IMIGRAÇÃO GERA INSPIRAÇÃO

O guineense Eliseu Banori lança seu terceiro livro a partir de sua vivência migratória.

Experiência migratória combinada com arte – e com um português que não estamos tão acostumados a nos defrontar. Eis o que deu o tom da última segunda-feira, 8 de setembro, no prédio da Faculdade de Letras da UFRJ, onde Eliseu Banori lançou seu terceiro livro.

“Memórias Fascinantes: Relatos que traduzem o silêncio” é produto de sua vivência no Brasil – e das reflexões que a sucederam – que permitem também a nós, brasileiros, pensar (e re-pensar) nossas atitudes perante quem chega, para além da crença na “democracia racial”.

De origem guineense, Eliseu contou com professores que fizeram parte de sua trajetória acadêmica na produção e elaboração de seu livro: o prefácio é assinado pelo Prof. Antonio Jardim. A orelha do livro, por sua vez, é de autoria da também professora Anabelle Considera. Além disso, estiveram presentes a vice-diretora da Faculdade de Letras, Claudia Fátima Morais, o presidente da Associação dos Estudantes Guineenses, Hilenio Monteiro, e a representante do programa PEC-G. Ao final da programação, amigos de Eliseu, também migrantes, compartilharam seus sentimentos e suas experiências. É com orgulho que o lançamento do livro é recebido não só pela comunidade guineense, mas também pelo programa PEC-G e pela Faculdade de Letras.

Eliseu nos brinda com sonetos de amor, de dor e de dificuldades que combinam-se com a veracidade da experiência e com a sonoridade do português de sua terra natal e, por isso, emocionam. São experiências vivenciadas nessa “terra de mestiços” em que, apesar da existência de muita diversidade, existe, também, muita desigualdade, na qual o negro nem sempre é bem visto – ainda mais quando acrescentadas diferenças culturais. O livro é marcado pelo sofrimento negro e imigrante, mas também pela esperança de melhorias na forma pela qual quem chega no país é tratado.

Os guineenses compartilham muitas dificuldades, mas compartilham, sobretudo, a vontade de superá-las. A partir de seu livro, Eliseu nos mostra que é possível transformar os obstáculos em arte e, assim, em combustível para superação.

Para compreendermos melhor sua experiência e sua motivação para escrever, Eliseu respondeu algumas perguntas, que se encontram a seguir:

Você disse que três momentos marcaram o nascimento de sua obra. Quais foram eles?

Sim, três momentos marcaram o nascimento de “Memórias Fascinantes”. O primeiro momento é o momento em que eu comecei a observar a grande dificuldade dos estudantes africanos: dificuldades financeiras, assim como dificuldade em assimilar as matérias cursadas, no início e durante o curso. Salienta-se que os estudantes africanos, na sua maioria, dependem dos pais financeiramente e, muitas das vezes, os pais não conseguem atender as despesas dos filhos a tempo, devido à situação econômica e política na qual a maioria dos países africanos se encontram.

Em relação à assimilação das matérias, pode-se dizer que a maioria desses estudantes vem de países onde o índice de educação é baixo. A língua portuguesa também é um dos obstáculos na aprendizagem do curso, pois estes estudantes vêm na mala com a língua materna.

O segundo momento é o momento em que comecei a observar o grande sofrimento do negro neste país: as discriminações, preconceito racial e a desconfiança do mesmo nas calçadas e ruas deste país.

O terceiro momento é o momento que comecei a enxergar o desconhecimento do continente africano por parte da maioria do povo brasileiro. Em vários lugares que eu passei, já ouvi perguntas, que às vezes me dá vontade de rir, ora de chorar até as lágrimas secarem. Para isso, escrevi um capítulo denominado “Visão dos brasileiros sobre a África” com a ideia de desmatar esse pensamento do povo brasileiro de que a África é Angola, África é uma Selva.

Seu livro foi pensado para ser lido essencialmente por guineenses ou por todos que se interessam por questões migratórias? Há algo de pedagógico em sua obra?

Bem, o meu livro foi pensado para todos que pensam em questões migratórias, e não só, também para aqueles que amam a literatura, pois o livro é uma mistura de gêneros literários.

Sim, há algo de pedagógico no meu livro, prova disso é o capítulo de educação presente no livro, e o subcapítulo “Professores” do “Convivências na Universidade”, onde procurei mostrar as características de muitos dos professores universitários, onde procurei mostrar que o professor deve conhecer de perto a natureza do aluno, ser simples e humilde. Isso facilita o ensino e aprendizagem.

Como você compreende os fluxos migratórios que tem se configurado de forma cada vez mais intensa entre o Brasil e o continente africano? Para você, o que mudou desde sua chegada? O que ainda pode melhorar?

Esse fluxo migratório tem se configurado de forma cada vez mais intensa entre o Brasil e o continente africano. Entendo que é uma boa oportunidade de crescimento educacional e profissional para países africanos. Acho que muita coisa mudou desde a minha chegada, pois hoje temos bilhete único universitário, alguns estudantes já conseguem moradia no alojamento, o que não era fácil na época. Porém, entendo que as leis de convênios precisam ser pensadas em relação aos estudantes, por exemplo, um estudante africano não pode reprovar duas vezes numa matéria, o que resultaria na sua jubilação.

Os guineenses, no Rio de Janeiro, possuem uma Associação. Como vocês se articulam? E qual é a sua participação?

Sim, existe uma associação dos estudantes guineenses no Rio de janeiro em que faço parte. Desempenhando a função de secretário.

Ana Carolina Calenzo



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