DIFICULDADES DE ADAPTAÇÃO? SÓ O CALOR!

A imigração judaica para o Brasil constitui um caso de sucesso tanto em termos de integração como de ascensão social. A prova de que os humildes de hoje podem ser os vitoriosos de amanhã.

Era uma tarde de domingo quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, a neta de Rachel Abezguaz e Zalka Abezguaz confirmava a entrevista com seus avós. Como combinado, fui ao apartamento do casal – juntos há 63 anos. Logo na entrada do apartamento, era possível ver os traços judaicos. No umbral direito da porta, havia uma mezuzá – um pequeno estojo que guarda um pergaminho, onde está gravada uma oração para proteger todo lar ou estabelecimento pertencente a judeus. Dentro da casa não era diferente: quadros, objetos sagrados, como a menorá (um candelabro de sete braços) e muitas fotos não deixavam dúvida quanto à origem do casal.

Rachel estava sentada no sofá da sala principal, comendo seus chocolates da tarde enquanto seu marido fazia a sua sesta habitual no quarto. Com um sorriso no rosto, ela indagava sobre o quê exatamente seria a entrevista e quais eram os objetivos. Enquanto seu marido não despertava, ela começou a contar a história de sua família, detalhando as atividades de cada um dos filhos e mostrando, com largo sorriso, o calendário feito por sua neta repleto de fotos dos seus “lindos” bisnetos.

Rachel nasceu na Polônia, em 1929, e veio para o Brasil ainda bebê, mas, devido a sua pouca idade e à urgência em sair da Polônia, não chegou a ser registrada lá; o registro foi feito em terras brasileiras. Por isso, em sua certidão consta a nacionalidade brasileira e não polonesa. Veio com seus pais e irmãos e, assim que chegaram, encontraram como lugar de moradia o centro da cidade do Rio de Janeiro.

Antes deste período, um intenso fluxo de migração judaica para o Brasil já tinha se iniciado. Ao final do século XIX, a população judaica residente no país já era de, aproximadamente 3 mil pessoas. Alguns eram marroquinos, que migraram para Amazônia com o intuito de participar da emergente economia da borracha. Outros, eram homens solteiros provenientes da Bessarábia rural, que vinham com o objetivo de ganhar dinheiro e regressar para casa. Os judeus da Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha e Alsácia-Lorena faziam parte de uma classe média de comerciantes, trabalhadores especializados e profissionais que dominavam o comércio e a manufatura do Rio de Janeiro.

Por causa desse grande número de judeus que deixavam a Europa após 1900, um filantropo judeu de origem alemã, Barão Maurice de Hirsch de Gereuth, fundou a Jewish Colonization Association ou a ICA (em ídiche, Yidishe Kolonizatsye Gezelshaft), com o propósito de auxiliar as comunidades pobres da Europa Oriental e dos Balcãs através do estabelecimento de colônias agrícolas judaicas na América. Entre 1904 e 1924, a ICA fundou duas colônias agrícolas judaicas na fronteira do Rio Grande do Sul.

Anos depois, em 1938, ocorreu uma nova eleição presidencial para o Brasil, que influenciou toda a história da imigração no geral e da imigração judaica, em particular. O então Presidente Getúlio Vargas, alegando a existência de um complô comunista, o Plano Cohen, deu um golpe de Estado em 10 de novembro de 1937, contando com o apoio massivo da classe média, que partilhavam o medo dos comunistas e dos militares. Após o golpe, Vargas fechou o Congresso Nacional e implantou uma nova Constituição, denominada de Polaca, devido às influências da Constituição da Polônia, com tendências fascistas e antidemocráticas.

Em meio a essa atmosfera, os políticos modificaram os seus discursos sobre a imigração e os imigrantes. O nacionalismo levou a políticas de cunho federal de abrasileiramento do país. Consequentemente, desenvolveu-se um movimento xenófobo no Brasil.

Terceira Classe

 O processo de modernização da cidade do Rio de Janeiro, nesta época, objetivava criar uma rodovia que melhorasse o acesso do centro da cidade à Zona Norte. No projeto, a rua Senador Euzébio e Visconde de Itaúna seriam demolidas para dar lugar a atual avenida Presidente Vargas. Em 1941, começaram as demolições, e milhares de famílias, a maioria de origem judaica, foram desalojadas. Entre elas, a família de Rachel.

Assim, o advento do Estado Novo deixou os judeus do Brasil em uma situação bastante precária. A discussão a respeito de políticas antijudaicas mais abrangentes era promovida por Francisco Campos, o novo ministro da Justiça, fundador da Legião Liberal Mineira – de aspirações fascistas – e defensor de uma política autoritária para remodelar o Brasil.

Neste momento, Rachel foi, então, morar em São Cristóvão, um bairro nem um pouco parecido com o de sua residência anterior. Se no Centro havia uma população judaica de número elevado, forte e coesa, em São Cristóvão o número era bastante reduzido, a comunidade era praticamente ausente. Além disso, no Centro, a família de Rachel tinha uma forte afirmação de sua identidade religiosa, enquanto em São Cristóvão, eles acabaram se distanciando das tradições judaicas e tiveram que se adaptar aos costumes locais.

É por isso que ela categoriza a sua família como não-religiosa. Mesmo assim, pensando em manter a união com a comunidade, a família de Rachel passou a reunir-se quinzenalmente com as outras quatro famílias judaicas de origem polonesa do bairro.

A identidade judaica-brasileira era muito difícil de ser pensada devido à falta de contato entre os diversos grupos de imigrantes que optaram pelo Brasil. No entanto, organizações como a Alliance Israélite Universelle procuravam auxiliá-los na inserção comunitária e no desenvolvimento de laços mais firmes entre os grupos instalados aqui.

Após 45 dias do golpe de Estado, o governo provisório estabeleceu uma legislação antimigratória, na qual os passageiros que viajassem na terceira classe seriam impedidos de entrar no país, independente dos seus reais motivos de viagem. A entrada era apenas concedida nos casos de residentes que estivessem retornando ao país: lavradores com os devidos documentos regulamentados (permissão especial e apoio de família já residente), ou família de imigrantes lavradores trazidas por empresas ou associações autorizadas, como a ICA.

Nesta nova legislação, a classe da passagem era uma medida definidora de status de uma pessoa como turista ou imigrante. Esta relação sugere uma associação entre imigração e pobreza. A relação com o dinheiro foi bastante intensa nesta legislação imigratória, permeando diversos outros pontos e criando entraves para outros grupos estrangeiros.

Uma inovação da legislação de 1930 foi a criação das Cartas de Chamadas. As Chamadas, como eram conhecidas na época, eram formulários oficiais que permitiam aos residentes do Brasil chamar seus parentes, fornecendo-lhes declarações juramentadas de apoio e ajuda. Este sistema serviu para aumentar as barreiras e dificultar a entrada de imigrantes no país, pois este era um processo extremamente burocrático e demorado.

Foi por meio das Chamadas que Zalka, marido de Rachel, veio para o Brasil com sua família. Ele veio de navio, em 1934, em uma viagem de “13 dias e 13 noites”, como ele mesmo diz. A escolha de se mudar foi uma decisão de seu pai, que já vivia aqui por motivos de trabalho. Na época, o Brasil era visto pelos imigrantes como um bom lugar para viver, devido às possibilidades de emprego.

Antes de vir para o Brasil, Zalka não teve contato algum com o país nem com a cultura nacional. Ele explicou que morava na Polônia em um lugar bem pequeno, “dentro da roça”, lembra ele. Quando ele e sua família chegaram ao Brasil, seu pai já os esperava. Eles desembarcaram no centro da cidade e escolheram o lugar como moradia.

Embora houvesse inúmeras barreiras e dificuldades para desembarcar em solo brasileiro, a entrada de judeus cresceu bastante após 1932. Este acontecimento é explicado pelo fato de que a comunidade judaica não se desencorajou frente às novas restrições. Eles procuraram meios mais eficientes para atuar dentro do sistema. As agências judaicas de ajuda redobraram seus esforços para ensinar os residentes a chamar os seus parentes para o Brasil.

A ICA auxiliava cada vez mais os imigrantes a superar as diversas burocracias impostas pelo governo. Além disso, os líderes judeus estavam conseguindo reverter as atitudes contrárias aos imigrantes entre os políticos influentes. Meses após o golpe de estado, Isaiah Raffalovich, da ICA, convenceu o ministro do trabalho, Lindolfo Collor, a reconhecer a Jewish Colonization Association como uma empresa de imigração credenciada.

Boa vizinhança

A partir de 1938, os estereótipos acerca dos judeus começaram a ser percebidos cada vez mais como indicadores de auxílio para o desenvolvimento do Brasil, à medida que alguns judeus iam se destacando no cenário financeiro ou político, o que reverteu a imagem negativa que se tinha dessa população e, com isso, o incentivo à imigração dessa comunidade começou a despontar.

A questão da imigração judaica tornava-se cada vez mais complexa, conforme aumentava a quantidade de judeus da Europa Central que chegava ao Brasil.  Diversas pessoas dos altos escalões, nesse momento, apoiavam uma imigração judaica ampliada, apesar das restrições permanecerem. No entanto, essa iniciativa favorável não tinha como base a defesa de princípios humanitários. Semelhantemente a algumas políticas nazistas, o que se defendia era apenas a entrada de pessoas ricas e que pudessem contribuir de alguma forma para o desenvolvimento econômico do país.

Por isso, os judeus da Europa Central eram tão bem vistos, já que eles eram tidos como os detentores de experiência técnica, industrial e agrícola. Zalka conta que nunca sofreu nenhum tipo de discriminação antissemita, racista ou preconceituosa.

Sempre teve um bom relacionamento com seus vizinhos e colegas, decorrente, em sua opinião, das trocas e aproximação com seus colegas na escola. Ele estudou em um colégio público, próximo ao Campo de Santana e, tendo o contato diário com alunos brasileiros, descobriu a cultura do país. Os hábitos e costumes de seus colegas de turma não foram, de forma alguma, uma barreira para ele. Nem mesmo seus hábitos próprios, relacionados à religião judaica – sua família era bastante religiosa –, interferiram em sua integração. Na região em que morava, havia uma sinagoga (chamada O Templo), que ficava perto da atual Cruz Vermelha, onde a grande maioria das pessoas era judia, o que facilitava manutenção dos seus hábitos culturais.

Quando os diversos imigrantes judeus chegaram ao Brasil, eles criaram instituições de caráter econômico, social, comunitário e político, como bibliotecas, organizações de ajuda, asilos para idosos, casas funerárias e restaurantes. Houve também a criação das Landmannshaffen, organizações de pessoas vindas de diversas cidades da Europa Oriental. O principal objetivo era manter o grupo cada dia mais unido e coeso.

Desde esse período, já havia uma consciência de solidariedade e um senso de responsabilidade pela sobrevivência do povo judeu. Um fator ilustrativo da força da comunidade judaica brasileira é o grande número de organizações em relação ao contingente populacional.

Para Zalka, o elemento primordial para sua integração fácil foi o rápido aprendizado da língua portuguesa. “Aprender o português foi fácil, bem fácil”, afirmou ele.

“As letras do polonês são iguais as do latim.” O único fator de estranhamento no Brasil foi o clima: na Polônia, os termômetros marcavam 39 graus negativos, enquanto aqui, a temperatura beirava 40 graus – positivos, claro.

Posteriormente, alguns fatores ajudaram a descentralizar esse senso de comunidade tão forte. Dentre eles, pode-se citar as organizações sionistas e não sionistas e principalmente os clubes recreativos e culturais. O peso dos leigos na estrutura organizacional do Grupo é relevante, na medida em que possibilitou maior abertura nas relações com judeus de outras vertentes e até mesmo com não-judeus.

No Brasil, assim como nos Estados Unidos, Argentina e Palestina, o ano de 1939 representou o ápice da entrada de judeus, por causa do início da Segunda Guerra Mundial. A partir daí, os números foram declinando até o final de 1944. Este fato é decorrente da grande dificuldade encontrada pelas pessoas em sair da Europa, a expansão do controle nazista pela Europa do Leste (e, assim, a impossibilidade de os judeus fugirem) e a falta generalizada de interesse das grandes potências não pertencentes ao Eixo (inclusive dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Canadá) em tornar prioritária a salvação dos refugiados. Esses desdobramentos também desanimaram as agências de suporte aos refugiados.

Em 1945, após o fim da Segunda Guerra Mundial, os ideais democráticos voltaram prevalecer, o que possibilitou um entusiasmo na comunidade judaica para retomar as suas vidas de uma forma mais justa e decente. O assassinato de milhares de judeus durante a Guerra despertou uma consciência de solidariedade e um senso de responsabilidade pela sobrevivência do Grupo, pela própria comunidade judaica.

Por isso, diversas instituições foram criadas e/ou reorganizadas com o objetivo de auxiliar os prováveis imigrantes da Europa a manter o grupo cada dia mais unido e coeso.

Criando o hífen

Zalka deixou familiares e amigos na Polônia. Hoje já não tem mais notícias deles, e acredita que muitos tenham falecido. Supõe que apenas seus familiares russos – seu pai era natural da Rússia – estejam vivos. Atualmente, não tem nenhum contato com o país de origem, seja por meio de jornais, canais de televisão ou telefone.

Mesmo assim, de uma forma geral os jornais tiveram um papel importantíssimo na transmissão de informações para a crescente comunidade judaica na época de sua chegada. O primeiro jornal brasileiro em iídiche – idioma tradicional judaico, atualmente mais utilizado pelos judeus ortodoxos -, Di Menscheit (Humanidade), foi publicado em 1915, em Porto Alegre, para atender a crescente comunidade de ex-colonos da ICA. Os jornais em iídiche ligavam a comunidade judaico-brasileira, em expansão, com os judeus espalhados pelo resto do mundo. A criação desses jornais é um indício de que os imigrantes já estavam tomando o Brasil como lar.

A imprensa em iídiche também ressurgiu com bastante força em 1947, com a Idishe Presse e a Idishe Tzaitung, no Rio de Janeiro, e Undzer Shtime e Der Naier Moment, em São Paulo, além de uma série de outros jornais judaicos escritos em português.

A produção literária também ascendeu de forma significativa com diversos livros publicados, tanto em português quanto em iídiche, sobre temas relativos ao judaísmo. Hoje em dia, Zalka e Rachel frequentam a sinagoga Beit Yehuda, no clube Monte Sinai, no bairro da Tijuca, região que escolheram para morar.

A questão judaica está presente na vida deste casal, não apenas em suas origens e costumes, mas aparece em cada canto de seu apartamento, materializada em objetos sagrados por toda a casa. São marcas de uma identidade que continua viva. Em constante negociação, mais para sempre viva.

Iamê Barata



Categorias:diásporas

%d blogueiros gostam disto: