O ABRIGO MUDOU, MAS AS DIFICULDADES CONTINUAM

Em vez de amenizar os problemas dos imigrantes, a transferência do posto de acolhimento de Brasileia para Rio Branco vem complicando mais ainda as suas vidas

Imigrantes estão sendo surpreendidos quando chegam na cidade de Assis Brasil (AC), distante 342 Km da capital acreana, na fronteira com o Peru, ao serem informados de que o abrigo localizado em Brasiléia, distante a 232 km da capital, foi fechado e transferido para Rio Branco.

Segundo o G1, estrangeiros que cruzam a fronteira não têm mais dinheiro para seguir viagem até Rio Branco e estão acampando no município. Ele conta que alguns decidiram ir a pé para a capital, outros esperam por uma solução na cidade. Ainda segundo o morador, os taxistas estariam cobrando um valor alto para realizar o percurso entre os municípios.

O G1 entrou em contato com o secretário de Desenvolvimento Social (Seds), Antônio Torres, responsável pelo abrigo na capital, que afirma que não estava ciente da situação, porém, ressalta que a decisão de viajar para o Acre de forma irregular é dos imigrantes. “É uma decisão deles vir para o Acre. Nós apenas mudamos o ponto de acolhimento para Rio Branco”, explica.

Sobre a informação de que taxistas estariam cobrando preços altos para realizar o percurso entre Assis Brasil e Rio Branco, o secretário lamenta a situação. “Infelizmente é um sistema dos próprios taxistas para poder trazê-los até Rio Branco. Não se pode afirmar nada, mesmo porque eles já faziam esse trajeto de levar imigrantes de Assis Brasil até Brasiléia”, fala.

Transferência

O governo do estado anunciou o fechamento do abrigo em Brasiléia no último dia 8 de abril. A transferência dos mais de 700 imigrantes que estavam no local ocorreu entre os dias 12 e 15 de abril. Os estrangeiros que já tinham o visto seguiram viagem para a cidade de Porto Velho (RO), através dos aviões que foram fretados pelo governo para trazerem mantimentos para o estado e de lá, seguirem viagem.

Segundo o secretário da Seds, Antônio Torres, ao menos 512 imigrantes encontram-se alojados no abrigo da capital.

Lembramos que mais de 700 imigrantes irregulares, que estavam no abrigo em Brasiléia (AC) distante 232 km da capital, foram transferidos para Rio Branco entre sábado (12/04) e terça-feira (15/04). Cerca de 421 viajaram para Porto Velho (RO), onde a maioria vai pegar ônibus com destino a São Paulo. De acordo com a Secretaria de Assistência Social do Acre, cerca de 451 imigrantes estão alojados no Parque de Exposições Castelo Branco até a quarta-feira (16/04), mas a moradia é temporária. O governo está em busca de um local adequado na capital para alojar os estrangeiros, tendo haitianos, senegaleses e dominicanos como as principais nacionalidades. Entre sábado e quarta-feira, cerca de 872 imigrantes já passaram pelo novo abrigo

O novo abrigo no Parque de Exposições Marechal Castelo Branco é temporário. O local é usado para eventos, como a Expoacre, que deve ocorrer no final de julho deste ano. Segundo o secretário de Desenvolvimento Social, Antônio Torres, um novo espaço está sendo procurado para alojar os imigrantes na capital, mas, no momento a prioridade é conseguir os documentos necessários para que os imigrantes que desejam viajar possam sair do estado.

“Nós estamos tentando identificar outro espaço, tem uma equipe responsável por isso. Mas no momento estamos fazendo o acolhimento no Parque de Exposição, é a prioridade. Estamos correndo contra o tempo, aqui não dá para ficar por mais de dois meses. É o tempo para conseguir um novo espaço”, afirma.

Para o secretário, o novo espaço terá que suprir uma série de necessidades básicas para a estadia dos imigrantes. “De qualquer forma, o novo espaço tem que ter uma estrutura de banheiros, pias, um lugar para lavar roupa e de higiene pessoal. Não é uma estrutura pequena e terá que ser feita uma adaptação para o serviço que irá ser oferecido”, explica.

O secretário de Justiça e Direitos Humanos, Nilson Mourão acredita que, além de um espaço adequado para abrigar os imigrantes, é preciso estabelecer um conjunto de procedimentos e ações permanentes tendo como ponto de partida a política migratória de fronteira aberta.

“Se a fronteira está aberta, as rotas vão se consolidando. Nós temos dois caminhos, ou ignoramos, o que gera uma situação delicada nos municípios acreanos, ou acolhemos esses imigrantes. Se nós acolhemos, temos que estabelecer um fluxo que possa funcionar rotineiramente e isso implica em custos. Precisamos construir uma política pública para receber os imigrantes irregulares que chegam no nosso país”, afirma.

Para ele, o ideal seria que entidades especializadas em imigração atuassem no estado e fossem responsáveis pela situação. “Temos conseguido fazer um trabalho, mas não temos nenhuma especialização nessa área.  Sonho que instituições que tenham experiência nessa área venham e administrem, cuidem desse problema com a colaboração do governo”, idealiza Mourão.

Pedido de ajuda

O haitiano Guerrier Garausses, de 31 anos, era motorista em seu país de origem. Como muitos conterrâneos, ele veio ao Brasil em busca de emprego e participou da transferência de abrigo. Guerrier nem lembra há quanto tempo está no Brasil. “Talvez um mês”, estima. Ele precisa conseguir o protocolo de pedido de refúgio no país.

