IMIGRANTES A SERVIÇO DE IMIGRANTES

Congoleses ensinam francês a profissionais de saúde de São Paulo para que a língua deixe de ser um entrave no atendimento aos imigrantes e refugiados.

Ontem (sábado 17), os congoleses Caddy Diakanua Batufunda e Kanga Moke Heroult estrearam como professores de francês em uma sala da Paroquia Nossa Senhora da Paz, na região do Glicério, no Centro de São Paulo.

A nova função faz parte de um projeto antigo da dupla de agentes de saúde da Unidade Básica de Saúde (UBS) da Sé. Eles buscaram parceria com os missionários católicos, estimulados pela presença dos haitianos na cidade. “Era um desejo antigo, mas ferveu com a chegada de haitianos a São Paulo”, revela Caddy.

A proposta é ensinar o idioma aos demais colegas do setor para que a língua deixe de ser um entrave no atendimento aos imigrantes e refugiados que chegam diariamente à cidade. “Nossa ideia é que todo mundo saiba acolher em outras línguas. Isso facilita também o nosso trabalho”, resumem.

Embora o foco seja pontual, basta ter interesse em aprender e empenhar R$ 25 para garantir uma cadeira no espaço cedido pela Missão Paz – braço da igreja católica que dá suporte aos estrangeiros que vivem no Brasil. As aulas são quinzenais, sempre aos sábados, das 13h às 15h30. Por ora, cinco agentes de saúde manifestaram interesse.

Caddy e Kanga são dois dos nove estrangeiros – quatro bolivianos, dois portugueses e um japonês – que atuam como agentes de saúde na cidade. O número é considerado por eles insuficiente para atender a demanda. Segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde, o município tem 7332 agentes comunitários em seu quadro de servidores. A média salarial é de R$ 950,00.

Há sete anos no Brasil, o reservado congolês Caddy pede até para que sua idade não seja revelada. É monossilábico quando questionado sobre sua vida pessoal. Revela, apenas, que reside em São Paulo com a mulher e uma filha, e deixa escapar que a segunda herdeira está a caminho.

Administrador, ele não comenta sobre as razões que o fizeram deixar a República Democrática do Congo para exercer funções variadas e bem distantes de sua formação profissional. Aprendeu o português na ‘raça’, como define, e garante dominar até a escrita.

Graduado em gestão empresarial, o mais próximo que chegou de tal atividade é no atendimento de base como servidor público. “Um gestor pode administrar pessoas também. Então, eu puxo para esse lado.” Soube da vaga de agente comunitário através de um amigo. Participou do processo seletivo, e foi aprovado. Após um ano e cinco meses, acredita que foi humanizado na função.

“Aqui você faz não só o seu serviço, mas você muda também a sua personalidade. Você lida com situações que te trazem retorno. Eu era severo, mais rígido. Não tinha paciência. Minha esposa fala que estou mudando. Estar a serviço dos outros me dá alegria de viver. Acho que estou mudando o mundo, pois quando cheguei aqui não tinha isso (o serviço de agente comunitário).”

Ele, Kanga e os demais agentes estrangeiros são responsáveis por não apenas divulgar a imigrantes e a moradores de rua o atendimento gratuito oferecido pelo Sistema Único de Saúde. Atuam também como interlocutores de pacientes que começam tratamento nas Unidades Básicas quando a comunicação com os médicos é praticamente inexistente.

“Nossa função é fundamental no caso do imigrante. O vínculo é muito grande. Ele é meu paciente também. Entro dentro dele para expressar o que quer. Se eu errar, comprometo o tratamento.”

Cerca de quatro meses atrás, Caddy diz que atendeu uma mulher da República do Congo que chegou à cidade com tuberculose. “Ela não sabia que estava com TB. Foi fundamental a minha ajuda. Eu estava lá para traduzir. A doutora conseguiu entender melhor qual era a doença dela, e encaminhou para o tratamento. Ela está bem, me agradece todo dia. Esse é um dos casos, só.”

O fato de não serem brasileiros também facilita a relação com a população de rua. Caddy revela que o sotaque é rapidamente reconhecido e acaba sendo um convite para uma conversa amistosa.

“É aí que tem a mágica do serviço. Quando você vai começar a falar, ele já te chama de gringo, e começamos a bater papo. Nós temos as nossas técnicas. O brasileiro gosta de futebol, já perguntamos se é corintiano e por aí vai”, explica.

Os congoleses dizem que se sentem em casa no Brasil. Condenam as injustiças do país, e a “libertinagem”, mas exaltam as semelhanças com o local de origem. “O Brasil é o Congo”, diz Caddy.  Para ele e Kanga, os pontos em comum são ainda mais presente na comida, principalmente a baiana. “O tempero é quase igual ao da congolesa.”

A dupla não revela os sonhos pessoais, mas confessam que apesar de satisfeitos com a atividade que atualmente realizam, ainda esperam retornar às respectivas áreas de formação. “Gosto do que eu faço, mas não sou realizado porque não estou trabalhando na minha área. Até hoje eu tenho vontade de trabalhar (na minha profissão).” Kanga é engenheiro, e voa ainda mais alto. “Quero chegar ao topo, ser presidente do Brasil”, brinca.

(CBN Foz – 17/05/2014)



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