REFUGIADOS SÍRIOS EM FLORIPA

Os refugiados sírios só conseguem chegar ao Brasil com visto de turista. O que dificulta a fuga do país em guerra.

Ao ser questionado sobre o futuro, quatro dias depois de desembarcar no Brasil, Shadi silenciou, respirou fundo e respondeu: “Não penso nisso. Só penso em sobreviver”. É justamente esse instinto de sobrevivência que move os refugiados da Síria que vêm para Florianópolis. Eles deixam para trás uma guerra civil com mortes, barbárie e fugas. Há três anos a Síria vem se tornando inóspita para os próprios sírios.

Encurralados, eles fogem do país natal. Ao deixar família e amigos para trás, buscam escapar de um futuro que dificilmente deixará de colocá-los em um dos dois lados da guerra. Em Florianópolis, desde 2012 já foram deferidos 39 pedidos de refúgio humanitário a cidadãos da Síria, segundo o Ministério da Justiça. O número de pedidos em análise aumenta dia a dia, enquanto os sírios podem ser vistos trabalhando e caminhando pelas ruas da Capital.

A realidade, entretanto, está longe de ser tranquila. Além da distância e da saudade, o medo pelos familiares que ficaram na Síria é latente. Temerosos, eles preferem não ser fotografados e não expor o nome completo, resquícios de uma guerra que também é psicológica. Além disso, nem sempre é fácil conseguir emprego e a obtenção do visto como refugiado pode levar meses.

Mesmo assim, pessoas como o comerciante Nadin, que presenciou casas e carros virarem pó nos confrontos entre aliados e oposicionistas do ditador Bashar al-Assad nos arredores de Damasco, capital da Síria, são gratos ao Brasil por abrir as portas aos refugiados. Em setembro de 2013, o Brasil foi o primeiro país das Américas a oferecer asilo humanitário aos sírios. “O Brasil nos concedeu vistos. Muitas vidas foram salvas com isso”, diz Nadin, solteiro e sem filhos, que deixou a mãe no Líbano e o pai na Síria. Aos 53 anos, ele mora com outros quatro refugiados sírios em um apartamento na rua Felipe Schmidt, no Centro.

O papel dos órgãos públicos

Quem recebe e analisa os pedidos de refúgio dos sírios quando chegam ao Brasil é o Conare (Comitê Nacional para os Refugiados). Subordinado ao Ministério da Justiça, o Conare é responsável por conceder documentos aos refugiados e repassar recursos de assistência direta para organizações da sociedade civil, como a Cáritas, entidade que atua em defesa dos direitos humanos no mundo todo.

Advogado voluntário da Cáritas, em Florianópolis, Eduardo Veronese afirma que a entidade tem dois projetos para atender os refugiados sírios no curto prazo: “Um já está sendo feito, que é a doação de alimentos para essas pessoas, diretamente no Centro Islâmico. Outro, não menos importante, é o de ministrar aulas de português para os sírios, principalmente porque eles vêm para trabalhar e a língua pode ser uma barreira”, diz.

O projeto das aulas ainda está em desenvolvimento, porém, Veronese espera em breve colocá-lo em prática. “A Udesc [Universidade do Estado de Santa Catarina] e o Pronatec, do governo federal, serão nossos parceiros”, revela.

Em 2013, o Conare reconheceu e deferiu os pedidos de 256 refugiados sírios em todo país. Em Florianópolis, foram 14 pedidos em 2013, dez em 2012 e 15 este ano. A assessoria do Conare afirma que o órgão controla apenas a emissão de protocolo de refúgio no local onde ele é solicitado. Depois, esses cidadãos têm livre trânsito pelo país, como qualquer brasileiro.

Tiago Silva, secretário de Assistência Social da Capital, que tomou posse na quinta-feira, afirma estar inteirado do aumento no número de refugiados em Florianópolis. Segundo ele, a pasta procura maneiras de ajudar os sírios a conseguir emprego, receber alimentos e ter acesso à saúde e educação. “Temos conhecimento da situação e vamos buscar garantir assistência a esse povo”, garante.

Acolhida da comunidade árabe

Um dos que acolhem e ajudam os sírios no cotidiano da cidade desconhecida é o sheik Amin Alkaran, do Centro Islâmico de Florianópolis. Há 30 anos no Brasil, Alkaran recebe os sírios para as tradicionais orações, a leitura de trechos do Alcorão, e para ajudar no que for preciso. Ele afirma que os homens chegam ao Brasil sem familiares, em busca de trabalho. Já mulheres e crianças procuram países vizinhos, como Líbano e Egito. “De qualquer forma, todos têm familiares na Síria, e por isso têm medo de se exporem, pois existem perseguições”, explica.

O Centro Islâmico da Capital é local de encontro entre pessoas que vieram da Síria e membros da comunidade árabe na cidade. Entre homens e mulheres com origens semelhantes, a adaptação dos sírios ganha em rapidez e ajuda a confortar as incertezas do presente. Exemplos de superação e volta por cima dos que frequentam a mesquita não faltam, como é o caso do comerciante Ibrahim Soumaille, 50 anos, que também fugiu de uma guerra civil em seu país, o Líbano.

Em 1981, Soumaille seguiu os mesmos passos dos sírios de hoje e desembarcou em Florianópolis. Uma esposa brasileira, três filhos e 33 anos depois, ele criou raízes na Capital. Entre as duas guerras, ressalta, existem muitas diferenças. “A guerra na Síria é muito pior do que aquela no Líbano, a violência é maior”, pontua.

Com tanta experiência, é de Soumaille muitos dos conselhos e ensinamentos que os sírios recebem nesse início de jornada em Florianópolis. “Os brasileiros reclamam do Brasil, mas esse país tem muito mais oportunidades do que os que vivem em guerra no Oriente Médio. Basta vir para cá e trabalhar. Tenho certeza que os irmãos sírios vão conseguir”, torce.

Nadin, Nurodin e Shadi

A reportagem do Notícias do Dia conversou com três refugiados sírios que moram em Florianópolis. Nas conversas, com o sheik Amin Alkaram como tradutor, a simplicidade dos sírios contrastava com a força que transparecia dos corações acostumados às crueldades da vida.

Shadi, aos 20 anos, chegou sozinho ao Brasil, há poucos dias. “Lá eu não tinha opção. A maioria dos homens da minha idade é chamado para servir em um dos dois exércitos. Eu quero trabalhar e estudar”, revela. Ele está longe dos pais, mas em meio a uma comunidade árabe de Florianópolis com cerca de 300 pessoas, que o acolheu. “É como se eu tivesse vindo para os meus familiares. Sinto-me seguro”, afirma.

Simpático, Nadin não esconde o encanto com as belezas de Florianópolis. Mas o que mais o deixou feliz foi conhecer a hospitalidade do povo brasileiro, algo que, garante, dá confiança para os sírios seguirem em frente em busca de uma palavra que todos repetem: “Pretendo me estabelecer aqui para ter uma condição de sobrevivência melhor do que antes”. Seu pedido de visto permanente ainda está sendo analisado, porém, sua gratidão já é fixa: “Sou grato ao Brasil”.

Estudante de mecânica na Síria, Nurodin é um dos sírios mais jovens na Capital. Inquieto, arrisca algumas palavras em português. Sabe que não será fácil aprender o novo idioma, mas também sabe que quase nada nesta vida é fácil. “Meus colegas de trabalho me ajudam com o português. Pode demorar, mas vou aprender a falar bem, já até consigo falar alguma coisa”, diz.

Falta tudo na Síria

O apuro das pessoas atingidas pela guerra civil na Síria é ampliado pela falta de comida, água, medicamentos e combustíveis, de acordo com Nadin. A situação é tão crítica que não é seguro se movimentar pela cidade, ir ao supermercado ou visitar amigos. “São muitos bombardeios e blitze militares – fixas e móveis. Além disso, não existe rotina, porque faltam mantimentos e os que existem têm um alto custo, que é difícil de pagar”, relata Nadin, que ainda procura emprego na Capital.

Segundo levantamento da ONU (Organização das Nações Unidas), são mais de dois milhões de refugiados sírios espalhados pelo mundo. Ainda de acordo com a ONU, o genocídio no país já matou mais de 120 mil pessoas.

Para escapar deste “destino”, Nurodin chegou a Florianópolis há três meses. Com ajuda da comunidade árabe, ele conseguiu emprego em um restaurante. “Já estou trabalhando, e isso é muito bom. Ainda tenho muito a aprender, mas com a ajuda de muitas pessoas, como tenho, vou conseguir”, conta o jovem que nasceu em Damasco.

Sobre as maneiras de matar a saudade dos pais e irmãos, Nurodin revela que se comunica por meio das redes sociais. Tímido, mas sempre com um sorriso no rosto, o refugiado ainda não pensa em morar definitivamente no Brasil. Antes, pondera, precisa se estabilizar por aqui, bem como se acostumar com uma cultura tão diversa da sua. Se depender da comunidade árabe da Capital, isso será fácil. “Gosto do Brasil, mas sempre morei na Síria. Vamos ver o que vai acontecer”, afirma.

Religiosos

Apesar da distância, diariamente os sírios e outros membros da comunidade árabe reservam alguns minutos do dia para as orações em adoração a Alá – o Deus da religião islâmica. Na mesquita do Centro Islâmico, às 16h de uma segunda-feira, 13 homens se perfilaram, descalços, virados para Meca – lugar sagrado do Islamismo, onde teria nascido e está enterrado Maomé, último profeta de Alá.

À frente, o sheik Amin, cabisbaixo e silencioso, dá início ao ritual. Após poucas palavras, eles se ajoelham com a cabeça colada ao chão. Repetem o gesto de levantar e ajoelhar algumas vezes. Ao fim da oração, que durou oito minutos, as pessoas se cumprimentaram e deixaram a mesquita aos poucos.

Nadin nunca deixa de praticar suas orações. “Nós temos horários para praticar as orações coletivas, é algo que nunca deixaremos de praticar, pois é muito importante para nossa cultura e nos aproxima de nossos irmãos”, diz.

Regularização

Os refugiados sírios chegam ao Brasil com visto de turista, com validade de três meses e opção de renovação por mais três, de acordo com a PF (Polícia Federal). O delegado Ildo Rosa, responsável pela comunicação social da PF, afirma que o pedido de refúgio só pode ser feito já em território nacional. “Ao chegarem ao Brasil, os refugiados se apresentam no posto alfandegado dos próprios aeroportos e dão entrada no pedido de concessão de protocolo definitivo, que garante o asilo”, afirma.

Quando procuram a PF para pedir o status de refugiados, os sírios ganham um protocolo provisório que os permite tirar carteira de trabalho e alugar imóveis, por exemplo. “A concessão do protocolo definitivo pode levar até um ano e meio, mas nesse intervalo eles podem trabalhar e viver por aqui normalmente, pois a condição de refúgio nos obriga a acolher um povo que estava em perigo em sua terra”, explica Ildo Rosa.

Leonardo Leite Thomé 

(Notícias do Dia – 27/05/2014)



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