“Eu tenho o meu passaporte, mas preciso do protocolo da Polícia Federal para poder sair do abrigo e ir para outro estado. Como não tenho família no Brasil, preciso de ajuda para trabalhar, viver. Trabalho com qualquer coisa”, afirma o haitiano.

Ele fez o trajeto realizado pela maioria dos haitianos que chegam ao Acre. Saiu da capital haitiana, Porto Príncipe, até a capital da República Dominicana. Lá, foi de avião até o Panamá e seguiu para o Equador. Seguiu pelo Peru até a cidade de Iñapari, que faz fronteira com Assis Brasil (AC).

Após chegar ao Brasil através de Assis Brasil, os haitianos seguiam para Brasiléia. Porém agora, eles devem começar a ir direto para Rio Branco. De acordo com o secretário de Assistência Social, Antônio Torres, a notícia da desativação do abrigo em Brasiléia e a transferência para a capital já se espalhou entre os imigrantes e um grupo de 60 pessoas já chegou por conta própria ao Parque de Exposição na terça-feira (16).

“Nós já fizemos a transferência dos haitianos que estavam no abrigo, que era nossa responsabilidade. A partir de agora eles vem por conta própria, e já estão começando a fazer isso.  A informação corre rápido, eles tem formas de se comunicar, então acreditamos que não haverá qualquer problema no meio do caminho”, afirma. O secretário ressalta, ainda, que existem pessoas orientando em Brasiléia sobre a transferência do abrigo para a capital.

O haitianos Herode Mondelus, de 34 anos, afirma que nem chegou a visitar a cidade de Brasiléia ao saber da transferência e seguiu direto para a capital, chegando ao local no ultimo domingo (13). Com experiência na construção civil, ele já sabe na ponta da língua o nome da cidade em que irá morar no Brasil: Belo Horizonte.

“Tenho dois irmãos no Brasil, que trabalham com construção em Belo Horizonte. Quero viajar para lá”, afirma. A expectativa do rapaz e conseguir um emprego e mandar dinheiro para a família que ainda vive no Haiti. “Tenho uma filha e minha esposa. Também estão lá minha mãe e minhas irmãs”, conta.

Herode também está a espera do visto de refugiado para poder seguir viagem. Apesar de achar a viagem difícil, ele afirma que não passou por nenhuma situação perigosa durante o trajeto. “É difícil chegar em Belo Horizonte. Foi meu irmão que me disse como chegar ao Brasil. Quero conseguir dinheiro para mandar a minha família no Haiti, e se possível trazer minha esposa e minha filha para morar aqui”, diz.

Imigrantes no Acre

A maioria dos imigrantes que chegam ao Acre são haitianos, que deixam a terra natal desde 2010, após um forte terremoto devastar o país, deixando mais de 300 mil mortos. Nilson Mourão lembra que, em um primeiro momento, a comunidade de Brasiléia foi receptiva com os estrangeiros.

“A comunidade foi muito solidária e conseguiu manter suas ações fraternas até um certo tempo. Quando a imigração continuou, a comunidade foi se retirando. Uma coisa é fazer solidariedade por um mês. Outra é não saber quando termina”, explica o secretário.

Para o secretário, a imigração irregular já teve quatro momentos críticos, que ele classifica como crises. Ele lembra que logo no início os estrangeiros foram alojados em um hotel em Brasiléia, destruído após uma enchente atingir a cidade em 2011. “Essa foi a primeira crise, pois eles não tinham para onde ir. Então alugamos uma casa muita pequena. Foi quando ocorreu a segunda crise, o fechamento da fronteira”, conta Mourão.

Ele diz que imigrantes ficaram retidos no Peru, acumulando mais de 200 estrangeiros na região. Foi necessário transferir o grupo para Rio Branco antes que a situação ficasse mais complicada. Em 2012 o governo criou o abrigo de refugiados, em Brasiléia.

O terceiro momento crítico foi a superlotação de imigrantes no abrigo devido a demora de expedição dos vistos da Policia Federal, em 2013. “Eles chegavam em grande quantidade, mas saíam poucos. Então realizamos uma força tarefa nacional”, afirma Nilson.

Para o secretário, o estado enfrenta a quarta crise imigratória, ocasionada pelo acumulo de imigrantes. Desde o inicio do ano, o fluxo de saída diminuiu, com a pouca procura da mão de obra pelas empresas. A situação ficou mais complicada após o isolamento por via terrestre do Acre, devido a cheia do Rio Madeira. O número de imigrantes no município de Brasiléia aumentou, chegando a mais de 2,5 mil.

Para tentar amenizar a situação, o governo do Acre resolveu usar os voos fretados que trazem alimentos de primeira necessidade ao estado para levar esses imigrantes de avião para Porto Velho (RO) de onde seguem viagem para São Paulo (SP) e outros estados do sul e sudeste.

Custo por Haitiano

Mourão afirma que um imigrante em busca de refugio que fica 15 dias no abrigo custa, em média, R$ 900. O valor é de alimentação, água, estrutura, compra de produtos de limpeza e material de higiene, diária de servidores, entre outras despesas das secretária. As despesas são pagas pelos governos estadual e federal.

A intenção do governo é tentar diminuir a média de tempo, para que os estrangeiros fiquem cerca de cinco dias no abrigo. “O custo depende da quantidade de dias, na época a média era de 15 dias. Queremos reduzir para cinco dias”, afirma.

Ele salienta que nenhum dinheiro é entregue para os imigrantes, que recebem do estado o acolhimento e auxílio para a retirada de documentação. “Eles recebem espaço para dormir, banheiro, água, três alimentações diárias, ajuda para retirar a documentação. Nós não repassamos para os imigrantes nenhum tipo de moeda”, afirma.

(G1 – 19/04/2014)



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