DO MEDO À ESPERANÇA

No singular ou no plural, o refúgio dá motivos para continuar a crer em nossa humanidade.

Perseguição política, conflito étnicos, emprego dos sonhos. Estes são alguns dos motivos que fazem as pessoas fugir de seus países para o Brasil, que espera receber mais de 12 mil pedidos de refúgio até o final do ano. Conheça as histórias de alguns dos estrangeiros que já desembarcaram por aqui

Perseguição política

Há dois meses na capital paulista, esta família congolesa faz parte de um grupo de 2 mil pessoas que entraram com pedido de refúgio no Brasil desde janeiro de 2014. Papy Mbuku, de 40 anos, viu-se obrigado a fugir com a esposa e a filha após sofrer perseguição política em sua terra natal. Lá, trabalhava numa ONG de diretos humanos. “Não éramos da oposição, apenas denunciamos as derrapadas do governo”, diz ele. O Congo enfrenta uma guerra civil que se intensificou há três anos após a reeleição do presidente Joseph Kaliba. Os grupos em conflito brigam pelo domínio de um dos solos mais ricos em minerais do mundo, especialmente o diamante. Em duas décadas de batalha, cerca de 6 milhões de pessoas morreram. Segundo o Comitê Nacional de Refugiados (Conare) e o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), espera-se que 12 mil pessoas de diferentes países entrem com pedidos de refúgio ao Brasil até dezembro. Ao todo, apenas 5.208 pessoas são formalmente reconhecidas como refugiados, vindas de 80 países.

Longe da violência

O colombiano Diego Rebolledo está longe de sua família há quase uma década. Aos 23 anos, resolveu deixar a terra natal em direção à vizinha Venezuela para buscar emprego e fugir da violência em Buenaventura, cidade onde nasceu, a 337 quilômetros da capital Bogotá. Marcada pelo alto nível de pobreza, Buenaventura tem o principal porto da Colômbia, sendo rota para o comércio de cocaína, com a presença de grupos paramilitares, e palco de conflitos armados. “Perdi muitos amigos por causa da violência”, conta Diego, que chegou ao Brasil há dois anos. Hoje ele mora no bairro da Penha, em São Paulo, e trabalha como garçom num restaurante no centro da cidade. Os colombianos são o maior grupo de refugiados no Brasil, com 1.154 pessoas reconhecidas formalmente.

Emprego

“Queria trabalhar com turismo durante a Copa, mas ainda não consegui”, diz o haitiano Dady Simon, que é professor de francês e chegou ao país há oito meses. Desde 2010, quando um terremoto devastou o Haiti, até 2013, mais de 21 mil haitianos obtiveram visto permanente para viver aqui. Eles não são reconhecidos como refugiados, pois as imigrações não foram motivadas por conflitos étnicos, religião ou opiniões políticas. Segundo Andrés Ramirez, representante da Acnur, a Copa e as Olimpíadas ajudaram a impulsionar as solicitações de refúgio, que cresceram cerca de 800% nos últimos quatro anos. “Os olhos do mundo estão voltados para cá.”

Liberdade

Antes de chegar ao Rio de Janeiro, o promotor artístico Koffi Anthony percorreu um longo caminho. Após fugir do Togo em 2005 por denunciar fraude na eleição presidencial, seguiu para o país vizinho, Benim, onde viveu num campo de refugiados. Depois, foi para o Senegal com a noiva, onde continuou ativo na política. Sem o reconhecimento da condição de refugiado, foi novamente ameaçado de morte. No ano passado, decidiu participar da conferência da Organização Mundial de Jovens Cidadãos Ativos, realizada no Rio de Janeiro. Ele desembarcou no Brasil e pediu refúgio. A noiva, no entanto, ficou no Senegal. “Faltou dinheiro para trazê-la”, diz Koffi.

