‘MAIS BRASILEIROS’ QUE OS NATIVOS

Eleições deste ano tiveram 111 candidatos nascidos em outros países.

As eleições deste ano no Brasil tiveram 111 candidatos que não nasceram no Brasil, mas, naturalizados, adotaram o País como pátria e buscaram conquistar cargos públicos. É o caso de Rachel Moreno (PT), que foi candidata a deputada federal e fugiu da Guerra de Suez, no Egito, e hoje se considera “mais brasileira do que qualquer outro”.

Rachel tinha 11 anos quando deixou a cidade de Alexandria, no Egito, com os pais e uma irmã, e desembarcou em território brasileiro em 1957, após sua família judia-egípcia enfrentar dias difíceis na guerra. Ela conta que na época o Brasil já “fazia parte do imaginário” dos seus familiares, pois era um dos poucos países abertos a imigrantes.

“Cada pessoa podia sair com até U$ 100 no bolso [do Egito]. Minha mãe, que até então nunca tinha trabalhado, virou secretária porque falava francês e inglês. Como eu era criança, não falei por dois meses. Tinha medo de falar besteira na escola”, relembra a psicóloga e escritora, ressaltando que uma das maiores barreiras de adaptação foi a língua portuguesa. Até hoje a família conserva práticas da cultura judaica.

A candidatura política, segundo Rachel, surgiu quase que por acidente após uma amiga desistir na última hora na disputa. “Nunca tinha pensado nisso”, confessou. Com uma campanha “pobre de recursos e predominantemente militante”, a psicóloga formada na Universidade de São Paulo (USP) teve como principal bandeira a equidade de gêneros e representação das mulheres na política. Ela disse que nunca foi alvo de preconceitos por sua origem, mas para quem pensar em criticá-la por não ser “brasileira pura”, ela responde: “Estou aqui desde 1957. Sou mais brasileira do que qualquer outro, na verdade”.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), entre os candidatos naturalizados, quase 80 buscaram vagas nas Assembleias Legislativas e outros 30 tentaram conquistar assentos na Câmara dos Deputados, em Brasilia, capital Federal, onde dois candidatos disputaram cargo de deputado distrital, um a segundo suplente de senador e outra a vice-governador.

Alguns candidatos preencheram ainda ficha de candidatura do TSE com a cidade de origem, como A Caniza (Espanha), Bekarzala (Líbano), Cabo Verde (Portugal), Castrovillari (Itália), Concepción (Paraguai), Haifa (Israel), Montevidéu (Uruguai) e Trípoli (Líbano).

Entre os Estados do Brasil, São Paulo está no topo do ranking como o que teve mais candidatos naturalizados nas eleições deste ano, com 35 representantes. Empatados com o segundo lugar, aparecem os estados de Minas Gerais e Pernambuco, com 13 naturalizados cada.

De acordo com a Constituição Federal brasileira, estrangeiros estão aptos a concorrer a cargos eletivos no Brasil desde que sejam naturalizados. A única exceção na corrida eleitoral é a Presidência da República, cargo exclusivo aos brasileiros natos. A vice-presidência, presidência do Senado e da Câmara dos Deputados também não podem ser ocupados por estrangeiros, mesmo naturalizados.

Antônio Carlos Lacerda

(Pravda – 15/10/2014)



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