A MUSA RUSSA DA FEIRA DA MOOCA

Russa se muda para SP por amor e faz sucesso em feira livre na Mooca.

“Mulher bonita não paga, mas também não leva!” “Mamão, olha o mamão, mamão pra comer com pão, é barato porque dá no mato!”

Você nunca vai ouvir Tatiana Ivanova, 22, gritando bordões de feirantes, por mais que ela seja uma. E há dois motivos para isso.

Primeiro: Tatiana é russa, e foi criada na Espanha desde os 12 anos. Está em São Paulo há sete meses e não domina a língua a ponto de entender os trocadilhos da feira.

Segundo: mulher bonita é ela mesma, com olhos esverdeados, cabelos castanhos claros e sorriso constante.

O que levou a moça de Ulianovsk, cidade localizada a mil quilômetros de Moscou, a vender frutas e pastel em feiras da Mooca e do Brás?

O amor. Aos 17 anos, Tatiana começou a cursar administração em Madri. Pouco antes do início das aulas, conheceu o brasileiro Jonathan de Souza Soares dos Santos, 24. “Em três meses já estávamos namorando de aliança”, recorda.

Passados quase cinco anos, Jonathan perdeu o emprego e voltou ao Brasil. “Queríamos ter casado em Madri, mas éramos imigrantes e não foi possível.” Assim que Tatiana se formou, correu para cá atrás do noivo.

Desde agosto de 2013, mora na casa do sogro, na zona leste. Por ainda não possuir o RNE (Registro Nacional de Estrangeiro) —o processo para a retirada do documento leva, no mínimo, um ano—, ajuda o pai do marido, dono de uma barraca.

Aos fins de semana, Tatiana vende frutas; às quartas e sextas, serve pastéis. “Em São Paulo, as pessoas são muito carinhosas, felizes. Meu marido diz que eu não conheço os perigos da cidade, e eu acho bom, assim não sinto medo.”

A cerimônia de casamento foi no mês passado, no Museu do Ipiranga. “Sou a única entre as minhas amigas que não é mãe. Mas precisamos de estabilidade. Não é suficiente trabalhar na feira, e eu quero fazer uma pós-graduação em finanças e trabalhar como bancária”, afirma.

Perguntada se trabalharia como modelo, ela diz que “não se vê linda para posar”, embora seja seu sonho de criança. Não é o que ouviria se passasse como cliente por uma feira.

Gabriela Simionato

(Folha de SP – 23/03/2014)



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