Portas abertas

Com a criação do Estado de Israel, em 1949, o campo de refugiados palestinos de Yarmouk se transformou, praticamente, num bairro de Damasco, capital da Síria. Há três anos, com a eclosão do conflito contra o presidente Bashar Al-Assad, Yarmouk virou novamente palco de guerra, levando a maioria de seus habitantes a fugir. Foi assim que o sírio-palestino Motaz Al Sadi veio parar no Brasil, há cerca de um mês. “Fui primeiro para a Argélia, único país que aceitava palestinos. Então um amigo brasileiro me convidou para vir a São Paulo, agora que o país abriu as portas para os sírios”, diz Al Sadi. Desde 2013, os sírios-palestinos que querem se refugiar no Brasil podem solicitar um visto de turista válido por 90 dias. Hoje, eles são a quarta nacionalidade que mais pede autorização para morar aqui. No ano passado foram 256 solicitações.

Conflito étnico

Segundo dados das Nações Unidas, 90% dos refugiados no Brasil são homens entre 18 e 30 anos de idade. É o caso do africano Alseny Camara. Após ter sido ameaçado de morte em agosto do ano passado, o professor de judô abandonou a República da Guiné, solicitou visto de turista ao Brasil e, desde então, vive no Rio de Janeiro. Sua terra natal enfrenta um conflito entre as mais de 20 etnias que disputam a posse de terras. Em junho de 2013, 150 pessoas morreram durante um confronto na cidade de Fôrer. Seu irmão foi uma das vítimas, esfaqueado por pertencer à etnia Konianke. Depois do episódio, a mãe do judoca pediu que ele fugisse. “Saí da Guiné para ficar longe da morte”, diz. No Rio, o jovem teve de abandonar o judô e trabalha na construção civil, mas não pensa em voltar. “Tenho medo.”

Recorde de humanidade

O governo brasileiro aprovou na semana passada, em um só dia, 680 pedidos de refúgio no país, um número superior ao de solicitações aceitas em todo o ano passado (649), informou em comunicado o escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) em Brasília.

A avalanche de aprovações elevou a 6.588 o número de estrangeiros aceitos como refugiado no Brasil por sofrer perseguições em seus países de origem ou por motivos humanitários, de acordo com a Acnur. As aprovações deste dia equivalem a 10% do total de refugiados no Brasil e superam as 649 de 2013, quando o número de solicitações aceitas triplicou ao de 2012 (199).

A sessão plenária de hoje foi a primeira desde que entrou em vigor a medida administrativa do governo que simplifica o processamento das solicitações de refúgio no Brasil.

“Essa maior produtividade nas análises vem em um momento de crescimento no número de solicitações na ordem de 800% nos últimos quatro anos. Hoje, o Brasil é visto como uma terra de oportunidades não apenas por países vizinhos, mas por vários outros do eixo Sul, sobretudo africanos”, explica Paulo Abrão, presidente do CONARE e secretário nacional de Justiça, citado em comunicado da Acnur.

Entre os estrangeiros aceitos estão 532 vindos da Síria, 57 do Mali, 22 da República Democrática do Congo, 19 da Nigéria, 15 da Guiné, três do Paquistão, três do Togo, dois da Costa do Marfim, um do Líbano, um da Palestina, um da Sérvia e um do Sudão. O Conare, no entanto, rejeitou o pedido de 11 cidadãos de Guiné-Bissau, dois da Nigéria e um de Camarões.

No ano passado, o Brasil já tinha aprovado a entrada de 283 cidadãos procedentes da Síria que alegaram estar fugindo da guerra civil no país. Em 2013, também foram amparados 106 cidadãos da República Democrática do Congo, 87 colombianos e 32 paquistaneses.

As solicitações de refúgio em massa foram aceitas por membros do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), vinculado ao Ministério da Justiça, juntamente com representantes dos ministérios das Relações Exteriores, do Trabalho e do Emprego, da Saúde, da Educação, além da Polícia Federal, a organização não-governamental Cáritas e o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).

(Agências – 06/07/2014)



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