RJ, O 1º. ESTADO A TER PLANO PARA REFUGIADOS

Programa objetiva garantir documentação, educação, emprego e renda, moradia, saúde, e ambiente sociocultural para quem busca normalizar a vida.

Em meio ao aumento do fluxo de refugiados de vários países que procuram o Brasil como abrigo, o Rio de Janeiro coloca em prática uma posição pioneira. A Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos do Rio de Janeiro lançou semana passada um plano inédito em todo o país que permite formalizar políticas de atendimentos a refugiados.

Idealizado nos últimos dois anos em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, o Ministério Público e a Defensoria Pública, o documento coloca o estado em posição de cumprir uma importante etapa no processo de implementação das ações humanitárias, garantindo direitos, proteção, amparo e promoção da dignidade humana àqueles que solicitarem refúgio.

Segundo a Cáritas Arquidiocesana, entidade responsável pelo recebimento desses estrangeiros no Brasil, houve um aumento de 285% no número de chegadas de refugiados entre 2010 e 2014. Só este ano, até junho, 1.542 refugiados ingressaram no país. Destes, 307 chegaram no Rio. “Quando o estado começa a assumir sua responsabilidade, isso se transforma num marco muito importante, num compromisso com a vida dessas pessoas que chegam no Brasil”, diz a coordenadora do Programa de Atendimento a Refugiados da Cáritas do Rio de Janeiro, Aline Thuller.

Para Patrícia Waked Pontes, coordenadora política de atuação aos refugiados no Rio, o aumento do fluxo de refugiados no Brasil se deve muito à estabilidade e à projeção internacional do país, principalmente com os grandes eventos como Olimpíadas, Copa do Mundo e exposições. “O mundo está vendo a mudança da nossa situação, o crescimento econômico do Brasil e isso abre espaço para que eles optem por vir pra cá”, analisa.

O plano lançado na sexta-feira (12/09/2014) tem seis principais eixos nos quais são discutidas as melhores formas de se criar um ambiente para que essas pessoas, chegando ao Rio, possam se integrar à sociedade: documentação, educação, emprego e renda, moradia, saúde, e ambiente sociocultural.

“Nesse momento a gente se iguala à Europa e aos Estados Unidos. O Rio tem um avanço na política humanitária”, conclui Patrícia. Outros estados, como São Paulo e Rio Grande do Sul preparam planos e estão usando como base o documento lançado no Rio de Janeiro.

Nascido na África

No Brasil há seis anos, Charly Congo é um dos refugiados que chegaram aqui depois de sofrerem na pele as mazelas de uma guerra tribal na África. Viu os horrores de massacres entre seus familiares e resolveu tentar uma outra vida longe de suas raízes.

No lançamento do Plano Estadual de Políticas de Atenção aos Refugiados do Rio de Janeiro, seu depoimento emocionou a quem estava presente.

“Cheguei aqui sem dinheiro e sem saber falar nada de português. A gente vem com a roupa do corpo”, relatou o jovem de 34 anos, natural da República do Congo. Hoje, passados seis anos, trabalha como mensageiro em um hotel em Copacabana, cursa ensino superior, fala três idiomas (inglês, francês e português) e tem um filho de poucos meses, fruto de relacionamento com uma brasileira.

“Fui muito bem acolhido aqui. Os brasileiros me deram comida, roupas e lençóis. As pessoas sempre foram muito boas para mim”, diz. Ele só reclama de uma das barreiras que enfrentou: o preconceito. “Cheguei a ser confundido com um traficante”, revelou Charly Congo. Apesar disso, agradeceu ao governo brasileiro por ter lhe dado condições de trabalhar, tirar documentos e refazer sua vida.

No topo do ranking dos que procuram abrigo aqui estão os sírios, com 1.378 refugiados reconhecidos pelo governo federal, seguidos pelos colombianos, com 1.236 casos. O destino preferido por eles é São Paulo, com 403 novos casos só em 2014.

Marcio Allemand

(editado)

(O DIA – 14/09/2014)



Categorias:refugiados

%d blogueiros gostam disto: