PRECONCEITO E GLOBALIZAÇÃO

Recife, tão saudosista de suas imaginárias raízes holandesas, não suporte o outro quando é chinês.

De cada dez sombrinhas de frevo vendidas neste carnaval do Recife, oito viajaram 50 dias do porto de Guangdong, na província chinesa de Cantão, até Suape.

Grande parte delas é vendida em lojinhas do bairro de São José, um dos primeiros núcleos urbanos do país que ainda conservam o traçado holandês do início do século 17.

Muitos dos trabalhadores desse comércio moram a três quadras dali, nas torres de 42 andares voltadas para o que o folclore local denomina de nascente do oceano Atlântico, formado a partir da junção dos rios Capiberibe e Beberibe.

No Recife, chineses formam uma bolha dentro de outra

São apartamentos de 247 metros quadrados onde moram as famílias de dois ex-governadores do Estado, deputados federais, desembargadores e empresários. Imobiliárias locais chegam a pedir R$ 2,5 milhões por um apartamento naquelas torres.

Esses prédios, chamados de ‘torres gêmeas’, foram erguidos sob protestos de urbanistas e do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) por ocuparem área preservada do cais do porto sem qualquer traço de ocupação residencial.

Pela tocaia que o repórter André Duarte, do ‘Diário de Pernambuco’ fez nas torres, descobriu-se o mal estar provocado pelo convívio de parte da elite local com a terceira leva migratória de chineses na cidade, protagonistas do ‘boom’ de consumo popular que marcou a região nos últimos anos.

A primeira é da década de 1950, iniciada por famílias de engenheiros chineses trazidos por Agamenon Magalhães para obras de reformulação urbana da capital. A segunda, da década de 1970, deriva da diáspora de famílias chinesas instaladas em Ciudad del Este e em São Paulo.

A terceira iniciou-se na década de 1990, impulsionada pelas reformas liberalizantes na China e pela conclusão do Porto de Suape. Além de porta de entrada dos investimentos industriais que mudaram o perfil econômico do Estado nos últimos anos, Suape passou a ser a principal via de acesso de mercadorias da China ao mercado consumidor do Nordeste.

Ao contrário das outras duas levas, onde predominavam famílias de Taiwan, com costumes mais ocidentalizados, e que montaram restaurantes, lavanderias e clínicas de acupuntura, os novos chineses de Pernambuco têm origem rural. Muitos deles integram redes de trabalho temporário que se deslocam por Chinatowns do mundo inteiro.

O antropólogo da Universidade Federal de Pernambuco, Marcos de Araújo, autor de uma dissertação de mestrado sobre o tema, vê como característica dessa terceira leva migratória o ‘guanxi’, compromisso de quem deve favores na cultura chinesa. Muitos de seus entrevistados, submetidos a regime de semiescravidão, foram trazidos por parentes endividados.

O antropólogo pernambucano entrevistou 66 chineses de uma comunidade de 658 na contagem oficial mas, de fato, estimada em três mil. À época de sua dissertação (2008), tocavam 52 estabelecimentos no Recife e 15 em Caruaru. Além de vendedores, atuam no abastecimento das lojas, feito de madrugada em carrinhos de mão, a partir de depósitos próximos, para driblar a fiscalização.

Os relatos colhidos sugerem que o comércio prospera graças a um esquema de sonegação que começa em Suape e é acobertado pela polícia local. Das desavenças desse esquema já resultou uma batida policial num dos apartamentos das torres e um assassinato, no centro do Recife, de um comerciante chinês que tentou furar a máfia local de sombrinhas baixando o preço de R$ 5 para R$ 3.

Um dos chineses que entrevistou, trazido por tia endividada, morava num dos seis apartamentos das torres gêmeas ocupados pela comunidade. Dois casais ficavam em duas das suítes e as outras duas eram divididas por ele e mais quinze, empilhados em beliches.

A convivência dessas repúblicas de trabalhadores semiescravizados com famílias locais abastadas tem gerado um conflito surdo. Tem nuances e cheiros distintos daqueles captados pelo cineasta Kleber Mendonça que, em seu ‘Som ao Redor’, mostra a transposição para um bairro de classe média recifense das relações de poder estabelecidas na vizinhança por um decadente senhor de engenho.

Com variado grau de tolerância, os moradores das torres ouvidos pelo repórter André Duarte, revelam o incômodo da convivência com esses migrantes responsáveis pela face menos glamourosa da globalização da economia local.

Sinais do incômodo estariam espalhados desde a pista de cooper, onde se veem restos dos peixes fisgados a partir dali, em pier improvisado, até a piscina, onde alguns tomam banho de roupa. A fritura dos peixes espalha seu cheiro por outros apartamentos às 5 da manhã, hora em que tomam café para abrirem as lojas às 7h. Divergentes hábitos de higiene também fariam com que os moradores do prédio passassem a evitar o elevador quando percebem a presença dos chineses.

Os chineses do Recife são uma fatia minúscula em comparação com aqueles que vivem em São Paulo. O Estado abriga 80% de uma comunidade hoje calculada em 200 mil no país, mais permeada pelo novo perfil do investimento chinês no país.

A paulatina liderança da China no investimento estrangeiro no Brasil somou entre 2007 e 2012 R$ 24,4 bilhões, segundo os cálculos do Conselho Empresarial Brasil-China. No ano passado a esses investimentos somou-se a presença chinesa no leilão do campo de Libra, do pré-sal. Mas a quase totalidade desses investimentos está concentrada no Centro-Sul.

No Recife, a entrada de imigrantes se dá pelas franjas daquela que é a maior parceria comercial do Brasil. Ao escolherem as torres gêmeas para instalar sua mão de obra mutante, os chineses do Recife formaram uma bolha dentro de outra. Como não há farmácias, padarias ou escolas por perto, todo o deslocamento dos brasileiros é feito de carro. Os únicos moradores que saem a pé ali são os chineses, que custam a atravessar a larga avenida sem faixa de pedestre, para trabalhar.

Maria Cristina Fernandes

(Eustopia – 02/03/2014)



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