apavorado só de pensar no que pode acontecer com eles se os adversários insistirem na perseguição.

— Por tudo isso, peço ajuda ao governo brasileiro e às organizações de direitos humanos para trazê-los para cá.

Ele mora com outros 27 bengalis em uma casa no número 218 da avenida Rio Grande do Sul, uma das mais importantes do centro de Marechal Cândido Rondon. Neste endereço, eles realizam, de manhã e à noite, algumas das cinco orações diárias feitas pelos muçulmanos. As outras são feitas na cooperativa. Há outras três ou quatro “repúblicas” do tipo na cidade e uma parte dos bengalis vive em um hotel.

Diferenças culturais

Akram Hossain Abed, de 23 anos, é um dos integrantes de uma das maiores colônias bengalis do País, que fica na cidade de Marechal Cândido Rondon, no extremo oeste do Estado do Paraná. Ele foi recebido pelo amigo Alamgir Dewan Akash, que chegara ao Brasil meses antes, em dezembro de 2012.

Nascido na capital de seu país, Daca, Abed é funcionário da Cooperativa Agroindustrial Copagril, produtora de aves e ração. Assim como o amigo Akash, ele reclama da falta de mesquita na cidade para exercer sua crença. E estranha dados corriqueiros da cultura brasileira e ocidental, como namorar uma mulher, terminar com ela e se relacionar com outras até se casar com alguém. Ou então a mulher se casar pela segunda vez após se separar ou ficar viúva.

— Lá no meu país, normalmente, se você namora uma mulher, deve se casar com ela. E se morrer, ela praticamente nunca se une a outro.

E justifica o costume com um primor de pureza ligada às suas convicções, reforçada em seu lirismo pela dificuldade no trato com o português.

— É porque mulher já deu muito amor para primeiro marido, primeiro companheiro, me entende? Então não tem mais amor para outro.

Questionado se a união de um homem com mais de uma mulher é bem vista em Bangladesh, manda nova pérola de objetividade.

— Se primeira mulher deixar, pode. Se não deixar, não pode.

As dificuldades financeiras e estruturais estão evidentemente presentes e misturadas às carências associadas à chegada de bengalis.

Mas, quando quase 2.000 nascidos naquele país tentam provar aos brasileiros sua condição de perseguido em apenas 11 meses, é sinal claro de que o problema deles, ao contrário do da maioria dos imigrantes sul-americanos ou mesmo haitianos, é bem maior do que meramente arrumar uma solução econômica para viabilizar as necessidades básicas da vida.

Do final de 2013 até janeiro de 2014, quando houve uma das mais violentas eleições da história de Bangladesh, mais de cem pessoas foram assassinadas por disputas políticas.

Por aqui, a maior parte dos bengalis vítimas dessa disputa está com processo aberto no Conare (Comitê Nacional para Refugiados).

Que sejam analisados com rapidez e justiça.

Eduardo Marini

(R7 – 09/2/2014)



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