A VOZ DIFUSA DA XENOFOBIA

A precariedade dos serviços básicos no Acre está incitando alguns moradores a manifestar seu racismo e xenofobia. As autoridades locais deveriam levar a sério o descontentamento da população, não para tomar decisões desumanas contra os imigrantes e refugiados, mas para melhorar as condições de vida de todos: oferecer abrigos dignos e ampliar os serviços públicos em geral. Lembremos que a imigração nunca é a causa; é o revelador da ineficácia do Estado e da inoperância dos princípios democráticos nos meios sociais mais vulneráveis.

A situação dos imigrantes e refugiados no Acre é grave. As condições de seu acolhimento e encaminhamento não são dignas de um país que se diz guiado pelos ideais de democracia e direitos humanos. Há de admitir, ainda, que a presença dessa população estrangeira traz à tona a precariedade dos serviços sociais básicos oferecidos aos habitantes da região. A consequência, bastante esperada, é o uso desse cenário não para demonstrar solidariedade ao próximo, mas sim para liberar a fala racista e xenófoba de certos segmentos locais.

AC 24 horas, por exemplo, acaba de publicar uma tribuna abertamente racista, xenófoba e preconceituosa sobre aqueles que o autor chama de ‘invasores’. Ainda que denuncia a situação sanitária e de higiene, verdadeiramente deplorável, o artigo de opinião reduz o problema maliciosamente a estes únicos aspectos: “A podridão, a promiscuidade, a ausência das mínimas condições de habitabilidade do “abrigo” onde estão colocados haitianos, dominicanos, nigerianos, agora senegaleses que estavam em Epitaciolândia fere todos os princípios de higiene, moradia, saúde e dignidade para seres humanos“.

Por outro lado, não esconde sua desconsideração à dignidade humana e os princípios de Direitos Humanos, falando em “‘abrigo’ de senegaleses e outras nacionalidades sob o vergonhoso e fétido selo de “acolhimento humanitário” inventado politicamente por uns imbecis de gabinete“.

Enfim, a coluna ameaça e incentiva abertamente a prática de crime contra os imigrantes e refugiados que se encontram na região, alegando e alardeando que “Os brasileenses estão para agir, estão preparando (…) atitudes radicais contra os ‘invasores’“.

Abaixo-assinado de raiva

Paralelamente, a CBN Foz informou que Um morador de Brasiléia resolveu iniciar um abaixo-assinado para cobrar do Estado uma solução para a constante entrada de imigrantes no município acreano. A iniciativa partiu, segundo o autor, após verificar que a presença dos imigrantes estava interferindo no andamento de alguns serviços da cidade.

“Há algum tempo já fiz um manifesto e depois resolvi que seria uma iniciativa minha e a população acatou. A questão é que nos deparamos com bancos, Correios, sempre lotados. Sem contar que temos um parque no Centro que a população não consegue mais caminhar” destaca ele.

“Vamos encaminhar o abaixo-assinado para o MP e pretendemos entregar ao governador na próxima visita dele ao município.  Queremos soluções, não queremos que expulsem os imigrantes de uma vez, mas Brasiléia vem pagando um ônus que é do Brasil inteiro. Esta responsabilidade tem que ser dividida por todos, mas há quatro anos Brasiléia paga essa conta”, ressalta.

Questionado se a ação não poderia ser interpretada como preconceito, ele nega e diz que a cidade vive em um momento que ele define como complicado. “Meu pai é de origem africana, de forma alguma é preconceito. Mas temos relatos de assédios constantes, alunos que se sentem intimidados ao passar pelo grupo de imigrantes. Estamos com uma bomba-relógio que a qualquer momento vai explodir”, diz.

O coordenador do abrigo e representante da Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh) Damião Borges disse que atualmente a cidade está com 2,3 mil imigrantes, destes 1,8 mil estão no abrigo público. O acúmulo, segundo Borges, é devido à cheia do Rio Madeira, em Rondônia, que impede a saída via terrestre desses imigrantes.

“Chegamos a 2,5 mil imigrantes neste período, mas aos poucos estamos tentando tirá-los do estado. O governo fretou avião e cerca de 120 imigrantes estão sendo encaminhados para outros estados através desses voos”, explica.

Sobre a ação do estudante, o coordenador disse que respeita a opinião, mas acha desnecessária e desumana. “Eu respeito, pois cada um tem sua maneira de pensar. Porém você tem que pensar primeiro no ser humano, ninguém sai da sua casa se nela está tudo bem. Mas nem Deus agrada a todos  e vez ou outra a gente se depara com alguma piadinha como essa daí. Na minha opinião pessoal, esse cidadão não tem credibilidade alguma para estar fazendo isso”, destaca.

(08/04/2014)



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