HAITIANO PASSA DE DE GARI A GERENTE

Imigrantes sempre deram lições de garra e vontade de vencer. Mais um caso que merece ser lembrado.

Poucos imigrantes haitianos no Brasil dominam a língua portuguesa com tanta fluência como Gildrin Dênis, de 26 anos. Um autodidata que, no país de origem, sequer concluiu a 8ª série.   “Esse rapaz é de suma importância para nós. É um orgulho para nosso grupo”, ressalta Jânio Almeida, gerente de Operações da Marquise, concessionária responsável pela coleta de lixo em Porto Velho, referindo-se ao ex-gari que ascendeu ao cargo de assistente de gerência e conquistou a confiança dos superiores.

Natural de Ouanen-menthe, vilarejo distante 66 quilômetros da capital Porto Príncipe, Dênis domina todas as técnicas do monitoramento, via GPS, das patrulhas que recolhem lixo doméstico e entulhos de Norte a Sul da capital. Ele é do grupo contratado em 2011 e controla a atribulada missão dos 75 imigrantes com carteira assinada – mais de 90% do total de empregados da Marquise. Emocionado, confessa: “aqui sou um homem solitário e quero voltar pra minha casa. Tudo que aprendi aqui em dois anos levaria 16 anos para  aprender no Haiti. Com esse aprendizado, eu acredito estar credenciado a entrar (trabalhar) na embaixada brasileira no meu país”.

Vistoso e extremamente vaidoso, Gildrin é o único trabalhador capaz de exercer a comunicação desde o escritório central da empresa até com os coletores de lixo que fazem o trabalho de campo. E mais: somente ele está apto a acompanhar os colegas que passam mal e precisam de atendimento nos hospitais e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), uma vez que, por consenso, os médicos haviam decidido que, sem intérprete, seria arriscado prescrever medicações a pacientes estrangeiros cujo dialeto é estranho aos costumes regionais.

Mas deixar o Brasil para alcançar objetivos depende da gratidão e reconhecimentos ainda maiores: uma carta de recomendação, um documento que ateste sua eficiência e aptidões.

“Busquei materiais (livros) e me misturei a brasileiros que, aos poucos, fui conhecendo.  O racismo é uma constante na nossa vida, nas ruas principalmente. Dói, mas meu objetivo era aprender a língua de vocês rapidamente. Não tive ajuda de ninguém. Com sorte, e acreditando sempre na minha intuição, em poucos meses consegui meu objetivo. Meu Deus, obrigado!”, comemora ao dizer que o salário que antes recebia teve reajuste considerável e com que com esse dinheiro ajuda a família a paga aluguel, além de manter os companheiros de quarto, pois estão desempregados.

A declaração anunciava emoção. Com os olhos marejados, ao ser questionado sobre a família – mulher e o filho de 4 anos – afirmou. “Foi a decisão mais dura e difícil da minha vida. Largar minha esposa, meu filho, por medo de que eles não sobrevivessem nessa ´estrada espinhosa’. Que eu fracassasse sozinho”, declara com voz embargada o respeitado imigrante ao ser interrompido, no rádio, por um grupo que falava francês e, a ele, somente com ele, poderia se dirigir para tirar dúvidas sobre a rota a ser cumprida. “Estão perdidos”, brincou.  “São carismáticos e não se importam com xingamentos. É legal saber que, se depender deles, jamais haverá ocorrência policial”, testemunha o motorista de caminhão Rubenilson Almeida.

A coleta noturna do lixo tem, na maioria, haitianos novatos. É uma política da empresa, que se vale, mais uma vez, dos conhecimentos do seu ‘pupilo’ imigrante: Gildrin, que cumpre horário das 18h às 2h, acompanha a movimentação dos grupos na rua por um telão e é chamado a instruir os colegas. Quem não fala francês deve ficar longe do rádio. O G1 acompanhou o trabalho de uma equipe noturna e conheceu Emanoel François, que mora há 1 ano em Porto Velho e ainda consternado com a morte do pai, durante o terremoto que matou 316 mil pessoas em janeiro de 2010, afirma: “não teve chance. Um portão caiu sobre ele”, lembra o gari que diz ter esperança em conquistar melhores salários e voltar ao convívio da mulher.

Osmar Gean, um dos mais novos coletores de lixo da Marquise, perdeu o filho de 4 anos. O garoto foi soterrado, enquanto o resto da família se agachava e buscava abrigo na pequena cidade de San Marco, distante 60 quilômetros de Porto Príncipe.  “Se você tem honra, você tem Deus”, afirma.

Para Reginaldo Pompelus, que não teve familiares vitimados pelo desastre, a memória o faz relembrar imagens traumatizantes, que segundo ele, não esquecerá jamais: “Vi o Palácio Nacional virar pó. Vi crianças sem vida, idosos implorando ajuda, gritos que escuto até hoje. Sou brasileiro por gratidão. Mas voltar a minha pátria é o meu objetivo maior”, concluiu.

“Aprendi a conhecer Porto Velho de Norte a Sul. Sei de cor todas as ruas e becos, orgulha-se Dênis, que emociona-se mais uma vez ao comentar a notícia de que a fronteira do Acre com o Peru, por onde ele chegou ao Brasil, está prestes a ser fechada. “Na minha época, aquele galpão na cidade de Brasiléia (AC) tinha 150 haitianos. Vi no jornal que hoje são mais de 1.200. Acho que as pessoas (autoridades)  poderiam pensar mais em tudo que nossos irmãos estão passando. Sou feliz e não sou ao mesmo tempo”.

Assem Neto

(G1 – 10/02/2014)



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