UM REFÚGIO CHAMADO BRASIL

Socioeconomicamente atrativo, o país acolhe refugiados obrigados a fugir de suas terras em chamas.

Em 2013, o Brasil, primeiro país do Cone Sul a ratificar a Convenção relativa ao Estatuto dos Refugiados de 1951, abrigava em seu território cerca de 5256 refugiados.

Dados do CONARE também indicam que, forçados a saírem de seus países, africanos, palestinos, colombianos e haitianos são os que mais procuram o Brasil como refúgio. Perseguições políticas, étnicas, religiosas e por nacionalidade são as principais motivações que levam o estrangeiro a buscar o Brasil, tido como hospitaleiro, para se refugiarem.

No cenário internacional, o Brasil é visto como um país de grandes extensões e de bastante pluralidade social. Em desenvolvimento econômico, a nação passa a ser foco para aqueles que são refugiados. Apesar das condições climáticas bastante variáveis, as diferenças culturais, como a questão da língua, são superadas pela imagem internacional de uma cultura aprazível e pela busca por melhores condições de trabalho e de segurança, os principais fatores que motivam a escolha do Brasil como refúgio.

Obrigados a deixarem seus países de origem devido a perseguições políticas, guineenses e togoleses chegam com expectativas de que o Brasil lhes proporcione melhoras sociais. É o caso de Abdoulaye Kaba, de Guiné-Bissau, que chegou em 2012.

O garoto, hoje com 16 anos, buscou refúgio no país do futebol. Ajudado pela Agência Nacional de Organização das Nações Unidas (ACNUR), que dirige ações de proteção a pessoas deslocadas – deslocados internos, apátridas, retornados, migrantes e refugiados -, estuda e pratica o esporte e conta que a pior parte de ser um refugiado é a distância dos pais.

”Em Guiné, eu já jogava bola e participava de campeonatos desde os sete anos de idade. Como fui forçado a deixar meu país, quis vir para um lugar que tivesse a ver com essa minha paixão pelo esporte”, diz Abdoulaye em entrevista liberada pela ACNUR.

Em busca de melhores condições de vida, a entrada de haitianos no Brasil não os coloca em posição de refugiados. Aqui, recebem visto humanitário (criado especialmente para os haitianos) e são redirecionados para assentamentos na periferia de Rio Branco, no Acre. A Secretaria Estadual de Justiça e Direitos Humanos do Acre indica que a situação é precária devido a escassez de funcionários tanto da Polícia Federal, quanto da Receita Federal e do Ministério do Trabalho para legalizar a situação dos estrangeiros aqui chegados. O espaço para os assentados está funcionando com o dobro de sua capacidade de lotação.

O número de reassentados no Brasil também cresce. O fenômeno se configura por ser uma continuidade do processo de refúgio: refugiados em outros países são reassentados no Brasil. Conflitos envolvendo as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia e a descrença no acordo entre a guerrilha e o governo faz com que colombianos sejam o maior número de reassentados no Brasil.

Logo em seguida os palestinos, fugidos da crise no Oriente Médio, são o segundo maior grupo de reassentados no país. É o caso de Ibrahim Said Abu Zahra, de pais sunitas, e que apesar de ter nascido em Bagdá, Iraque, nunca foi considerado iraquiano.

Devido a saída de Saddam Hussein e as consequentes perseguições xiitas, em 2003 o palestino foi refugiado em um acampamento no deserto do Líbano e depois reassentado no Brasil, em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Ibrahim hoje vive com a família e lamenta os conflitos de guerra. O palestino e sua família são ajudados pela Associação Antônio Vieira, responsável por assentamentos no Rio Grande do Sul. A ONG indica que o principal problema para os assentados é o isolamento e por isso ajuda reassentados em questões como moradia e melhores oportunidades de trabalho.

As dificuldades políticas, econômicas e sociais no Brasil ainda são grandes. Problemas em validação de diplomas de profissionais no que diz respeito a mercado de trabalho e de falta de preparação estrutural para a recepção dos estrangeiros são exemplos da realidade brasileira. No entanto, o país é pioneiro no Estatuto dos Refugiados e em políticas públicas voltadas para estrangeiros refugiados, assentados e reassentados no país. O fato de o Brasil ser uma nação multicultural favorece a adaptação do recém chegado e também atrai novos fluxos de refugiados.

Victor Soriano

(oestrangeiro.org)



Categorias:refugiados

%d blogueiros gostam disto: