BRASILÉIA: O FIM DE UMA ETAPA

Imigrantes começam a ser transferidos para novo abrigo no Acre.

Os mais de 700 imigrantes, na maioria haitianos, que estavam em um abrigo na cidade de Brasiléia, distante 232 km da capital, começaram a ser transferidos para um novo abrigo montado no Parque de Exposições Marechal Castelo Branco, em Rio Branco. A transferência teve início sábado 12, com chegada de cinco ônibus com 240 imigrantes a Rio Branco.

De acordo com o secretário estadual de Desenvolvimento Social, Antônio Torres, a estrutura montada no Parque, que costuma ser utilizado para eventos e para acolher desabrigados pelas cheias do Rio Acre, tem capacidade de acolhimento superior à do abrigo em Brasiléia, que é de 250 pessoas. “A capacidade do novo abrigo supera a quantidade de imigrantes que vêm. Dá para atendê-los e até um número maior”, afirmou ele.

Torres acredita que, ao transferir os imigrantes para a capital, ficará mais fácil para o governo auxiliá-los. A medida ainda alivia a situação do município de Brasiléia, onde eles estavam abrigados até então.

“A primeira coisa que com certeza vai facilitar é a situação do município de Brasiléia, que acabará tendo um pouco mais de tranquilidade na oferta de serviços públicos. Porque é uma cidade pequena estruturada para um número bem menor de pessoas e a situação da imigração vinha causando alguns transtornos. Além disso, sabemos que em Rio Branco aumentarão as facilidades dos serviços de documentação e para que possam seguir viagem, mesmo porque por ser a capital tem mais opções de atendimento”, explica.

O secretário diz que serão mantidos serviços como emissão dos vistos, cadastros de pessoa física (CPF) e carteiras de trabalho. Ele diz que o executivo estadual espera uma resposta do governo federal para que esse serviço possa ser oferecido dentro do Parque de Exposições.

Ao chegar ao novo abrigo, os imigrantes passam por um cadastro em que, entre outras coisas, precisam responder para qual cidade pretendem seguir viagem e se já possuem família no Brasil. Depois disso, eles estão recebendo vacinas contra doenças como tríplice viral, febre amarela e hepatite B. Por fim, eles recebem colchões e algumas orientações sobre as regras do abrigo.

‘Vida melhor’

Na maior parte dos casos, os imigrantes não pretendem ficar no Acre –eles querem ir para estados nas regiões Sul e Sudeste do país, onde acreditam que possam ter melhores oportunidades para ter uma vida melhor. Esse é o caso dos haitianos Jean Pierre, de 35 anos, Sergio Pierre Louis, de 31 anos e da dominicana Maria de Lourdes, de 38 anos.

Engenheiro civil, Louis está há dois meses no Brasil. Enquanto sua família preferiu ir para os Estados Unidos, ele resolveu tomar uma rota diferente. “Escolhi Santa Catarina porque escuto falar muito de lá, que é muito bonito. Lá vou encontrar com um amigo e tentar arranjar trabalho”, conta.

Santa Catarina também foi destino escolhido por Maria de Lourdes, que deixou quatro filhos na República Dominicana. “Pretendo trazê-los assim que tiver um emprego e onde morar”, conta.

Já o operário da construção civil Jean Pierre acredita que possa se dar melhor em São Paulo, onde está disposto até a mudar de ramo. “Vim para o Brasil para melhorar minha condição. Pretendo arranjar trabalho na construção civil, ou ramo hoteleiro”, diz. No novo abrigo, todos se questionam quanto tempo ainda devem ficar por lá.

Voos fretados

Por causa da cheia histórica do Rio Madeira, em Rondônia (RO), que tem causado interrupções no tráfego de BR-364, via terrestre que liga o Acre ao restante do Brasil, os imigrantes não estavam conseguindo deixar o estado para outras regiões do país, o que acabou causando uma superlotação no abrigo em Brasiléia. Para solucionar o problema, o governo começou a enviá-los nos voos fretados para trazer mantimentos para o estado.

De acordo com a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos, entre os dias 1 e 7 de abril mais de 950 imigrantes deixaram o estado dessa forma.

Mesmo com a transferência para o novo abrigo, a medida continuará sendo empregada. “Enquanto a gente tiver a possibilidade de manter o fretamento nesse período vamos continuar, para facilitar ainda mais o fluxo. Acredito que a gente possa estar retomando a saída deles nesta segunda-feira [14]”, enfatiza Torres.

Abrigo fechado

Com a transferência dos imigrantes, o abrigo em Brasiléia será fechado em definitivo. De acordo com o secretário, os imigrantes que chegarem ao estado serão orientados a seguir para Rio Branco. “Foi solicitado da Polícia Militar para que num primeiro momento pudesse deixar alguém no município de Assis Brasil para orientar os que chegam. Brasiléia não fará mais esse tipo de atendimento.”

Rota de imigração

Cerca de 30 imigrantes chegam ao Acre todos os dias através da fronteira do Peru com a cidade de Assis Brasil, distante 342 km da capital. Na maioria são imigrantes haitianos que deixam a terra natal, desde 2010, quando um forte terremoto deixou mais de 300 mil mortos e devastou parte do país.

Eles vêm ao Brasil em busca de uma vida melhor e de poder ajudar familiares que ficaram para trás. Para chegar até aqui eles saem, em sua maioria, da capital haitiana, Porto Príncipe, e vão de ônibus até Santo Domingo, capital da República Dominicana, que fica na mesma ilha. Lá, compram uma passagem de avião e vão até o Panamá. Da Cidade do Panamá, seguem de avião ou de ônibus para Quito, no Equador.

Por terra, vão até a cidade fronteiriça peruana de Tumbes e passam por Piura, Lima, Cuzco e Puerto Maldonado até chegar a Iñapari, cidade que faz fronteira com Assis Brasil (AC), por onde passam até chegar a Brasiléia.

Segundo o governo do estado, nos últimos três anos, cerca de 20 mil imigrantes já passaram pelo abrigo em Brasiléia.

(CBN Foz – 13/04/2014)



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